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Dono do hit 'O Sol' queria ser tenista como o pai, top 100 do mundo

Cantor Vitor Kley posa para foto - Divulgação
Cantor Vitor Kley posa para foto Imagem: Divulgação

Luiza Oliveira

Do UOL, em São Paulo

30/09/2018 04h00

"Ô, Sol. Vê se não esquece e me ilumina, preciso de você aqui". O hit de 2018 não sai da cabeça, toca em todos os lugares e alçou Vitor Kley ao sucesso.  O cantor agora triplicou seu número de shows e não sai dos programas de TV. Mas o que poucos sabem é que ele quase seguiu outro caminho. Vitor é filho do tenista ex-Ivan Kley e queria seguir a carreira do pai quando criança.

Ivan Kley foi um tenista de grande sucesso no Brasil. Ele chegou a ser top 88 do ranking mundial nos anos 80 e disputou torneios de Grand Slam como Roland Garros, Wimbledon e US Open. Kley defendeu o Brasil na Copa Davis por três vezes e travou um duelo contra o então campeão do saibro, o francês Yannick Noah, na quadra 1 do famoso torneio em Paris. Na época, o tênis não tinha muito investimento e ele cuidava da própria carreira sozinho. Era o responsável por cuidar da logística, do marketing e até da preparação física. Ainda assim, Kley figurou no top 100 e chegou ao ranking 56 de duplas.

Vitor sempre acompanhou o pai desde criança e começou a seguir seus passos. As lembranças da infância ainda ficam frescas na memória sempre que ele entra na salinha de troféus do pai com recortes de revistas e troféus de torneios que disputou como o de Itaparica, em 1987, que ficou marcado por ser o primeiro título de André Agassi. 

Ivan Kley chegou a ser 88 do mundo e jogou final contra Agassi - Facebook/Reprodução
Ivan Kley chegou a ser 88 do mundo e jogou final contra Agassi
Imagem: Facebook/Reprodução

O garoto admirava muito o pai e queria seguir sua carreira. Tinha até o mesmo estilo de jogo com um saque potente e um bom backhand de slice.  “Sempre foi aquela coisa do filho querendo impressionar. Eu treinava muito, pensava que eu poderia ser jogador de tênis. Ele que me ensinou a sacar e o que ele fazia virava referência. Eu dava um slice e falavam: ‘é o filho do Ivan’. Quando ia treinar com ele na quadra eu ficava feliz da vida. Era muito massa ter ele me acompanhando. É a visão que eu tenho até hoje. É o meu herói, não tem cara que tem maior poder do que o meu pai. Na quadra todo mundo que jogava, me falava: seu pai era um tanque de guerra, corria para todo lado".

Vitor levou o tênis a sério e jogou até os 16 anos. Disputou torneios importantes do Brasil como o Banana Bowl, uma das principais competições juvenis do mundo que já teve a participação de nomes como John McEnroe, Andy Roddick e Juan Martin Del Potro.

O amor pelo esporte era dividido com o amor pela música. Nesse ponto, Vitor puxou a mãe, que tem a veia artística aflorada, toca piano e violão. O pai também fazia parte do cenário musical e lhe apresentou algumas de suas bandas prediletas: Queen e Supertramp. Na adolescência, a música acabou falando mais alto e ele deixou o tênis. Começou a tocar em bares, foi apadrinhado por Armandinho e a carreira decolou. Até que conheceu o produtor musical Rick Bonadio e estourou de vez com o hit ‘O Sol’.

No início, o pai ficou receoso, mas depois deu apoio e hoje vê que foi o melhor caminho. "O Vitor poderia jogar, tinha um bom físico. Se não desse para ser profissional poderia ganhar uma bolsa numa ótima faculdade dos Estados Unidos, fazer um MBA, já havia programado. Mas em vez de pegar o lado do pai, pegou o da mãe. Aí começou a desenvolver na música, conheceu o Armandinho e o tênis ficou em segundo plano. Ele fazia show em barzinho, a gente acompanhou tudo desde o crescimento até agora. Eu não entendia tanto de música, estava um pouco receoso, mas botaram fé: ‘pai, fica tranquilo’.  Vi que estava levando a sério e agora está dando tudo certo", conta Ivan.

Hoje, com uma agenda lotada de shows, gravações e entrevistas, Vitor quase não tem tempo para jogar tênis. Apesar de Ivan ainda trabalhar como técnico com atletas em formação e de alto rendimento. O cantor ainda sente saudades quando vê uma quadra e bate aquela vontade de bater uma bolinha. Mesmo sem uma raquete na mão, o esporte ainda está presente em sua vida. São os ensinamentos do pai que ele levará para a vida toda.

Reprodução/Facebook
Imagem: Reprodução/Facebook

"A faculdade do meu pai foi a vida e a carreira dele no tênis. Ele não sabia falar nenhuma língua e viajou o mundo inteiro. Ele sempre falou para nós: ‘a vida é agora, tem que viver mesmo, sair, viajar, ir atrás das coisas. Ele usava algumas metáforas dos jogos, dizendo que ele jogava e mesmo com o joelho destruído, sujo de saibro, tinha que correr para os lados. E por isso eu e meu irmão temos muito isso. Estamos sempre melhorando os shows, evoluindo nas músicas, como se fosse uma partida", disse ele.

"Todo dia eu me lembro do esporte, está presente em nossa vida. Desde o grito de guerra antes de subir no palco, até quando estou compondo uma música que é o meu treino. Estou sempre buscando conhecimento, inspirações novas, a hora do palco é o jogo. É a banda aqui e o público ali, mas não existe oponente, é uma conexão para jogarmos juntos", finaliza.

Música ajudou pai a se curar de depressão

Vitor já não vê o pai tanto quanto gostaria desde que se mudou para São Paulo e tem vários compromissos profissionais. Mas nem por isso a conexão entre pai e filho diminuiu. Pelo contrário. Há pouco tempo, ele pôde retribuir toda a dedicação quando o pai apresentou um quadro de depressão. A família foi fundamental no processo.

O cantor dedicou a música ‘Farol’ ao pai e gravou um clipe com ele em que os dois se emocionam. No vídeo, Ivan assiste à apresentação do filho em um teatro enquanto ele toca violão e canta os versos: “O mesmo céu que chove é o mesmo céu que faz sol. Quando a escuridão vier te abraçar, encontre o seu farol. E você é o meu”.

“A gente como filho também tem essa função. Eles nos dão tudo e quando começa a chegar certa idade, as energias começam a se esgotar. A vida vai nos pregando peças. Temos que ser a fortaleza para ele, é o momento que posso retribuir, levar para o show, até pare ele ver que criou eu e meu irmão. Mas é muito massa porque acredito que a vida nunca erra, põe obstáculos para a gente ultrapassar, criar forças e ser muito maior do que quando começou. Meu pai está muito melhor".

Ivan hoje se emociona ao falar do filho e do que passaram juntos. "A música foi sensacional, agradeci, ele se emocionou, uma coisa que vai marcar para o resto da vida. Ouço quase todo dia e me emociono. Eu estava me recuperando e parece que deu uma energia. A família é tudo, se não tivesse, não sei como seria. A minha esposa também é muito forte e eles me deram o apoio quando eu precisava. Foram fortes e estamos juntos", conta Ivan.

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