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Em Brasília, turista passeia por arquitetura de Niemeyer, rodas de samba e cultura nordestina

SETH KUGEL

New York Times Syndicate

15/11/2011 07h00

Apesar de seus monumentos modernistas de autoria do lendário Oscar Niemeyer, a capital retrofuturista do Brasil – erguida em um vasto planalto seco na região central do país no final dos anos 50 e começo dos anos 60 – costuma atrair poucos visitantes que não têm nada a tratar com o governo federal. Mas com o boom econômico do Brasil e sua crescente influência mundial, Brasília está atingindo a maioridade, ganhando um novo museu aqui, uma ponte bacana ali, restaurantes de ponta por toda parte.

Brasília também é mais segura e mais tranquila que o Rio de Janeiro ou São Paulo, a menos que você leve em consideração o estresse de tentar entender seu sistema enlouquecedor de endereços. Para aumentar o charme, há os entardeceres maravilhosos, pontos de samba e algo que até mesmo os maiores planejadores urbanos do mundo não poderiam lhe dar em sua inauguração, em 1960: meio século de tradição e história.


Sexta-feira

16h - Congresso com Niemeyer
Inicie seu passeio no coração do “Plano Piloto”, a cidade planejada original, onde três prédios projetados por Niemeyer abrigam os três poderes do governo brasileiro ao redor da Praça dos Três Poderes. Eles são todos Niemeyers clássicos, curvilíneos: o Palácio do Planalto, onde trabalha a primeira presidente do Brasil; o Supremo Tribunal Federal; e pairando acima de ambos, dois altos prédios de escritórios e os domos côncavo e convexo que os acompanham, onde fica o Congresso Nacional. Caminhe pela esplanada além dos pálidos prédios verdes dos ministérios até uma das obras mais recentes de Niemeyer (que ainda trabalha aos 103 anos de idade): o Museu Nacional Honestino Guimarães (SCS, Lote 2; 61-3325-5220), de 2006, onde você pode ver obras de artistas contemporâneos de todo o mundo.

18h - Pôr do sol em uma capela
O pôr do sol em Brasília é lindo visto de praticamente qualquer lugar, mas o melhor lugar de todos para admirá-lo é na Ermida Dom Bosco (QI 29, Lago Sul), uma capela projetada por Niemeyer do outro lado do artificial Lago Paranoá, em relação ao Plano Piloto. A vista atrai diariamente uma multidão, que se dispersa assim que o sol se põe. Não siga as massas: permaneça juntamente com os casais desgarrados (e os vendedores de água de coco) e observas as cores impressionantes que tomam o céu cerca de 20 minutos depois.

20h - Passeio pelos bares
A atividade mais popular no início de noite para todos os moradores locais é comer, beber e conversar nos bares que servem jovens e idosos, héteros e gays, fãs de cerveja e de caipirinha. Talvez o mais tradicional de todos seja o Beirute (CLS 109, Bloco A; 61-3244-1717), com 55 anos, que mistura sem distinção a clientela regular mais velha com a clientela gay jovem; a comida, como é de se esperar, é árabe, incluindo os quibes, petiscos de carne moída e trigo em formato de bola de futebol americano (US$ 3,50).

  • Seth Kugel/The New York Times

    Frequentadas por um público eclético, rodas de samba de Brasília são sempre animadas

Dois outros favoritos são o Libanus (CLS 206, Bloco C, Loja 36; 61-3244-9795), mais jovem e mais ruidoso, e o Boteco (CLS 406, Bloco D, Loja 35; 61-3443-4344), um bar ao estilo do Rio de Janeiro, erguido em uma sobreposição clássica de Brasília, em frente ao estacionamento de um supermercado. Os garçons circulam com bandejas com vários petiscos para escolher: o mais famoso é a coxinha de camarão (R$ 7,90), uma versão da tradicional coxinha de frango de bar do Brasil.

Sábado

9h - “Supi”?
“Supi” é como os brasileiros pronunciam SUP, a abreviação de surfe Stand-Up Paddle, um esporte envolvendo você, uma prancha de surfe e um remo. E é preciso pronunciar assim caso queira que o funcionário no portão do Clube Naval (SCES, Trecho 2, Conjunto 13) permita sua entrada até a sede à beira do lago do Clube do Vento (61-8124-8596; clubedovento.com). Por meros R$ 25, você logo estará remando no Lago Paranoá em direção à impressionante Ponte Juscelino Kubitschek, com seus três arcos que se cruzam, inaugurada em 2002 e que imediatamente se transformou em um marco da cidade.

Meio-dia - Bufê nordestino
Quase toda cidade brasileira fora do Nordeste tem um grande número de migrantes da região financeiramente pobre, porém de culinária rica, mas apenas Brasília tem uma filial do nordestino Mangai (SCE Sul; 61-3224-3079; mangai.com.br), um palácio da cozinha regional onde os clientes escolhem e se servem em um bufê de aproximadamente 80 pratos principais (carregados de carne de porco, abóbora e mandioca) e cerca de 40 sobremesas. O pagamento é por quilo (US$ 46,90), um esquema típico de restaurante brasileiro; com cerca de R$ 35 você tem um prato cheio, sobremesa e suco de fruta fresco. Também incluído: redes na varanda com vista para o Lago Paranoá para um descanso pós-refeição.

14h - Adoração modernista
Não há igrejas coloniais nesta cidade. Em vez disso, as casas de oração de Brasília se encaixam no tema modernista. Você já vislumbrou a Catedral Nacional de Niemeyer perto dos ministérios, mas agora é hora de visitar aquela que deve ser a igreja mais azul do mundo, o Santuário Dom Bosco (SEPS, Quadra 702; 61-3223-6542; santuariodombosco.org.br), concluído em 1970.

  • Seth Kugel/The New York Times

    Concluído em 1970, o Santuário Dom Bosco deve ser a igreja mais azul do mundo

Seus arcos góticos de 15 metros de altura são preenchidos com vitrais em 12 tons de azul, dando ao interior (e sua cruz de cedro e candelabro de 2,75 toneladas) inesquecíveis tons submarinos. De lá, continue na direção sul até a drasticamente mais modesta Igrejinha de Fátima (EQS 307/308; igrejinhadefatima.org), a primeira igreja da cidade, também um especial de Niemeyer.

16h - Samba ao entardecer
O samba no fim de tarde de sábado é uma tradição na cidade, e apesar dos bares que o promovem poderem não oferecer muito o que olhar, a cerveja gelada, a clientela animada e a música tornam os espaços sem alma atmosfericamente relevantes. O mais badalado atualmente é o Cadê Tereza (CLS 201, Bloco B, Loja 1; 61-3225-0555; cadeterezabar.com.br), que leva o nome de uma canção de Jorge Ben Jor. A provável resposta para a pergunta: se ela ainda não chegou, provavelmente é porque está na fila. Na dúvida sobre se o novo bar vai continuar por cima, uma opção segura de reserva é o antigo clássico Calaf (SBS, Quadra 2, Bloco S; 61-3325-7408; calaf.com.br), que dá vida inesperada no fim de semana ao Setor Bancário Sul.

21h - Copenhague no Paranoá
Vista-se e siga para um dos restaurantes mais elegantes e incomuns de Brasília, o Aquavit (SMLN, Trecho 12, Conjunto 1, Casa 5; 61-3369-2301; restauranteaquavit.com). Lá, o chef e proprietário Simon Lau Cederholm o receberá como se estivesse chegando a um jantar na casa dele. E de fato você está: o dinamarquês abriu o restaurante em sua própria casa (que ele projetou; ele também é arquiteto) em 2005. O cardápio é uma mistura de cozinha dinamarquesa, técnicas francesas e ingredientes brasileiros. Em uma noite recente, o menu de cinco pratos a preço fixo (R$ 192, fora o vinho) incluía uma sopa gelada de pepino e salmão defumado, e um queijo local, que o chef transforma em creme e serve com pão de especiarias tropicais, castanha de caju e compota de caju, uma fruta abundante na região.

Domingo

9h - Petit DéJeuner
A ideia de uma verdadeira patisserie francesa nas quadras comerciais insossas de Brasília é quase tão contraintuitiva quanto ter um McDonald’s na Champs-Élysées de Paris. Mas ambos existem. E o melhor dos dois é a Daniel Briand Pâtissier & Chocolatier (SCLN 104, Bloco A, Loja 26, 61-3326-1135; cafedanielbriand.com), um sonho do fã de café da manhã e brunch.

  • Seth Kugel/The New York Times

    Em Brasília, a Daniel Briand Pâtissier & Chocolatier vende doces sofisticados

Os pratos de café da manhã custam a partir de R$ 24,90. Ou peça suas massas elegantes, croissants com geleias caseiras, quiches frescos ou diversos patês à la carte.

10h30 - Senhora presidente
Volte à Praça dos Três Poderes para uma visita ao Palácio do Planalto, o espaço de trabalho da presidente Dilma Rousseff. Os espaços públicos são repletos de arte brasileira e móveis modernistas de autoria do célebre designer brasileiro Sérgio Rodrigues. Mas isso não é tudo: você também pode ver a sala onde os ministros se reúnem e até mesmo espiar o gabinete da presidente.

Meio-dia - A anti-Brasília
Não há quase traço de pobreza ou mesmo de classe operária em Brasília. Mas isso é uma ilusão: os moradores mais pobres do Distrito Federal vivem nas “cidades satélites”, densos aglomerados de prédios de apartamentos que pontilham o horizonte de Brasília. Para um gosto da vida real, siga 30 minutos para fora da cidade até Ceilândia, onde a Feira Central (Avenida Hélio Prates, entre a Via M Um e a Via M Dois) funciona de quarta a domingo. Por cerca de R$ 7, barracas de alimentos oferecem enormes pratos de especialidades nordestinas. Sob o mesmo teto você encontrará padeiros, vendedores de frutas, roupas com desconto, vendedores de tabaco e açougueiros. Se Brasília é um sonho moderno brasileiro, Ceilândia é a realidade moderna brasileira.

O básico

Tryp Brasil 21 (SHS, Quadra 6, Conjunto A, Bloco F; 61-3218-4700; tryphotels.com) é um dos muitos hotéis de negócios perfeitamente confortáveis no Setor Hoteleiro Sul; as diárias nos fins de semana contam com grandes descontos e podem custar apenas R$ 196 por um quarto duplo.

Um meio degrau abaixo em conforto, mas vários degraus acima em estilo e história, o Brasília Palace (SHTN, Trecho 1, Conjunto 1; 61-3306-9100; plazabrasilia.com.br) tem quartos duplos a partir de R$ 239. Situado longe da agitação próxima da residência presidencial, ele parece ter saído diretamente dos anos 60, apesar dos quartos terem sido reformados.

Tradutor: George El Khouri Andolfato