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Rubro-negro gasta R$ 1.060 para ver renascimento do Vitória na Série B

Franciel viajou 1600 km para assistir o Vitória nos 3 a 0 contra o Vasco - Divulgação
Franciel viajou 1600 km para assistir o Vitória nos 3 a 0 contra o Vasco Imagem: Divulgação

Colaboração para o UOL, em Salvador

12/11/2021 04h00

Classificação e Jogos

O que você faz quando acorda acreditando que seu time precisa de sua presença no jogo que ele fará no dia seguinte, a 1.600 km de distância de sua casa?

O jornalista e escritor Franciel Cruz, 50, não teve dúvidas: desembolsou R$ 1.060 para comprar ingresso e passagens aéreas no trecho Salvador-Rio-Salvador. Mesmo sabendo o time dele, o Vitória, ocupava o penúltimo lugar da tabela do Campeonato Brasileiro da Série B, com 97% de chances de rebaixamento.

"Eu já vi meu time vencer o Flamengo na Ilha do Governador, eu já ganhei do Fluminense no Maracanã. Onde eu vou, o Vitória broca", gabou-se o autodenominado rouco e cabeludo locutor, convencido de que as "orientações", transmitidas do setor de visitantes de São Januário, foram fundamentais para o triunfo rubro-negro por 3 a 0 sobre o Vasco de quarta-feira. Coincidência ou não, o fato é que até então o Vitória havia vencido apenas duas em 17 partidas disputadas fora de seus domínios.

Franciel Cruz não era o único rubro-negro nas arquibancadas cruzmaltinas, é verdade, mas seu perfil não se enquadra nos perfis dos blocos majoritários dos pouco mais de 100 torcedores ali presentes: o dos baianos radicados no Rio de Janeiro, como o do contador Reinaldo Regis, 40, autor das fotos que ilustram essas reportagens, ou dos que viajaram de ônibus de Salvador, em caravanas promovidas pelas torcidas uniformizadas, a um custo três vezes menor.

Franciel Cruz - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

Sempre presente no Barradão, o jornalista conta que já viajou para várias cidades do Nordeste e do Sudeste atrás do Vitória. "Em 2012, fui para Goianinha assistir a um jogo contra o América sem saber aonde era Goianinha. Eu achava que era um bairro de Natal, mas na verdade é uma cidade a 80km de distância do aeroporto. Peguei um táxi e o taxista ficou meu amigo. Virou torcedor do Vitória e não cobrou a corrida da volta", conta.

De torcedor fanático, Franciel tornou-se membro efetivo do Conselho Deliberativo do Vitória no ano passado. Fez oposição a Paulo Carneiro, cujo mandato de presidente foi suspenso por denúncias de irregularidades em setembro passado, e ganhou um cabo-eleitoral de peso para a campanha sucessória do ano que vem: o ator e diretor de cinema Wagner Moura, que foi seu colega no curso de Comunicação Social da Facom-Ufba. "Eu tenho dois sonhos: derrubar o Bolsonaro e que Franciel Cruz seja presidente do Vitória", declarou Moura em entrevista ao programa Linha de Frente, da TV Aratu. A candidatura, diz Franciel, é uma provocação de seu amigo Wagner.

"Wagner fez propaganda do meu livro quando já estava esgotado. Só pra eu meter propaganda do filme dele que tá sendo lançado. Descobri o truque a tempo, ele tá só querendo que eu promova o filme dele", ironiza Franciel Cruz. Marighella é outro ponto comum entre os amigos: o revolucionário que morreu lutando contra a ditadura militar dá nome tanto ao filme dirigido por Moura quanto à torcida organizada antifacista à qual pertence Franciel.

Popular no Facebook, de onde conseguiu realizar uma vaquinha para a publicação de 500 exemplares de seu livro "Ingresia", Franciel nega que sua ousada viagem ao Rio seja apenas uma jogada de marketing para a "fictícia" campanha à presidência do Vitória. "Rapaz, o motivo foi de outra desordem. Morreu Mário Mukeka, um querido amigo, e decidi que agora, ainda mais, vou fazer o que me der na telha", diz Franciel, como se já não agisse assim "desde a mais tenra idade". Na crônica "Qual foi o resultado do futebol", ele revela como rebelou-se contra o pai e deixou o trabalho na feira mais cedo pra ver o Brasil x Itália na Copa de 1982, mesmo sabendo que, qualquer que fosse o resultado do jogo, "meu lombo seria presenteado por doses generosas de urtiga e cansanção".

Preparado para uma nova "Tragédia do Sarriá", Franciel acabou testemunhando o renascimento do seu time na Série B. Além de fazer a sua parte nos 3 a 0 sobre o Vasco, o Vitória foi beneficiado pelos tropeços de seus adversários diretos na luta contra o descenso: foi a 37 pontos, ultrapassou o Confiança, que tem 35, e colou em Brusque e Londrina, ambos com 38. Os próximos jogos serão contra o Cruzeiro e Vila Nova, no Barradão, e CRB, em Alagoas. Franciel diz que estará presente nos três.

Na condição de protagonista de suas próprias crônicas, o fanático rubro-negro não se importa com o tempo e o dinheiro desperdiçados. Nem mesmo o resultado é tão importante assim. O que importa mesmo é ter boas histórias para contar.

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