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Sabe como vive uma atleta bissexual na Rússia da lei anti-gay? Numa boa

Guilherme Costa

Do UOL, em São Paulo

25/03/2014 06h00

Estimados inicialmente em US$ 12 bilhões (R$ 27,9 bilhões), os Jogos Olímpicos de Inverno de 2014, disputados em Sochi (Rússia), tiveram um custo total de US$ 51 bilhões (R$ 118,6 bilhões). Só que esse estouro de orçamento esteve longe de ser a única polêmica sobre o evento, cercado de protestos por causa do artigo 6.21 do Código de Violações Legais Administrativas da Federação Russa – ou, como ele ficou conhecido, a lei anti-gay. Não parece ser um cenário propício para uma atleta que assumiu publicamente ser bissexual, mas isso não atrapalhou a vida da brasileira Mayssa Pessoa, goleira da seleção que foi campeã mundial de handebol em 2013.

Um ano antes, durante os Jogos Olímpicos de Londres, Mayssa havia chamado a atenção por falar abertamente sobre a sexualidade. “[O esporte] É muito preconceituoso. Entre os homens, principalmente, muitos têm medo. Mas eu consegui tudo na minha vida e sigo conseguindo, e isso não influenciou. Sou bissexual? Sou. Tenho de aceitar isso, e todas as pessoas me respeitam”, disse a goleira na ocasião.

Mayssa jogava na França na época. Ela havia sido convidada para ser madrinha de um torneio voltado à comunidade homossexual – a goleira chegou a aceitar, mas não apareceu por causa de compromissos com a seleção brasileira.

Além disso, a brasileira já havia falado sobre sua orientação sexual em entrevista à revista francesa “Tetu”. Nada disso, porém, provocou um turbilhão tão grande na vida da goleira quanto a entrevista dada em Londres.

“Eu cheguei a falar para o pessoal da comunicação da CBHb [Confederação Brasileira de Handebol] que estava de saco cheio. Eu tinha acabado de fazer um jogo importante contra Montenegro, mas as pessoas só queriam saber disso e só perguntavam disso. Na época das Olimpíadas eu fiquei chateada, mas agora eu deixo falar”, contou Mayssa em entrevista exclusiva ao UOL Esporte.

Depois da repercussão assustadora, curiosamente, o assunto voltou à vida de Mayssa. Ela foi defender o HK Dniamo Volgograd, da Rússia, e o país começou a discutir em 2013 a lei anti-gay.

No dia 30 de junho, a Duma (câmara baixa do Parlamento russo) aprovou por 436 votos a 0 o dispositivo, que permite ao governo multar pessoas acusadas de “espalhar entre menores propaganda de relações sexuais não tradicionais”.

O presidente Vladimir Putin assinou a lei, e isso serviu como estopim para uma série de manifestações antes dos Jogos Olímpicos de Sochi. Atletas e entidades se posicionaram sobre o assunto. Patrocinadores se posicionaram sobre o assunto. Até o Google customizou o logotipo de acordo com as cores da bandeira LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros).

E Mayssa? “Eu nem vi nada sobre a questão dos homossexuais. Eu não olho muito a televisão. Tudo que é em russo eu não olho. Nem vi nada sobre isso porque eu não entendo. Só vejo TV por causa do Animal Planet ou de coisas em espanhol”, relatou a goleira.

As competições foram tudo que a goleira brasileira viu sobre os Jogos de Sochi: “O país parou. A Rússia inteira falava sobre isso. No ônibus, no treino, em todo canto. Eu vi na televisão as disputas”.

O conhecimento de Mayssa sobre o idioma russo é suficiente para entender orientações de jogo ou para dizer o endereço ao motorista de táxi. Duas das companheiras de time da brasileira, nascidas no país, estudaram inglês para melhorar a comunicação.

O idioma, porém, não é a única coisa que distancia a brasileira das russas. “As meninas aqui olham o Big Brother. Até o do Brasil elas já viram. Eu assisti ao programa uma vez, mas não passei nem cinco minutos”, disse Mayssa.

“Eu sinto saudade é das novelas, que a minha mãe via muito. Mas hoje eu não acompanho muito. Parei totalmente. Olho muitas informações sobre o esporte no Brasil  o handebol”, completou a goleira.

Mayssa deixou o Brasil quando tinha apenas 20 anos. Ela não tinha jogado handebol em nenhum time de expressão no país quando foi descoberta por um empresário português chamado Antônio Manoel, dono de um clube no país lusitano.

“Ele conseguiu meu telefone com a Dara, que jogava lá, e me ligou. Depois, veio ao Brasil falar com meus pais. Foi a primeira vez em que eu saí de casa”, afirmou Mayssa. Depois de Portugal, a goleira passou por Espanha e França antes de chegar à Rússia.

“Na questão financeira, o Brasil é como aqui na Rússia: tem muito rico, mas com muita diferença entre as pessoas”, opinou Mayssa, que é de João Pessoa: “A cidade lá tem mudado a todo ano. Tem muita gente indo morar lá e muito estrangeiro fazendo a vida lá. João Pessoa cresceu bastante, e hoje todo mundo tem carro”.

Em dois aspectos, a Rússia exigiu de Mayssa um grande poder de adaptação. Ela precisou conviver com o frio (a goleira chegou a pegar -29ºC) e com um estilo diferente de handebol.

“A filosofia aqui é diferente. O handebol é um esporte que se revoluciona a cada ano ou a cada mês, mas aqui está estacionado. Eu acho a Rússia muito forte porque as jogadoras são boas, grandes e fortes, mas não vejo um jogo inteligente”, opinou a brasileira.

Volgogrado, a cidade em que Mayssa vive, também foi palco de dois atentados terroristas. Ataques a uma estação de trem e a um ônibus mataram um total de 33 pessoas. Mas isso não afetou a rotina da brasileira.

“Não teve nenhum problema. Está tudo sob controle. Em todo canto que a gente vai há um controle muito grande. Eu viajei de trem na mesma estação em que houve a bomba, mas o controle era tão grande que eu me senti segura”, disse a brasileira.

Entretanto, outro fator está perto de findar a experiência de Mayssa na Rússia. Valorizada após ter sido campeã mundial, a goleira espera apenas o fim do contrato com o atual time para se transferir para o CSM Bucareste, da Romênia, país que fechou com seis brasileiras recentemente.

A mudança para a Romênia é atualmente uma das prioridades de Mayssa. As outras são a seleção (ela voltará ao Brasil para um período de treinos a partir de 23 de março) e o cachorro Charlie, um beagle que ela comprou neste ano.

Charlie é a única companhia de Mayssa no apartamento em que ela vive na Rússia. Até os Jogos Olímpicos de 2016, que serão disputados no Rio de Janeiro, a ideia da goleira é deixar a vida pessoal em segundo plano.

Isso não vai impedi-la, contudo, de exercer uma nova função neste ano. A goleira entra de férias em junho, e algumas jogadoras russas já avisaram que querem acompanhá-la na viagem ao Brasil. Tudo por causa da Copa do Mundo.

“Vou ter de ser a anfitriã. No ano passado, uma das meninas foi ao Brasil e quis conhecer o Rio de Janeiro, o Pão de Açúcar, o Cristo Redentor e a favela do Alemão. Agora, mais três querem ir”, afirmou a brasileira.

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