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Mauricio Stycer

"Gênesis" deixa entretenimento em segundo plano para doutrinar

Eva (Juliana Boller) come o fruto proibido no primeiro capítulo de "Gênesis", na Record TV - Reprodução / Internet
Eva (Juliana Boller) come o fruto proibido no primeiro capítulo de "Gênesis", na Record TV Imagem: Reprodução / Internet
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Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

21/01/2021 06h01

O objetivo inicial de qualquer novela é o entretenimento. Além disso, dependendo dos temas que aborda, ela também pode servir à reflexão sobre problemas que enfrentamos na realidade. Ou, no caso de uma trama de época, ao conhecimento de fatos do passado.

A visão de mundo, a posição política ou mesmo as crenças do autor determinam bastante o impacto que uma novela pode ter, as discussões que pode causar e o interesse que pode provocar.

Essas reflexões valem para a exibição de qualquer novela em qualquer horário e para qualquer público. Até mesmo para novelas infantis, que podem apenas divertir, mas também são capazes de fazer pensar, caso tenham esta ambição.

Minha visão sobre as novelas bíblicas da Record é um pouco diferente. Nos casos de "Os Dez Mandamentos" (2015-16) e "A Terra Prometida" (2016-17), duas sagas épicas, acredito que o objetivo primário fosse mesmo o entretenimento.

O substrato religioso das tramas era evidente, mas creio que qualquer espectador podia assistir sem achar que estava sendo orientado a mudar a sua visão sobre Deus e religião.

Já em "Apocalipse" (2017-18), "Jesus" (2018-19) e agora em "Gênesis", enxergo o entretenimento como algo acessório. Também não são novelas que buscam levantar discussões. Na verdade, elas não escondem uma ambição de doutrinação moral e religiosa.

O primeiro capítulo desta última, ao encenar de forma literal o mito da Criação, nem entretenimento produziu. O impacto visual de efeitos especiais não diminuiu em nada a sensação de que estava assistindo a uma aula sobre criacionismo.

A novela abriu com imagens de campos de concentração nazistas, crimes comuns no Brasil, a fome na África e a derrubada das Torres Gêmeas, nos EUA. E então a voz de Deus surgiu: "Não! Não! Não foi pra isso que eu te criei. Não era para ser assim. Deixe-me explicar como era para ser".

Driblando a teoria da evolução, a novela "ensina" que foi Lúcifer quem causou a extinção dos dinossauros.

Já Deus determina que a mulher tenha uma posição subalterna ao homem. "Você, Eva, vai ter muitas dores no parto. Você, agora, vai precisar do homem e a sua carência por ele te dominará". Culpa dela ter aceitado a conversa da serpente e comido o fruto da árvore do conhecimento.

Adão aperta o braço de Eva, machucando a mulher, e diz: "Se não fosse por você, a gente não estava nessa situação. Por sua causa, nós fomos expulsos". Eva responde: "Você comeu do fruto porque você quis". Adão encerra a conversa: "Perdemos tudo por sua culpa. Então, cala a boca".

No segundo capítulo, a punição a Adão e Eva se estendeu à família, que enfrenta uma vida de privações. Sob o olhar atento de Lúcifer, que aprecia o drama, todas as filhas de Adão abandonam o lar em protesto à rispidez e ao machismo do pai. Inflexível, Deus recusa uma oferta de Caim porque ele não ofereceu o melhor que tinha para dar. Adão admite a Caim e Abel que a culpa pela expulsão do Paraíso é dele também, e não apenas de Eva.

Foi um capítulo melhor que o primeiro - um pouco mais aberto, menos dogmático. Mas não menos duro, com um texto empostado e frases que beiram o cômico de tão pouco naturais.

Espero que a segunda fase, sobre o dilúvio, que começa na próxima semana, ofereça algo mais do que lições religiosas.