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Descubra as peculiaridades de Amsterdã em uma caminhada pela cidade

Russell Shorto

New York Times Syndicate

27/07/2013 08h00

A Haarlemmerstraat, em Amsterdã, é uma rua tão estreita que da janela do meu escritório posso espiar as lojas do outro lado da rua. Tem a boutique de azeites, com suas fileiras de barris de metal e o aviso lá dentro que diz: "Verifique o óleo" e a "coffee shop" para onde turistas jovens e bem vestidos se dirigem em busca de um barato lícito (a esta altura, a maioria já sabe que quem quiser um café vai à cafeteria e quem procura um baseado vai às "coffee shops"). Olhando para cima, tenho que esticar o pescoço para conferir a sucessão de elementos nas cumeeiras de tijolos – níveis, sinos, calhas – que indicam as mudanças por que passaram os modelos de construção no período áureo da cidade, no século 17.

A Haarlemmerstraat não é única. Numa cidade fundada basicamente sobre pântanos de turfa, espaço sempre foi uma coisa preciosa. Curiosamente, os primeiros ocupantes do edifício onde trabalho (ou seja, há alguns séculos) nem sonhavam com esse problema. Ele se chama West India House (Casa das Índias Ocidentais). Por volta de 1600, os diretores da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais estavam estabelecidos aqui e faziam negócios com o Caribe e as Américas do Norte e do Sul comercializando produtos que incluíam sal, madeira, alcatrão, açúcar e escravos. Foi a partir daqui que eles montaram entrepostos no exterior -- um dos quais, Nova Amsterdã, foi estabelecido no extremo sul da ilha de Manhattan. Gosto de imaginar que foi na sala de reuniões que fica do outro lado do pátio, de frente para a minha sala, que Nova York foi concebida.

Trabalho no West India House porque sou diretor de um centro cultural norte-americano chamado Instituto John Adams, instalado aqui desde o início, há 25 anos, por causa da conexão histórica com os EUA (um detalhe curioso a respeito do lugar, pelo menos para mim, é que antes de me mudar para Amsterdã eu escrevi um livro, "The Island at the Center of the World", sobre a fundação holandesa de Nova York; depois, quando comecei a trabalhar no West India House, um amigo me disse: "É como se você tivesse entrado em seu próprio livro").

Há sete anos moro na cidade e vivo a pensar no conceito de espaço. Apesar de toda a vastidão sobre a qual os holandeses um dia já reinaram, eles acabaram se restringindo a esse trecho minúsculo que vive sendo ameaçado pela água. Basta pegar qualquer bairro da cidade para ver que ele ilustra dois fatos: 1) Amsterdã sempre procurou se espalhar e ir além de seus limites; 2) seus habitantes estão sempre reconstruindo, reinventando e reaproveitando, de maneira engenhosa, cada palmo de terra que possuem.

Veja, por exemplo, a caminhada que faço na hora do almoço. Se virar à direita na Haarlemmerstraat, passo por vários restaurantes étnicos: tibetano, tailandês, francês, argentino – e saio numa pequena "plein" (praça) onde, às vezes, como num quiosque de arenque. O peixe holandês tradicional é servido cru, numa conserva leve de salmoura, servido num pãozinho com cebola e picles -- igualzinho ao que se comia durante a primeira onda de expansão quando, nos idos de 1500, seus navios dominavam a pesca do Mar do Norte.

  • Herma­n Woute­rs/The New York Times

    Bicicletas são uma das visões mais constantes de Amsterdã

Alguns passos mais ao norte me levam ao porto que já foi conhecido como "uma floresta de mastros", expressão que sugere não só o poderio global da cidade na época como também o fato de que, no auge de seu desenvolvimento, a infraestrutura urbana se estendia à água, que, aliás, tem um nome curioso: Ij, sílaba mais ou menos pronunciada como um grito de dor ("Ai!"); o prédio branco na margem oposta -- cujo telhado lembra um olho se abrindo, é o novo Museu de Cinema EYE, parte da iniciativa da prefeitura de renovar a orla e, com um calendário permanente de filmes do mundo todo, é uma indicação de que o foco da cidade ainda é nas terras estrangeiras.

Se daqui você for para o leste, vai chegar à Estação Central que, como o nome diz, é o principal centro ferroviário da cidade -- mas, a menos que eu tenha que tomar um trem, procuro evitar o caos. Se decidir ir para a direção contrária, darei de cara com uma série de prédios novos e estilosos que vai até o Ij, cada um com seu deque e barcos de passeio alinhados. Esse trecho de terra é uma ilha artificial chamada Westerdok, criada no século 19 para acomodar a estação. Sim, em Haia os políticos decidiram colocá-la bem à beira do lago sem sequer imaginar se haveria espaço para isso. A ilha foi criada para ser um tipo de estacionamento de trens -- o que já não era  mais necessário no fim do século 20, quando então foi transformada num novo bairro.

Perto de Westerdok há um grupo de três outras ilhas artificiais que se diferenciam simplesmente por terem sido criadas no século 17. No processo de abrir os canais que hoje são uma das principais características topográficas da cidade, os planejadores da época de ouro descobriram que tinham um montão de terra -- e solucionaram o problema do excesso usando-a para criar mais espaço habitável no porto. Atravessar a pequena ponte que leva a Prinseneiland, a mais bela das três, é um dos meus passeios favoritos porque, mesmo estando em Amsterdã, tenho a nítida sensação de que estou entrando num vilarejo pesqueiro do século 17. Pequenas pontes levadiças de madeira unem essas três ilhas. Quando o tempo está bom, trago o meu "broodje haring" (sanduíche de arenque) e me sento aqui, observando os navios antigos e as barcas ancoradas.

De volta ao continente, volto à Haarlemmerstraat (na verdade ela muda de nome no meio do caminho e aqui é chamada Haarlemmerdijk). Há trinta anos esse era um dos bairros mais perigosos da cidade, mas uma iniciativa público-privada revitalizou a região e ela se transformou numa rua de compras da moda.

  • Herma­n Woute­rs/The New York Times

    Pedestres circulam na frente da Estação Central, um dos marcos arquitetônicos de Amsterdã

Vira e mexe encontro o meu amigo Friso Broeksma, um arquiteto que mora em Prinseneiland, na Haarlemmerdijk. Há pouco tempo, caminhando a esmo, comentei com ele um detalhe que, na minha opinião, era menos atraente: aqui e ali a fila de fachadas de tijolinhos antigos era interrompida por prédios construídos nos anos 80 que simplesmente não combinavam. "Você está certo, mas nem tanto", disse ele. Os arquitetos nem sempre mantiveram a estética antiga, é verdade, mas ele me fez atravessar um arco de uma dessas novas estruturas e, na mesma hora, estávamos num oásis. "Quando decidiram melhorar a área, pensaram muito na questão da moradia acessível", explicou. Por trás das lojas modernas da Haarlemmerdijk há complexos discretos de casas e prédios de apartamentos criados ao redor de pequenos jardins. As tulipas estava desabrochando. Em todos aqueles anos em que vivi no bairro, eu nunca tinha estado aqui. Nos anos 80 e no século XVII a mentalidade era a mesma: encontrar novas formas de maximizar o espaço.

É claro que o espaço é restrito em qualquer grande cidade do mundo, mas poucos lugares têm as mesmas restrições que as cidades holandesas. As construções ao longo da Haarlemmerstraat enfatizam os desafios que os moradores sempre enfrentaram. Os cartões postais de Amsterdã mostram a inclinação fotogênica das casas, mas, na verdade, ela não está ali por charme; é uma indicação alarmante da instabilidade do subsolo. Não se pode construir prédios muito altos por aqui -- e mesmo os de três andares podem resultar numa mudança estrutural significativa a ponto de a fundação da casa ter que ser refeita.

Voltar para o escritório me traz de volta ao lugar onde a rua cruza o Prinsengracht, um dos canais que melhor definem o centro. As comportas antigas que dominam esse local ressaltam o fato de que, assim como as casas tortas, vistas hoje como um detalhe pitoresco, os canais também foram construídos por necessidade. Num país onde a maior parte da terra fica abaixo do nível do mar, cuidar do fluxo da água era e é fator básico de sobrevivência.

Há muitos anos, um autor holandês chamado Matthijs van Boxsel escreveu um livro curioso, chamado "The Encyclopedia of Stupidity" ("A Enciclopédia da Estupidez"), no qual catalogou inúmeras variedades de bobagens cometidas pelo ser humano -- com destaque para as peripécias que seus conterrâneos fazem para se manter secos num lugar que, na verdade, não passa de um vasto delta de rio -- mas se parece ridículo alterar o meio ambiente tão drasticamente para adequá-lo à ocupação humana, a crítica se aplica a muito além das fronteiras holandesas, não? Sim, sem dúvida, a "estupidez" dos holandeses gerou uma engenhosidade que, em decorrência da tempestade Sandy e a certeza de que muitas outras calamidades semelhantes virão, é muito necessária ao mundo. Caminhar por Amsterdã é, entre outras coisas, uma lição prática que mostra como os humanos resolvem problemas que eles mesmos criaram.