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Não leio porque falta tempo: as mentiras que leitores e não leitores contam

Persistência da Memória - Salvador Dalí
Persistência da Memória Imagem: Salvador Dalí
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Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos ? Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

16/09/2020 09h55

Pelo dito, não há no Brasil maior inimigo de livros, livrarias, bibliotecas e escritores do que Chronos.

É o que podemos deduzir pelos números da nova pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, feita pelo Ibope sob encomenda do Itaú Cultural e do Instituto Pró-Livro. Dentre os leitores, 47% garantem que só não leem mais porque lhes falta tempo. Dentre os afastados dos livros, por sua vez, 38% atribuem a não leitura às minguadas horas do relógio. Fossem os dias um pouco mais longos, teríamos muito mais livros sendo lidos e uma enorme leva de novos leitores se maravilhando com a literatura. Teríamos? Duvido.

A falta de tempo é a desculpa mais utilizada para justificarmos por que não fazemos algo que supostamente gostaríamos de fazer - segundo a pesquisa, 82% dos brasileiros gostariam de ler mais. O tempo anda mesmo tão escasso? A Retratos da Leitura no Brasil também apurou o que leitores e não leitores fazem nas horas livres. Assistir televisão segue na liderança (67% dos entrevistados mencionaram essa opção, que vem encolhendo a cada nova apuração; em 2015 a taxa era de 73%, enquanto em 2011 era de 85%). Usar a internet, por sua vez, saltou de 47% em 2015 para 66% em 2019 (era 18% em 2007e 24% em 2011). WhatsApp foi de 43% para 62% e ultrapassou a escuta de música ou rádio, que se manteve em 60%. A leitura de livros aparece apenas na 11ª posição dentre as atividades listadas.

Se as pessoas gostariam de se dedicar mais aos livros, mas curtem alguma folga na frente da televisão, navegando pela internet ou mandando "bom dia, grupo" no WhatsApp, o que falta não é exatamente tempo, mas foco ou real interesse. Dentre os leitores, 9% afirmaram não ler mais porque preferem outras atividades, resposta que me parece bem mais honesta. Como me parecem mais honestos os 28% de não leitores que jogam logo na cara: não leio porque não gosto - ou porque não tenho paciência (14%), porque prefiro fazer outra coisa da vida (8%) ou porque tenho dificuldades para ler (6%).

Por falar em adversidades, não é só a suposta falta de tempo que acomete os brasileiros. A pesquisa indica que a falta de paciência é a principal dificuldade apontada pelos entrevistados. E o número de impacientes sobe a cada nova edição da Retratos da Leitura: era 11% em 2007, pulou para 20% em 2011, passou para 24% em 2015 e bateu 26% nesta edição.

"BÍBLIA" X MACHADO DE ASSIS

Nesse tipo de pesquisa, é sempre curioso cruzar algumas informações sobre o que o povo curte e o que anda lendo. Quando perguntados sobre a leitura mais recente, a maioria dos entrevistados tascou a "Bíblia" como resposta - o livro é um hit da Retratos da Leitura. Depois vieram "Diário de um Banana", "Turma da Mônica", "Harry Potter", "A Cabana" e "O Pequeno Príncipe". Perguntados sobre os livros mais marcantes, quase todos os nomes se repetem: "Bíblia", "A Cabana", "O Pequeno Príncipe", "Turma da Mônica", "A Culpa é das Estrelas" e "Harry Potter".

Temos aí um livro religioso, alguns fenômenos recentes da literatura, um clássico dos clichês e "Turma da Mônica", termo genérico para abarcar os gibis de Mauricio de Sousa. Na hora em que os entrevistados precisam listar os autores favoritos, no entanto, vem um desfile de clássicos misturados com nomes místicos. Eis a relação com os 15 mais citados: Machado de Assis, Monteiro Lobato, Augusto Cury, Mauricio de Sousa, Jorge Amado, Paulo Coelho, Zibia Gasparetto, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, JK Rowling, Chico Xavier, Cecília Meireles, Agatha Christie, Vinícius de Moraes e José de Alencar.

O brasileiro diz adorar Machado, Jorge Amado, Drummond e Clarice, mas lê mesmo a "Bíblia" e "Diário de um Banana". É estranho. Mas há motivo. Me parece que estamos diante de mais uma das pequenas mentiras dos leitores. Quando precisam apontar quais escritores mais admiram, jogam logo o primeiro nome que vem à cabeça ou buscam por algum autor que transmita boa impressão.

POR QUE LER?

Alguns outros dados interessantes levantados pela pesquisa:

Gosto, crescimento pessoal, distração e atualização ou conhecimento geral são os principais fatores que levam alguém a ler.

O pessoal com diploma universitário no sovaco anda lendo menos: o número de leitores entre quem tem curso superior caiu de 82% para 68%.

Impresso ou e-book? 67% preferem livro em papel, 17% preferem os digitais e para 16% tanto faz.

Para os entrevistados, ler traz conhecimento, ensina a viver melhor e é uma atividade interessante. Nesse campo, o número de pessoas que indicam que "a leitura pode fazer uma pessoa 'vencer na vida' e melhorar sua situação financeira" caiu de 17% para 11%, o que deve preocupar o povo da autoajuda.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL