PUBLICIDADE
Topo

Página Cinco

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Novo boom? Gótico? E o realismo mágico? A literatura latino-americana hoje

Conteúdo exclusivo para assinantes
Página Cinco

Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos ? Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

09/07/2021 09h36

Na 87ª edição do podcast da Página Cinco:

- Papo com Laura Del Rey e Raquel Dommarco, cabeças à frente da Incompleta e da revista Puñado, sobre a literatura latino-americana de hoje. Agora em julho elas ministrarão o curso "Literatura Latino-Americana: Cheguei, e Agora?".

- Exposição no Museu da Língua Portuguesa.

- "Pregão de Marimorena", de Virginia Brindis de Salas (Figura de Linguagem), "Eisejuaz", de Sara Gallardo (Relicário), e "Vidas Andarilhas", de Luiz Bras (Caos & Letras), nos lançamentos.

Alguns destaques da entrevista:

Definições mercadológicas

Laura: É tão difícil desenhar com precisão o que pode estar acontecendo... Eu sinto que essas organizações em ondas (boom, novo boom, gótico, novo gótico) têm um movimento mais de mercado do que de produção. Por um lado, tem a pesquisa acadêmica que organiza mesmo em grupos para tentar reconhecer movimentos e entender aquela literatura como manifestação do seu tempo, mas tem muito um fator de mercado e de jornalismo mesmo que move esses nomes, gêneros e organizações. Parece que esses grupos facilitam a comunicação.

Especificidades

Raquel: Existe um elemento principalmente nas escritoras caribenhas que escrevem em inglês de marcar muito forte a oralidade. A gente já não sente isso nas literaturas do Cone Sul, que são majoritariamente urbanas, têm muito a questão da violência doméstica, das desigualdades de gênero, desses resquícios da ditadura que muitas vezes são violências meio implícitas, essa falha latino-americana de encerrar esse ciclo. Dentro do continente a gente tem não só as especificidades de cada país, mas também blocos: o Caribe insular, o Caribe continental...

O putrefato

Laura: Tem muitos trabalhos falando sobre a ideia da maternidade compulsória. E há uma mistura de muitas coisas. Esse insólito junto com uma coisa meio putrefata, acho que essas autoras se dispõem a isso. Elas falam do corpo utilizando chaves mais incômodas. Há uma predisposição ao lidar com o difícil.

O corpo

Raquel: Há essas questões do corpo. Especialmente do corpo da mulher, esse objeto ultra-explorado. É como uma era em que as mulheres se apropriam do discurso do próprio corpo saindo da hiperssexualização e indo para um corpo meio decrépito, explorado de várias formas, pela violência, pela maternidade compulsória. São temas que estão muito expostos no nosso momento cultural. É como se fosse o momento do nosso feminismo de forma continental.

Insistência no realismo fantástico

Raquel: Me dói um pouco. As coisas têm a sua própria identidade, a gente ainda está entendendo os próprios caminhos, aí vai tudo naquele balaio que é o olhar eurocêntrico, colonial muitas vezes, de que aqui é o lugar do exótico realismo fantástico.

Voz das mulheres

Laura: Parece que nos países em que as mulheres estão ganhando mais espaço só agora, elas ainda têm questões muito básicas para explorar. Elas estão lidando com questões de quem nunca teve voz antes. A gente enxerga mais claramente temas sociais, uma vontade de romper com as coisas, de dizer: agora eu posso falar.

Brasil no continente

Raquel: Hoje existe uma consciência, pelo menos nessa bolha da literatura, que nós somos latino-americanos. Sempre era um pouco assim: a literatura latino-americana e Graciliano Ramos era outra coisa, Clarice Lispector era outra coisa. Hoje a gente já se entende como parte desse continente, e entende nossas especificidades, nossas diferenças. Por isso que surge esse interesse em ler o vizinho, entender o vizinho.

Laura: A gente tem começado, finalmente, a se ver mais como primos dos países vizinhos do que como filhotes dos Estados Unidos. Isso é muito importante para que a gente se entenda melhor.

A arte que está no material de divulgação do episódio é de autoria de Caio Zero.

O podcast do Página Cinco está disponível no Spotify, na Apple Podcasts, no Deezer, no SoundCloud e no Youtube.

Você pode me acompanhar também por essas redes sociais: Twitter, Facebook e Instagram.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL