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Curupira vira 'demônio' em filme e gera polêmica sobre folclore brasileiro

Cena de "Curupira - O Demônio da Floresta"  - Divulgação
Cena de 'Curupira - O Demônio da Floresta' Imagem: Divulgação

Fernanda Talarico

De Splash, em São Paulo

26/11/2021 04h00

"Curupira - O Demônio da Floresta" é tido por seus produtores como o "primeiro filme de terror maranhense" e vem gerando bastante polêmica desde que começou a ser divulgado, em outubro passado. O trailer e o pôster da produção receberam duras críticas que acusam o título de transformar o Curupira, figura icônica do folclore brasileiro, em um demônio.

Dirigido e roteirizado por Erlanes Duarte, o filme conta a história de um grupo de amigos que vai até uma ilha deserta e começa a ser perseguido pelo "vilão". A problematização, portanto, começa justamente na maneira como o personagem é colocado na trama, afinal, ele é um regulador das matas, não um assassino sem piedade.

A lenda do Curupira diz que ele é um protetor das matas, que exige o respeito de quem adentra o local, além de cumprir a função reguladora: se você mata mais do que precisa para comer, matar fêmeas grávidas ou outra série de coisas que não são justas na relação do homem com a natureza, ele castigará. Sua lenda é uma das mais antigas registradas no Brasil, em 1560, pelo padre José de Anchieta.

No entanto, a versão apresentada no filme mostra o personagem quase como um maníaco que mata um por um do grupo de jovens, mostrando que uma boa parte das críticas feitas à produção estavam certas.

Para o pesquisador, jornalista e doutor em folclore brasileiro, Andriolli Costa, "Curupira - O Demônio da Floresta" não é o primeiro e está longe de ser o último longa que "pega culturas populares e transforma em um pastiche, atropelando todo o valor que essas culturas têm".

Transformam em monstros do cinema e transformam em criaturas reduzidas a essa alcunha do demônio, que é uma alcunha de uma lógica cristã. Ela favorece essa compreensão binária de que ou uma coisa é de Deus ou do demônio, e se é uma coisa do demônio, ela tem que ser destruída e morta.

Em conversa com Splash, Costa explica que o Curupira que aparece na produção é uma espécie de "monstro de látex" que, ao ser colocada como antagonista, é mostrado como uma "máquina de matar", bastante diferente do que é esperado de um filme que adapte as culturas populares.

Para ele, a lenda do protetor das matas foi distorcida, afinal, a matança começa porque os jovens protagonistas jogam uma garrafa de cerveja na praia e decidem jogar um jabuti de um lado para o outro. "Com certeza isso é um tipo de violação da relação harmoniosa com a natureza, mas é uma violação tão pueril que se torna absurda."

É como se o espectador fosse convidado a torcer contra o Curupira justamente porque ele está exagerando, e porque ele sequestra uma criança e se faz passar pela mãe dela. O filme te faz querer o Curupira morto.

Segundo o folclorista, há situações piores que talvez o personagem devesse se importar mais. "Ele não deveria estar atacando quem comete incêndios criminosos? Ou atacar as indústrias que poluem os rios e as matas? Ou os garimpos ilegais?"

Outro Lado

Splash procurou a O2 Produções, distribuidora do filme, e questionou sobre as críticas feitas ao filme. Foi enviado à reportagem um post feito no Instagram oficial do longa no qual esclarece "que o projeto não tem por objetivo agredir etnias, religiões, crenças e afins."

"O filme é uma obra de ficção e uma de suas principais propostas é levantar questões sobre a preservação ambiental e conscientizar espectadores quanto aos impactos e consequências das ações humanas sobre a natureza", finaliza a nota.

A produção é da Raça Ruim Filmes, produtora do Maranhão.

Outras produções

"Curupira - O Demônio da Floresta" não é a primeira lenda do folclore a ser retratada no audiovisual brasileiro. O mesmo já aconteceu com "Castelo Ra-Tim-Bum", que trazia a Caipora, e a série da Netflix "Cidade Invisível".

Para Andriolli Costa, é importante que cada vez mais produções sobre folclore apareçam, para que assim o público comece a ter um olhar mais crítico quanto ao que está sendo mostrado.

Vimos o Curupira poucas vezes em uma obra artística, seja audiovisual ou literária. Mas, quanto mais obras existam, o crivo se torna outro e poderemos cobrar mais.