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Hannah Gadsby, a humorista autista que encantou o mundo e ganhou um Emmy

A comediante Hannah Gadsby: salva pelo diagnóstico de autismo - Ali Goldstein/Divulgação
A comediante Hannah Gadsby: salva pelo diagnóstico de autismo Imagem: Ali Goldstein/Divulgação

Liv Brandão

De Splash, em São Paulo

15/10/2020 04h00

"Os haters estão certos, não é comédia tradicional. É arte."

"Cria expectativas e as supera."

"Sempre hilária."

Essas são algumas das críticas a "Douglas", especial de comédia lançado por Hannah Gadsby na Netflix, em maio.

Ao contrário de seu antecessor, "Nanette", que é um soco no estômago, "Douglas" até te dá uns tapas, mas te faz rir demais. Mas antes de continuarmos a desfiar elogios às criações, precisamos parar para falar da criatura. Quem é Hannah Gadsby, afinal?

Vencedora do Emmy, a comediante neozelandesa Hannah Gadsby é lésbica e autista.

Nascida há 42 anos em um país que só tornou legal o casamento de pessoas do mesmo sexo em 2017, Gadsby só se descobriu autista em 2016. Ou seja, viveu a vida inteira à margem da sociedade.

Antes disso, foi atropelada cin-co vezes na infância, tomou 56 pontos numa queda de bicicleta, trabalhou num supermercado, escorregou num pedaço de frango e rompeu os ligamentos do joelho. Também desenvolveu pancreatite e cálculos biliares. No fim da adolescência, teve um surto e passou a morar no próprio carro. Trabalhou em livrarias, como projecionista numa sala de cinema, plantou vegetais com o irmão.

Sua vida só foi esclarecida, passou a fazer sentido e melhorou muito graças ao diagnóstico do espectro autista.

Foi em 2016 que o jogo virou, e virou muito.

Hannah passou uma vida inteira sem entender por que era tão diferente dos outros, mas se reinventou e, em vez de as pessoas rirem dela, agora riem das piadas que ela elabora e conta. Seu processo criativo, altamente influenciado pela sua condição, é dissecado em detalhes em "Douglas".

Pois a dona de Douglas (e aqui permitam-me o spoiler: Douglas é um cão) conversou com Splash e explicou por que ser diagnosticada como autista foi um alívio e motivo de grande alegria.

Na primeira vez em que você colocou as mãos em um microfone, em 2006, você ganhou uma competição de stand-up comedy. Como foi isso?

Foi uma loucura! Até hoje não sei o que aconteceu ali. Eu era apenas uma pessoa com uma coleção de más decisões, mas essa até que se tornou uma boa decisão. Adoraria poder dizer que planejei e me preparei muito para aquilo, que é a narrativa padrão. Mas a minha não é. Às vezes eu fico muito confusa com isso porque eu estava trabalhando numa fazenda e, de repente, eu me tornei uma comediante. Olááá [risos].

Seu diagnóstico de autismo só veio dez anos depois desse episódio. Como ele te ajudou na sua vida e na sua carreira?

Foi muito importante. No palco, eu falo muito sobre mim e gosto de pensar que estamos rindo do que eu falo. E, você sabe, eu tenho um jeito engraçado de ser. Sempre pareceu haver uma desconexão entre a maneira como eu era e a maneira como as pessoas me viam e a maneira como eu me enxergava.

Quando fui diagnosticada, pude finalmente entender que eu era um pouco diferente. Claro que eu tentei ser normal, e isso pode ter me deixado um pouco reservada. Mas, pela primeira vez, estou feliz por ter aceitado esse tipo de estranheza de minha parte, ser capaz de me ouvir e principalmente parar de fingir ser o que eu não sou, o que roubou muito de minha personalidade.

Em 'Nanette', vencedor do Emmy de especial de variedades, você nos fez pensar em como o humor autodepreciativo pode ser ruim para aqueles que são marginalizados pela sociedade. Você pretende nunca mais usar esse recurso?

O humor autodepreciativo está tão entranhado em mim que ainda meio que entro nessas de autodepreciação, como se fosse realmente uma linguagem, um idioma que eu falo muito bem. Se autodepreciar é uma característica humana, muitos humoristas fazem igual, mas se há uma coisa que eu não sou é igual a ninguém.

Por isso, na minha carreira eu sou muito consciente para tentar não usar esse recurso, eu tento cultivar uma voz mais positiva.

Com 'Nanette' você nos fez chorar, já com 'Douglas' a gente rachou de rir. Foi proposital, para mostrar que você também sabe fazer rir?

Eu realmente queria fazer rir. É ótimo compartilhar o riso com as pessoas, e fazê-las rir é uma forma de me conectar com elas. Eu tenho muita dificuldade de fazer isso no meu dia a dia, afinal.

Com o humor, consegui fazer essa conexão que tornou minha vida significativamente menos solitária.

Mas em "Nanette", eu senti que tinha que reorganizar a sala para que pudesse sentar com mais conforto, sabe? E preciso admitir que é ótimo poder compartilhar esse senso de humor nos meus termos. Eu sinto que foi mais uma celebração, como se fosse uma prova de que eu também consigo fazer essas coisas.

Em 'Nanette' você prometeu abrir mão da comédia, mas não é o que vimos em 'Douglas'. Ainda bem! Você tinha um plano B?

Eu sempre posso trabalhar na loja de frutas e vegetais do meu irmão [risos]. Eu tentei largar a comédia. Pode parecer meio bobo, mas é um estilo de vida cansativo para alguém como eu, que sofre para viajar.

Mas eu fico impressionada ao pensar que tantas pessoas, de tantas partes diferentes do mundo, se conectaram com uma história tão específica.

Falando em conexão, quando você está no palco, parece que você finalmente pode se conectar com o mundo da maneira que você disse que não poderia fazer quando era criança. Isso é verdade?

Sim, eu luto com a questão da fala. Pareço ter um caminho complicado entre meu cérebro e a minha boca. Mas, quando estou no palco, eu consigo acessar uma espécie de atalho: nessas horas, falar é muito mais fácil.

Seu humor vem da análise de estruturas sociais. É por que você sempre esteve à margem dos padrões da sociedade?

Sim, definitivamente. Bem, faz sentido para mim que eu não fizesse sentido para o mundo e não pudesse participar da sociedade. Meus irmãos sempre foram tratados de maneira diferente.

Acho que podemos compensar as coisas ... Uma grande quantidade de pessoas se sente mal consigo mesma e uma quantidade muito pequena de pessoas pode se sentir bem consigo mesma. E isso não faz sentido. É assim que me sinto em relação ao mundo durante toda a minha vida.

Por conta do autismo, você diz ter saído da invisibilidade para uma visibilidade extrema graças ao sucesso de seus shows. Como você lida com isso?

Não me incomoda, acho até intrigante. Acho que me incomodaria se eu não tivesse os recursos que agora tenho para me proteger. Se fosse mais jovem, as coisas seriam diferentes, as redes sociais podem ser muito tóxicas.

Mas hoje levo isso bem, faço amigos. Às vezes é bastante esquisito porque eu sou bastante esquisita. Mas quando as pessoas me conhecem, e eu conto para elas que sou autista e que as interações comigo não vão ser menos esquisitas, elas relaxam. Eu não consigo relaxar porque eu nunca relaxo, mas por mim ok.

Pessoas muito famosas como Emma Thompson e Monica Lewinsky são suas fãs e ficaram suas amigas. Isso não é doido?

Isso me faz dar risadinhas, sabe?

Seus shows falam muito de machismo, patriarcado... Apesar dos haters --vamos apenas ignorá-los--, como os homens reagem aos seus shows e a todas as verdades que você fala quando está no palco?

Sim, eu falo muito sobre como homens podem agir mal, mas muitos deles parecem curtir o que eu faço. Eu só não fico dizendo isso em voz alta porque, você sabe, homens não precisam da minha ajuda. Eles têm vivido muito bem.

Poder falar e defender questões sociais como você faz pode ser um fardo ou uma bênção. Como você se sente tendo sido alçada ao posto de porta-voz?

Eu tenho noção da minha responsabilidade, mas sou tão privilegiada por ter essa voz que pretendo seguir em frente. Acho que essa é uma habilidade na qual estou trabalhando: quando falar, quando calar a boca... Acho que há o risco de acabar dando opinião sobre todos os assuntos. Aprendi muito com outras vozes que eu quero que mais pessoas possam falar.