PUBLICIDADE
Topo

Totalmente Demais foi um oásis no meio de tanta notícia ruim, dizem autores

Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

09/10/2020 06h01

Chega ao final nesta sexta-feira (09) a reprise de "Totalmente Demais". Com média de audiência em São Paulo de 30 pontos, a trama de Rosane Svartman e Paulo Halm conseguiu a façanha inédita de ser mais vista hoje do que ao ser exibida originalmente, entre 2015 e 2016, quando registrou média de 27 pontos.

Halm e Svartman - Estevam Avellar/TV Globo - Estevam Avellar/TV Globo
Paulo Halm e Rosane Svartman, os autores de "Totalmente Demais" (2015)
Imagem: Estevam Avellar/TV Globo

Para falar deste fenômeno, os dois autores conversaram com o UOL na quarta-feira. A entrevista, basicamente, busca entender as razões do sucesso da novela. Halm entende que "Totalmente Demais" oferece um alívio, um bálsamo, em tempos difíceis - e a situação atual é ainda mais complicada do que há quatro anos.

A novela tinha, já na época, essa característica de servir como um alívio para o período que o Brasil estava vivendo, muito tumultuado. Eu acho que agora, (repete-se) essa sensação de alívio, essa sensação de a novela ser um oásis no meio de tanta notícia ruim, tanto acontecimento desagradável, de tanta falta de esperança e perspectiva.

Outra chave para entender o sucesso é o engajamento entre fãs nas redes sociais provocado pela mocinha Eliza (Marina Ruy Barbosa), que se viu dividida entre Arthur (Fabio Assunção) e Jonatas (Felipe Simas). Na entrevista, os autores contam como decidiram o desfecho deste triângulo.

E também falam de outras tramas que ajudaram a mostrar a atualidade de "Totalmente Demais", como a homofobia sofrida por Max (Pablo Sanábio), o racismo enfrentado por Adele (Jessica Ellen), o drama vivido pelo garoto Wesley (Juan Paiva), que sofre um acidente e fica paraplégico, entre outros temas. Diz Halm:

"Parece que a novela está sendo escrita como se fosse uma novela inédita e não uma reprise. A verdade é que parece que as coisas não mudam, os problemas são estruturais. E a mensagem continua firme e forte".

Veja a entrevista no vídeo acima. Abaixo, uma transcrição dos principais trechos:

Como vocês se sentem como autores de uma novela que fez muito sucesso ao ser exibida originalmente, entre 2015 e 2016, e ainda mais sucesso quatro anos depois?

Rosane Svartman: Posso falar que fiquei supersurpresa com esse sucesso da edição especial, no meio de um momento superdifícil que está todo mundo vivendo. Enfim, a gente pode tentar pensar porque está fazendo mais sucesso agora. Será que é o período do ano, que não pega férias e Réveillon? Será que as pessoas estão mais em casa? Será que é uma novela leve, um conto de fadas, que faz as pessoas quererem se sentir um pouco mais leves também, assistindo uma novela de superação?

Paulo Halm: Acho que vai levar um tempo ainda para a gente entender isso. Tem essa coisa do alívio mesmo. Um bálsamo. A novela tinha, já na época, essa característica de servir como um alívio para o período que o Brasil estava vivendo, muito tumultuado. Eu acho que agora, (repete-se) essa sensação de alívio, essa sensação de a novela ser um oásis no meio de tanta notícia ruim, tanto acontecimento desagradável, de tanta falta de esperança e perspectiva. Contando uma história que já foi contada milhares de vezes, da redenção, da superação, do êxito dessa Cinderela moderna que consegue, com o seu esforço, a sua força, a sua coragem, ao final, atingir seu objetivo. Essa mensagem acaba sendo uma mensagem para todo mundo. As pessoas acabam tomando isso como um mantra. Se deu certo para a Eliza, pode dar certo pra gente também.

Uma questão muito interessante que vocês mencionaram é a ideia de que a explicação para o sucesso está um pouco no espírito do tempo. Isso é realmente muito difícil de detectar antes. Às vezes, coincide de o que você está querendo falar ser o que as pessoas estão querendo ouvir. Nem sempre isso acontece tão bem. Eu acho que esse é um caminho bem interessante mesmo para analisar esse sucesso de "Totalmente Demais" em 2020.

Rosana: Se a gente analisa a história das telenovelas, a gente vê que elas, até por serem obras abertas, acompanham a sociedade, o ethos, o espírito da sociedade. Então, é claro que quando uma novela reprisa e é um sucesso, é porque, de alguma forma, pilares da novela encontraram esse espírito cinco anos depois. No Vale a Pena Ver de Novo ou no Viva é um outro contexto. Mas passar no mesmo horário, no horário nobre, é realmente inédito. A gente está vivendo um período de vários acontecimentos inéditos, péssimos, e alguns surpreendentes também. Nesse caso, para mim e acho que para todos os envolvidos, foi uma grata surpresa ver que a novela dialoga com a audiência de uma forma tão potente ainda.

Wesley - Reprodução / Internet - Reprodução / Internet
O jovem Wesley (Juan Paiva) em "Totalmente Demais"
Imagem: Reprodução / Internet

Paulo: Alguém tinha me perguntado se eu achava que a novela tinha envelhecido. O Brasil mudou tanto nesse período. A novela poderia ser completamente anacrônica. Mas parece que a novela foi escrita agora. Ela está até mais contextualizada nas coisas que nós apontamos. Eu posso citar a questão da homofobia, no episódio com Max, a questão do aborto, a questão das pessoas que têm deficiência física e sua superação. Os assuntos cada vez mais prementes. Parece que a gente está escrevendo agora. Parece que a novela está sendo escrita como se fosse uma novela inédita e não uma reprise. A verdade é que parece que as coisas não mudam, os problemas são estruturais. E a mensagem continua firme e forte.

Marina, Fabio e Simas - Reprodução / Internet - Reprodução / Internet
Fábio Assunção (Arthur), Marina Ruy Barbosa (Eliza) e Felipe Simas (Jonatas), o trio de protagonistas de "Totalmente Demais", que enlouqueceu os fãs
Imagem: Reprodução / Internet


Quando ela foi ao ar em 2015, já tinha essa coisa de torcida na internet. É mais ou menos novo. E eu acho que isso também deu um impulso na novela. Ter formado duas torcidas tão fortes e que continuam ativas, ensandecidas?

Rosane: É engajamento. São pessoas apaixonadas pela trama. É claro que às vezes eu leio coisas um pouco agressivas e, bem, já não é mais tão bacana. Mas tem um lado, para mim, muito lisonjeiro. Olha, a trama atual pegou. A Elisa fica entre Arthur e Jônatas, mas tem gente também que queria que ela ficasse sozinha, sem nenhum dos dois. Mas uma coisa importante é a transformação da mocinha. Porque a principal desejo de Elisa não era com quem ela ia ficar ou perseguir o amor romântico. Era primeiro ajudar a família e, depois que ela descobre que a família não precisa da ajuda dela, é a realização profissional. Ela percebe que ela gosta de ser modelo, que ela quer ser modelo. Ela tem essa virada de chave. É por isso que a gente pode se permitir colocar a mocinha entre dois amores. Porque ela não é só isso. Isso faz parte da vida dela como essa mulher moderna, atual.

Paulo: A paixão enlouquece, deixa você inebriado. O ser passional é um pouco isso. 'Exagerado e jogado aos seus pés'. Então as pessoas têm sangue nos olhos e o coração sai pela boca na defesa dos seus casais. Claro que isso é legal. Ver que as pessoas estão fazendo isso, se mobilizam, perdem o seu tempo nos achincalhado, nos xingando, entrando em todas as nossas redes sociais, para defender os seus casais preferidos. É claro que isso é legal. Mostra que tem um pessoal que assiste aquilo com o entusiasmo de um primeiro amor.

Rosane: As redes sociais têm essa vocação de serem passionais, de você não pensar antes de publicar uma coisa.

Paulo: Ninguém cancelou a gente no tribunal das almas das redes sociais.

Tem muita novela que busca isso, mas não consegue. Às vezes de forma até explicita, coisas são feitas para provocar engajamento, mas o engajamento não acontece. É um grande mérito que tenha provocado e "reprovocado" esse engajamento. Muitas vezes, o espectador é indiferente.

Rosane: Muitas vezes na novela tem o clássico arco da mocinha. Ela começa com um par romântico e aí se perde, mas volta no final. Nessa não. A gente realmente escreveu tanto Jonatas quanto Arthur com todos os defeitos e qualidades. É engraçado ver que as pessoas que são a favor do Jonatas apontam claramente os defeitos do Arthur. Mas o Jonatas também tem defeitos.

Vocês sempre souberam que a Eliza ia terminar com Jônatas? Nunca tiveram dúvidas sobre esse desfecho?

Rosane: A gente nunca teve.

Totalmente Demais equipe - Reprodução/Instagram/fabrisantiago - Reprodução/Instagram/fabrisantiago
Equipe de "Totalmente Demais": os colaboradores Felipe Cabral, Claudia Sardinha, Mario Viana e Fabrício Santiago com os autores Paulo Halm (de barba e cabelos brancos) e Rosane Svartman (de jaqueta preta)
Imagem: Reprodução/Instagram/fabrisantiago

Paulo: A gente fazia uma democracia lá dentro (com a equipe de colaboradores). Todo mundo dizia que torcia para um lado ou para o outro, e gente que torcia para ela não ficar com ninguém. Tinha muita discussão entre a gente. De certa forma, a gente reproduzia um pouco, sem tantas ameaças de morte, as torcidas. Eu e o Charles Peixoto, os mais velhos, achávamos interessante ela ficar com o Arthur. Os mais jovens achavam mais interessante ela ficar com o Jonatas. Isso alternava. Uma coisa que é legal: nós vemos o nosso trabalho como espectador. A gente assistia a novela junto, curtindo, se divertindo, torcendo, xingando e vaiando. É uma vibração que a gente gosta de viver. Acho que isso talvez se reflita no texto.

Em que momento vocês decidiram isso?

Rosane: O final foi unânime. Isso é importante dizer. É claro que quando está fazendo, você escreve os dois para ganhar. Mas quando chegou na reta final, o final que a gente escreveu está escrito. Não tem final alternativo. Mas é claro que a gente discutia, torcia...

Paulo: Os atores deviam vivenciar essa dúvida também. A Marina, o Fabio, o Felipe. É legal quando há essa possibilidade. Porque o triângulo romântico, em geral, é um vilão contra um casal de mocinhos que tenta separá-los. Os dois eram legais, pessoas bacanas, com seus méritos, defeitos, idiossincrasias. Os dois poderiam ficar com a Elisa. E ela se apaixona pelos dois. E no final faz a sua opção.

A novela, claro, não foi só "Arlisa" versus "Jolisa". O que vocês acham que merecia ter sido mais falado sobre "Totalmente Demais", mas não foi, talvez porque essa questão tenha monopolizado tanta atenção.

Rosane: Agora, acompanhando a novela nas redes sociais, você vê que tem público para todos os personagens. Tem gente torcendo para Cassandra, Sofia, Gilda... É claro que a história principal acaba chamando mais atenção da mídia como um todo. O Max, por exemplo, é um personagem que cresceu porque teve uma repercussão incrível junto ao público. A gente viu isso nas pesquisas de grupo. A gente sentiu que ele era amado. Cassandra era amada. A história do Wesley. A história da Lili.

Max e Adele - Divulgação - Divulgação
Adele (Jéssica Ellen) e Max (Pablo Sanábio) enfrentam os pais racistas e homofóbicos do rapaz
Imagem: Divulgação


Paulo: O Max tinha pais homofóbicos, que vinham visitá-lo. Ele tinha que voltar para o armário e arrumar uma namorada de fachada. Foi a personagem da Jessica Ellen. E aí os pais não eram somente homofóbicos, como eram racistas. E lembro que na época a gente achou que estava um pouquinho acima do tom, um pouquinho forçação de barra. Agora revendo a cena, achei realista. Não achei nem um pouco exagerado o comportamento homofóbico e racista dos pais. Na intenção era uma coisa meio cômica e achei completamente dramática revendo. Ficou uma coisa patética, mas violenta e muito em sintonia com esse Brasil que estamos vivendo, totalmente virado pelo avesso. E o que parecia para a gente como um exagero, vai ser quase que um retrato realista de um determinado tipo de comportamento muito comum na nossa sociedade, que a gente achava que era quase no limite. Agora é quase uma banalidade, uma banalidade do mal.

Rosane: A Jéssica Ellen deu uma entrevista falando dessa cena. "Poxa, mas ela sofreu um racismo". Ela tem toda razão. Eu acho que hoje, pensando no que eu mudaria, atualizaria, a gente teria também aproveitado para discutir essa questão dela ter sido vítima de racismo. A gente teria explorado mais essa trilha, com certeza.

Na época, a novela gerou na época um spin of, "Totalmente Sem Noção Demais". Já era um sintoma que tinha ido muito bem. Vocês receberam alguma encomenda para outro spin off? A Globo gostaria que vocês fizessem algo derivado da novela?

Rosane: Da parte da Globo, não. Mas dos fãs com certeza. Os fãs falam muito nisso. Mas, cinco anos depois, é um outro momento.

Alberto e Paloma - Reprodução/TV Globo - Reprodução/TV Globo
Alberto (Antônio Fagundes) e Paloma (Grazi Massafera) em Bom Sucesso
Imagem: Reprodução/TV Globo

"Bom Sucesso", na minha opinião, uma novela ainda mais ousada que "Totalmente Demais", também foi muito bem-sucedida, teve um resultado excelente de audiência. Vocês encontraram a fórmula do sucesso da novela das 19h? Qual é essa fórmula?

Rosane: A gente fala sempre do sucesso, mas nunca fala... A gente entregou umas três sinopses que foram recusadas até chegar a "Bom Sucesso". Então não tem só sucesso. Tem trabalho, suor, tentativas...

Paulo: Se houvesse uma fórmula, tudo dava certo, e não é bem assim. Há, perceptível, uma assinatura ou um estilo de escrever a novela, onde todos os personagens têm seus momentos dramáticos e todos têm seus momentos de humor. Em geral, nossos personagens alternam cenas dramáticas e cenas de diversão e de leveza. Talvez isso seja uma característica nossa que funcione, independentemente de estar alocado num núcleo dramático ou cômico. Acho que isso, de certa forma, reproduz um pouco a realidade. Todos os personagens têm um pouco dessa humanidade. Acho que fórmula não existe. Se fosse fórmula, a gente está ganhando pouco.

Vocês estão já com alguma coisa programada para frente. Já tem algum projeto aprovado? Pode contar alguma coisa?

Rosane: A gente está trabalhando em separado. Estou fazendo uma série musical agora, que é para o Globoplay e o Gloob. Para o Globopay, o núcleo principal é adolescente jovem adulto e para o Gloob é adolescente infantil. Tem núcleos exclusivos de cada um. É um musical que tem uma mensagem: a arte transforma as pessoas e transforma o território. O conflito é o que a gente está vendo. Teatros fechados, cinemas fechados, a cultura sendo desvalorizado, o artista sendo desvalorizado. Então é no meio desse deserto, num território assim, que surge uma menina que quer cantar e dançar. E estou supervisionando uma novela das 18h também, que está sendo escrita pelo Wendell Bendelack.

Paulo: Eu acho até temerário a gente fazer um novo trabalho, já que a gente acabou de emendar "Bom Sucesso" com reprise de "Totalmente Demais". Eu acho que a gente talvez fique algum tempo fora do ar. Eu vou fazer um longa-metragem. Há quatro anos estou tentando liberar o dinheiro para fazer o filme. E parece que agora o dinheiro será liberado. Assim que sair a vacina eu espero estar em condições de filmar. E eu estou também supervisionando o texto de um seriado do Jefferson De, inspirado no filme dele, "Correndo Atrás". Para a Globo.

Agora só para deixar claro e não gerar nenhum mal-entendido, a dupla não foi desfeita? Ainda pode voltar a se reunir para fazer outra novela?

Paulo: Nós não somos uma dupla. Somos quase uma família. Rosane é minha comadre. A gente é parente. Nossos elos de afeto... Estamos trabalhando coisas diferentes porque temos coisas diferentes para fazer.

Gostaria de agradecer demais a oportunidade de conversar, ainda que brevemente com vocês, dar os parabéns mais uma vez. Vocês conseguiram uma coisa extraordinária, antológica.

Rosane
: Espero que a única.

Paulo: Porque já estão falando de reprisar "Bom Sucesso".

Rosane: Não! A gente quer fazer coisas novas.

Mas, enfim, nessa circunstância, vocês conseguiram uma coisa incrível, que merece ser saudada. Parabéns. E espero que os fãs da novela gostem dessa entrevista. E aproveitem esse final da novela. Assim como eu, que vou ver mais uma vez o final de "Totalmente Demais".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL