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ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Dragões de Rubião sofreriam ainda mais com o atraso dos nossos costumes

Murilo Rubião - Arquivo
Murilo Rubião Imagem: Arquivo
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Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos ? Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

26/07/2021 10h04

"Os primeiros dragões que apareceram na cidade muito sofreram com o atraso dos nossos costumes. Receberam precários ensinamentos e a sua formação moral ficou irremediavelmente comprometida pelas absurdas discussões surgidas com a chegada deles ao lugar.

"Poucos souberam compreendê-los e a ignorância geral fez com que, antes de iniciada a sua educação, nos perdêssemos em contraditórias suposições sobre o país e a raça a que poderiam pertencer".

As primeiras linhas de "Os Dragões" dão uma boa ideia do que os leitores encontram nos contos de Murilo Rubião. São os seres fantásticos que se surpreendem ao chegar na cidade e encontrar um povo com práticas que deveriam estar enterradas no passado. As pessoas, por sua vez, não exibem nenhum tipo de espanto. Parecem imediatamente normalizar os dragões e os colocam no centro numa discussão ordinária, buscando enquadrá-los ao que já está estabelecido sabe-se lá desde quando.

Os dragões se surpreendem com o atraso daqueles costumes. Os atrasados nos costumes, por sua vez, olham para os dragões e reagem da mesma forma como reagiriam à chegada de qualquer ser um pouco diferente, mas que não merece a exaltação de ninguém. Chegassem hoje, esses dragões se surpreenderiam e sofreriam ainda mais com o contraditório avanço dos retrocessos.

Uma normalidade que segue perturbadoramente inabalável mesmo diante de um acontecimento fantástico é uma das principais marcas da literatura de Rubião. Em seus contos encontramos um sujeito que convive com um coelho que curte um cigarro e gosta de se metamorfosear em outros bichos, um camarada que ninguém sabe muito bem se morreu ou não, um homem cujos poderes mágicos esmaecem num mundo apático e tacanho. Nada disso deslumbra ninguém.

Deslumbra ninguém dentro das histórias, digo. Com o leitor é diferente. Menos reconhecido do que merecia, o contista dificilmente desaponta quem lhe dá uma chance. Rubião escreveu um tanto, reescreveu muito e publicou com parcimônia. Foram pouco mais de meia dúzia de livros em vida (nasceu em 1916, morreu em 1991). Produziu cerca de cinquenta contos que, em certos casos, lhe consumiram anos ou décadas de trabalho. Publicou 33 dessas narrativas breves, todas elas reunidas pela Companhia das Letras num volume de bolso, com 232 páginas, que recebe o nome de "Obra Completa". Uma obra tão breve quanto marcante.

Mineiro, Rubião cursou direito, trabalhou como jornalista e foi um dos responsáveis pela criação do importante Suplemento Literário do Diário Oficinal de Minas. Traços da carreira como funcionário público estão presentes em seus contos. Aqui e ali encontramos situações e alusões à burocracia que nos remetem a Herman Melville e seu Bartleby e também a Franz Kafka, apontado como chave para entender o brasileiro desde que suas primeiras ficções começaram a chegar aos leitores.

Rubião, no entanto, dizia só ter conhecido a obra do tcheco após a publicação de seus trabalhos inaugurais. Assumia, isso sim, a influência da faceta mais fantástica da obra de Machado de Assis. E também da não menos fantástica "Bíblia", tanto que usa citações do livro mitológico como epígrafes de boa parte de suas histórias.

Há ainda quem aponte o contista como um elo possível da literatura brasileira com o realismo fantástico que marcou o boom da literatura latino-americana na segunda metade do século 20. É uma aproximação válida, ainda que a fantasia em Rubião apareça de forma bem diferente do que encontramos em "Cem Anos de Solidão", de Gabriel García Márquez, por exemplo. Uma, apesar de ser tratada com indiferença, é estranha ao universo em que aparece, a outra é parte indissociável de seu universo e uma chave fundamental para aquela forma de compreender o mundo.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL