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Bom Sucesso superou tabus ao fazer sucesso falando de literatura e morte

Alberto (Antonio Fagundes) e Paloma (Grazi Massafera) em Bom Sucesso  - Reprodução/TV Globo
Alberto (Antonio Fagundes) e Paloma (Grazi Massafera) em Bom Sucesso Imagem: Reprodução/TV Globo
Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

24/01/2020 20h37

É preciso reconhecer que houve coragem em fazer uma novela das 19h cujos dois temas principais eram literatura e morte. O sucesso de audiência e os elogios da crítica mostram que não há assunto ruim ou difícil para um folhetim - a questão central é saber contar histórias.

Rosane Svartman e Paulo Halm merecem todos os elogios pela capacidade de transformar textos densos e profundos, repletos de reflexões sobre a vida e a morte, em diálogos atraentes, ao alcance de qualquer espectador. Estendo o elogio, claro, aos colaboradores da dupla de autores: Charles Peixoto, Fabrício Santiago, Claudia Sardinha, Felipe Cabral e Isabela Aquino.

Foi assim do primeiro ao último capítulo, do anúncio da doença incurável de Alberto (Antônio Fagundes) à morte do protagonista com um sorriso nos lábios, como Quincas Berro D´Água (Jorge Amado).

Vários outros temas e assuntos ajudaram a rechear "Bom Sucesso" ao longo de mais seis meses. A novela buscou abrir os olhos do espectador para problemas sérios sem nunca perder de vista o cuidado com o entretenimento. Falou de política e do Brasil atual com ironia. Escorregou, talvez por falta de assunto, ao enveredar por uma história soturna, que não combinava com a história, mas logo retomou o prumo.

Foi, enfim, um biscoito fino para as massas, como diria Oswald de Andrade (1890-1954), falando da sua ambição artística de alcançar grandes públicos.

Mais que o último, eu diria que o penúltimo capítulo foi exemplar desta combinação de profundidade com coloquialidade ao falar sobre a morte. Em seis cenas diferentes, Alberto (Antônio Fagundes) se despediu das pessoas queridas com quem conviveu. Mesmo num momento naturalmente triste, os autores evitaram ser piegas. O espectador possivelmente se emocionou em vários destas passagens, mas não por piedade, que o personagem evitou pedir, mas pelas lições de Alberto.

Reproduzo abaixo os trechos principais destas cenas.

Para Paloma (Grazi Massafera):
"Você me fez recuperar as coisas essenciais da vida: a beleza do pôr do sol, a poesia do samba, o amor pelos meus filhos, reprimido, a paixão por Vera, o prazer de descobrir algo novo, mesmo num livro que eu já li diversas vezes. A sua paixão pela vida me contagiou, me deu os melhores dias que eu já vivi".

Para Nana (Fabíula Nascimento):
"Já que eu tenho pouco tempo para isso, tenho que aproveitar todas as oportunidades para expressar os meus sentimentos. Porque nesses anos todos eu falei muito poucas vezes do amor e da admiração que eu sempre tive por você, minha filha. Eu te amo."

Para Marcos (Rômulo Estrela):
"Se estiver tudo errado, comece novamente. Se estiver tudo certo, continue. Se sentir saudades, mate-a. Se perder um amor, não se perca. Mas se o achar, segure-o. Eu te falei esse poema (de Fernando Pessoa) para te pedir para você nunca abandonar a Paloma".

"Agora já posso confiar em você e já posso partir tranquilo. Você sabe que eu sempre te amei, mas agora eu tenho orgulho de você. Nós mudamos, Marcos. E você sabe que, em parte, a responsável por essa transformação foi a Paloma. Por isso que eu te fiz esse pedido. E outra coisa, nunca largue a mão de sua irmã."

Para as crianças Peter (João Bravo) e Sofia (Valentina Vieira), ouvindo o "Adágio" de Albinoni (1671-1751):
"Eu vivi nesses últimos meses muito mais do que eu vivi nos últimos anos. E a vida é mais surpreendente do que a gente possa imaginar. Essa é a magia da vida. É um aprendizado interminável. Quando você acha que está perdido, ela te dá um sopro de esperança. E quando você acha que é a pessoa mais poderosa do mundo, ela te dá uma rasteira e te leva de volta à realidade".

Para Vera (Angela Vieira):
"Estou me sentindo às vezes conformado, achando que vai ser bom descansar. Mas, às vezes, revoltado, por não ter mais tempo com as pessoas que eu amo. Com você, por exemplo. Confesso que estou mais curioso do que amedrontado. Um morto sempre vira um santo por mais canalha que tenha sido".

"Apesar de ter sido uma experiência turbulenta, amar você foi a melhor coisa que me aconteceu. Quero que você me prometa que vai continuar sendo essa mulher forte, linda, que você é, mostrando que a vida é uma experiência que vale a pena ser vivida em sua plenitude até o final. Não desista. Vou ficar torcendo, seja lá onde eu estiver, para que você continue trabalhando, namorando e aproveitando a vida como você sabe fazer e merece".

Para todos (reunidos ao redor):
"Como diz o poema da Cora Coralina, eu não sei se a vida é curta ou longa para nós, mas eu sei que nada tem sentido na vida se não tocarmos o coração das pessoas. E a presença de vocês aqui hoje significa que, apesar de eu ter sido grosseiro, mal-humorado muitas vezes, eu toquei o coração de vocês. Isso funciona para mim como uma espécie de absolvição pelos pecados, que eu nunca cometi. Todo mundo sabe que Alberto Prado Monteiro nunca pecou. Como poderia pecar alguém que sempre foi ateu?"

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL