PUBLICIDADE
Topo

Página Cinco

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Uma viagem pelo Brasil de Machado, Clarice, Graciliano, Rosa, Lygia...

Conteúdo exclusivo para assinantes
Página Cinco

Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos ? Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

19/11/2021 04h00

Na 104ª edição do podcast da Página Cinco:

- Papo com Isabel Lucas, autora de "Viagem ao País do Futuro" (CEPE).

Destaques do papo com Isabel:

Relação com o Brasil e com os EUA

Tinha várias questões para resolver comigo com relação ao Brasil que não tinha com os Estados Unidos. Não tinha uma relação tão próxima com a literatura brasileira como tenho com a literatura americana nem com o território do Brasil como tenho com o território americano, apesar de falarmos a mesma língua.

A língua

Minha ideia sempre foi: partir como uma estrangeira num território que não conhece muito bem, ou conhece muito mal, e vai querer saber um bocadinho mais disso a partir da literatura. E sempre com essa preocupação de perceber que é a língua nos une, mas também pode ser uma barreira. Nós falamos a mesma língua, mas, de fato, a língua tem muitas nuances, muitas maneiras de ser falada. Isso essa viagem para o Brasil me ensinou acima de tudo: a minha relação com a minha língua. E transformou o livro, transformou essas reportagens, transformou a minha relação com o Brasil a partir da língua. E a partir da experiência do cotidiano.

Tensão pós-Bolsonaro

Aquela celebração era uma celebração tensa. Não era bem uma celebração. Parecia que era um país que se vingava do outro. A tensão estava no ar. Foi nesse mesmo dia que decidi que deveria aceitar esse convite para fazer essa viagem. Sim, o país estava dividido e essas divisões são muito tensas... As pessoas zangadas votam em alguém, não importa quem, que, acham, estão a vingar das outras que faziam parte do sistema que eles querem condenar.

Além da bolha

São momentos para refletir. E não se pode refletir, acho, sem tentar perceber e conhecer as motivações de quem escolheu uma pessoa que, para quem preza os valores da democracia, parece o contrário da democracia. É preciso ir ao lugar do outro. Claro que há pessoas com todos os tipos de impulsos e argumentações. Há pessoas com argumentação violenta, mas há pessoas que não tem esse tipo de argumentação quando justificam o voto em Bolsonaro, que acham que fizeram bem.

Seleção dos autores

Tinham que ser escritores que eu tivesse lido. Tinham que ser escritores reconhecidos em Portugal e Brasil, isso porque nós temos uma espécie de estranhamento e desconhecimento mútuo... Ou seja, escritores conhecidos em Portugal e no Brasil, que eu tivesse lido e que me ajudassem a levar uma imagem do Brasil que fosse suficientemente diversificada nos temas, na geografia, no estilo e no tempo também.

As autoras

Há um momento na literatura em que as mulheres, infelizmente, tinham pouco acesso, tinham pouca voz. Não eram melhores nem piores, mas tinham pouca voz. E é aquela coisa: não chegaram aqui. É muito triste perceber quantas escritoras brasileiras são conhecidas em Portugal, escritoras do chamado cânone, e não são muitas.

Transformação

Essa viagem transformou a minha paisagem da literatura do Brasil, do mesmo jeito que transformou a minha paisagem do território brasileiro... Nesse momento, pego um livro do Brasil conseguindo reconhecer de onde ele vem... É como se eu tivesse chegado mais perto de um segredo. Não sei que segredo é esse, mas é qualquer coisa da intimidade de um país e de sua literatura.

Perguntas que ficam

Continua fazer a mesma pergunta: o que é o Brasil?... Gostaria que soubessem me responder a pergunta, parece que ninguém sabe, que é: por que o Brasil tem uma tendência ao autoritarismo? De onde isso vem? Será que vem de Portugal? Gostaria de saber se um dia eu vou chegar mais perto do que é essa essência do Brasil, como muitos brasileiros também dizem que não sabem. Essa viagem também me ensinou que as perguntas vão surgindo no caminho. O cotidiano e o dia a dia das pessoas vão nos ensinando a fazer as perguntas, e são perguntas que muitas vezes não vêm nos livros.

O podcast do Página Cinco está disponível no Spotify, na Apple Podcasts, no Deezer, no SoundCloud e no Youtube.

Você pode me acompanhar também por essas redes sociais: Twitter, Facebook e Instagram.