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Brasileiros injetam vida nova em pequena cidade da Irlanda

Por Paul Hoskins<br>

25/09/2006 13h31


GORT, Irlanda (Reuters) - Bandeiras brasileiras são hasteadas em pubs, cartazes em português anunciam a feira agrícola, e o verde e amarelo berrantes da loja de alimentos "Real Brazil" se destacam em meio a uma fileira de estabelecimentos comerciais discretos.

Situada entre a árida região de Burren e as montanhas Slieve Aughty, no oeste da Irlanda, Gort está rapidamente se transformando na "Little Brazil" da Irlanda, com uma comunidade latino-americana que já compõe mais de um terço de sua população total de 3.000 habitantes.

Mesmo na capital irlandesa, Dublin, onde as crescentes comunidades polonesa e chinesa começam a se destacar, não há nada que se compare à maneira como a cidadezinha rural de Gort ilustra as mudanças demográficas suscitadas pelo boom econômico da Irlanda, que levou o país a ser descrito como "tigre celta".

"Hoje, diante de outras comunidades, somos um exemplo de como a integração deve funcionar", disse Adrian Feeney, presidente da Câmara de Comércio de Gort.

Numa manhã chuvosa na praça principal de Gort, cerca de 70 brasileiros aguardam para ser contratados por fazendeiros e construtores. Poucos falam inglês; eles gritam um com o outro em português.

Carlos conta que ganha até 100 euros (127 dólares) por dia de trabalho. Depois de viver em Gort dois anos e meio, ele já comprou uma casa no Brasil e optou por permanecer por mais tempo, até ganhar o suficiente para comprar um pedaço de terra.

"Gosto daqui porque, no Brasil, eu teria que trabalhar dez anos para comprar uma casa", diz o brasileiro de 35 anos, pai de três filhos e natural de Anápolis, como a maioria dos outros brasileiros de Gort.

Como muitos dos trabalhadores cuja situação legal na Irlanda é incerta, Carlos não quis informar seu sobrenome.

BANDEIRAS E CARAS PINTADAS

Devido aos trabalhadores vindos do outro lado do mundo, Gort vem ganhando um clima nitidamente latino-americano, com o time de futebol "Samba Celtic", missas rezadas em português e um carnaval anual em que se dança quadrilha.

A ausência da Irlanda da Copa do Mundo, este ano, não impediu a loja de materiais esportivos da cidade de fazer grandes negócios.

"Foi maravilhoso", disse John Moylan Jr., de 17 anos, que cuida da loja de sua família. Ele diz que a loja vendeu até 300 faixas e bandeiras do Brasil durante o evento.

"Os irlandeses entravam e compravam as camisas e então iam ao pub com os brasileiros, com as caras pintadas de verde e amarelo", disse apontando para o O'Donnell's Bar.

Desde que os primeiros brasileiros chegaram para trabalhar na fábrica de processamento de carne de Dort, a população imigrante não parou de crescer. O dono da fábrica procurou trabalhadores do Brasil, maior exportador mundial de carne bovina, devido à ausência de mão-de-obra local qualificada.

"Eles são melhores trabalhadores e não criam problemas", disse Moylan Jr.

No Web site da cidade, apenas dois de dez comentários anônimos sobre a comunidade brasileira são negativos.

"Vocês não sabem a sorte que têm de contar com pessoas que são conhecidas em todo o mundo por sua simpatia e hospitalidade", diz um comentário enviado em resposta a uma mensagem que fala do receio de que a cultura irlandesa seja diluída.

Quando os gases emitidos por um aquecedor mataram dois brasileiros enquanto dormiam, no ano passado, a cidade reagiu com uma campanha de levantamento de fundos que já pagou a compra de duas casas para as famílias deles no Brasil, além de criar um fundo para fornecer uma renda às famílias.

"RELACIONAMENTO SIMBIÓTICO"

O escocês Frank Murray, que fala português e trabalha em Gort num projeto comunitário da Universidade Nacional da Irlanda em Galway, diz que muitos moradores locais sentem empatia com os brasileiros em parte devido ao fato de a Irlanda ter uma longa história de emigração por razões econômicas.

Milhões de irlandeses emigraram nos últimos dois séculos devido à fome, pobreza e desemprego. A tendência só se inverteu com o advento do boom econômico do "tigre celta", em meados dos anos 1990.

"Alguns dos habitantes mais velhos reagem mal às transformações rápidas sofridas pela cidade, e pode haver um pouco de ressentimento, mas o fato é que a migração devolveu a vida a Gort", disse Murray.

Para os brasileiros, disse ele, os primeiros meses podem ser difíceis. "Os brasileiros são como a cerveja Guinness -- eles reagem mal quando mudam de lugar", disse ele.

Apesar disso, cada vez mais brasileiros estão optando por permanecer mais tempo em Gort.

"Eles gostam dos irlandeses, acham que eles são muito educados. Mas o que mais os atrai é a ausência de violência. Apesar de tudo o que o Brasil tem de bom, a violência é um problema real nesse país", disse Murray.

Marilene Xavier de Paula, que está saindo da loja de conveniência "Real Brazil", disse que há alguns problemas.

"Às vezes, as pessoas tem dificuldade em falar o inglês e algumas dificuldades com trabalho. Os homens podem trabalhar na construção, mas para as mulheres a única opção é a faxina", disse ela, que é balconista numa quitanda e tem um filho de 15 anos que estuda na escola local.

Ao todo, porém, sua experiência em Gort tem sido boa. "Gosto daqui e gosto do clima", disse Marilene, sorrindo.

Brendan Smith, que ensina computação aos brasileiros como parte do projeto da universidade, atribui o sucesso da integração em Gort ao equilíbrio entre o número de homens e mulheres, ao misto de idades e à ausência de gueto brasileiro.

"Isso é importante, porque, se não for assim, surge uma situação como a que existe na França: uma bomba-relógio", disse ele, referindo-se aos tumultos do ano passado nas periferias francesas promovidos por jovens descendentes de imigrantes.

"O que vai acontecer quando a economia parar de crescer? Essa é uma pergunta que a Irlanda inteira terá que responder".

Por enquanto, pelo menos, Smith acha que o fluxo de brasileiros está beneficiando a todos.

"É um relacionamento simbiótico. Os dois lados se alimentam mutuamente. Gort era um lugar parado antes da chegada dos brasileiros. Ela precisava de uma injeção de ânimo, e os brasileiros a deram".