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Rodrigo Coutinho

REPORTAGEM

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Vice do Cuiabá reafirma foco na permanência: 'Não podemos nos deslumbrar'

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Rodrigo Coutinho

Rodrigo Coutinho é jornalista e analista de desempenho. Acredita que é possível abordar o futebol de forma aprofundada e com linguagem acessível a todos.

Colunista do UOL

16/09/2021 04h00

O Cuiabá é uma das surpresas do Brasileirão 2021 e atualmente ocupa a primeira página da tabela de classificação. Está no ''bolo'' que aguarda as próximas rodadas para definir qual será de fato a briga até o fim da competição. Se buscará uma vaga na Libertadores, na Copa Sul-Americana, ou lutará pela permanência na elite. O vice-presidente do clube, Cristiano Dresch, já deu seu veredito. Independente da atual situação, ele garante que o objetivo é o mesmo do início da competição.

Cristiano apareceu no noticiário nacional depois da polêmica envolvendo o zagueiro Luiz Gustavo há alguns meses. O defensor gravou uma ligação telefônica com o dirigente e nela teria sofrido ameaças. O homem forte do futebol do Dourado não se esquivou deste e de outros questionamentos, como a demissão surpreendente de Alberto Valentim após a 1ª rodada, e detalhou também o crescimento do clube, que basicamente triplicou sua folha salarial em 2021. Confira!

Nos últimos anos temos visto muitos clubes emergentes no futebol brasileiro, como o Cuiabá, e equipes tradicionais com grandes dificuldades financeiras e esportivas. É o início de uma nova ordem no futebol nacional?

CD: Não sei se é o início de uma nova ordem, mas a gestão em qualquer negócio é fundamental. Tanto esportiva ou administrativamente ela tem que ser boa. O modelo mais tradicional do futebol brasileiro está passando por dificuldades. As formas que foram criadas para cobrar dívidas de clubes e vinculá-las ao registro de jogadores no BID, como aconteceu com o Cruzeiro, atingiu diretamente os endividados. Passamos sim por um momento de mudança e reflexão. Também não acho que esse modelo de ''clube-empresa'' é milagroso. Ele sozinho não consegue fazer nada. É até mais difícil. A carga tributária é maior do que num clube associativo. É um momento de quebra de paradigmas, em que os mais organizados e estruturados vão ganhar espaço. Cito o Ceará e o Fortaleza como exemplo, o Atlético Goianiense, clube aqui da nossa região, que trabalha com orçamento muito mais baixo que a grande maioria e está se consolidando na Série A. O Athletico Paranaense é outro. Se analisarmos os resultados financeiros deles nos últimos dois anos, é difícil achar igual no mundo todo.

Qual é a diferença do modelo de gestão do Cuiabá para os demais clubes do Brasil?

CD: Desde que foi fundado, o Cuiabá é um clube-empresa. Quando o ex-jogador Gaúcho fundou há 20 anos, ele já tinha esse tino empresarial muito grande. Convivi com ele e era um grande administrador. É um clube simples de administrar. Processo bem claro. Poucas pessoas tomando decisão e hierarquia bem definida. Além de agilidade. As pessoas que vêm pra cá sentem essa diferença logo no começo. É um clube familiar. Somos proprietários, mas cada um cuida de sua área. Fazemos tudo baseado em consenso e sem sair do orçamento. Se tiver um patrocinador para a manga da camisa, por exemplo, não precisamos reunir um Conselho Deliberativo para votar. Aqui nós já sabemos o passo que vamos dar.

Como começou a se aproximar e se interessar pelo futebol, e como chegou ao seu cargo hoje?

CD: Sempre gostei de futebol, desde pequeno jogava bola e assistia muitos jogos. Meu pai (Manuel Dresch) e meu tio (Aron Dresch) são donos da Drebor (empresa do ramo da borracha e principal patrocinadora do clube) e começaram a patrocinar o Cuiabá em 2003. Aí eu participava das viagens para acompanhar o time. Ia de avião, de carro, de ônibus... Sempre gostei disso! Compramos o clube em 2009, e aí deixei de trabalhar com o meu pai para trabalhar no clube. Fui buscando conhecimento. Vamos aprendendo com as dificuldades e os erros. O futebol é muito difícil. Não é fácil construir as coisas, principalmente na Série A. Há uma disparidade financeira muito grande entre os clubes e ao mesmo tempo uma pressão enorme. Criei relacionamentos para aprender e me capacitar.

Por que o Cuiabá não tem um dirigente executivo de futebol?

CD: Não encaixa dentro da nossa estrutura. A responsabilidade de um profissional como esse é muito grande. Cerca de 80% das nossas despesas são com o departamento de futebol profissional. 60% é a folha de pagamento de atletas e comissão técnica. É muito dinheiro para deixar na responsabilidade de apenas uma pessoa. Temos que olhar bem de perto isso. Dentro dessa estrutura simples que temos, com poucas pessoas tomando decisão e organizado na parte operacional, não tem sentido ter esse profissional aqui.

Busca se capacitar de que forma na parte técnica para entender os processos do futebol e acertar nas decisões? Fez algum curso?

CD: Temos um departamento de análise aqui no clube. Não são muitas pessoas, são poucas, mas a minha obrigação é estar por dentro do mercado. Conhecer os jogadores da Série A e da Série B. Saber quem são. Não fazemos contratações por indicações de empresário ou da própria comissão técnica. É óbvio que o treinador participa do processo, mas foram poucas as contratações com indicação direta do treinador. Fazemos uma análise de mercado avaliando a qualidade técnica do jogador, a carreira, e as características pessoais que ele pode agregar. Não é só a parte técnica. É o que pode agregar também em bom ambiente, acrescentando uma cultura vencedora. Esses mínimos detalhes precisam ser trabalhados todos os dias. Não fiz nenhum curso específico, mas é uma troca de ideias de muitos anos com treinadores, agentes e profissionais. É essencial ter esse bom relacionamento. Óbvio que erramos em algumas contratações, mas a ideia é ter a menor margem possível. Não adianta trazer um jogador que o treinador quer naquele momento, mas que daqui a seis meses vai te atrapalhar. Trabalhamos pelo bem do clube.

O objetivo do Cuiabá segue sendo se livrar do rebaixamento ou passou a ser algo maior?

CD: A vida ensina e sempre fomos muito pé no chão. Não podemos nos deslumbrar com esse momento. A nossa briga é a permanência e precisamos alcançar a pontuação que nos dá isso. O campeonato é muito difícil. A Série A é bastante equilibrada e há resultados surpreendentes em toda rodada. O grande desafio é manter o foco de atletas e comissão técnica. Nesse ponto, o Jorginho é uma cara que tem ascendência grande sobre o elenco. É muito experiente e trouxe uma bagagem importante. Temos que continuar sendo competitivos e brigar em cada jogo. É só nisso que a gente pensa. Em relação a outras coisas, se vier algo a mais será bem-vindo, mas não há esse objetivo no momento.

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Cristiano Dresch, vice-presidente do Cuiabá, concede entrevista coletiva
Imagem: Divulgação/Cuiabá

Hoje a folha salarial do Cuiabá está em que patamar em termos de Série A? Ela foi muito influenciada pela mudança de arrecadação com os direitos de TV entre Série A e Série B?

CD: Foi uma necessidade fortalecer o elenco e trazer jogadores que conheçam a Série A. São muitas particularidades nesta competição. Investimos em atletas com bons números e jovens com vontade e qualidade. A nossa folha salarial cresceu ''duas vezes e meia'' em comparação com a Série B. Não sei dizer exatamente em qual posição estamos, mas acredito que nas dez mais baixas entre os 20 clubes. É um absurdo a diferença do dinheiro da TV entre Série A e Série B. E dentro da própria 1ª divisão isso acontece. Tem clubes que pegam cinco vezes mais que o Cuiabá de cota de TV. Como vamos concorrer com as mesmas condições? Temos que fazer as mesmas viagens e enfrentar os mesmos times com o orçamento cinco vezes menor. Vejo se falar em isonomia, mas o que menos tem na Série A é isso.

E a estrutura física do Cuiabá? Em que nível está hoje e quais são os próximos passos?

CD: Temos que ter uma retaguarda forte em todos os setores, principalmente na parte de saúde e prevenção de lesões. Jogamos em Cuiabá, um lugar muito quente, e que exige mais do atleta. Terminamos há dois meses um campo no CT da base. Foi nossa primeira obra lá e ele será utilizado pelos profissionais durante um tempo. Temos um outro CT, que é do futebol profissional e é completo, mas lógico, com uma estrutura menor em comparação ao que se pede na Série A. Vamos construir um hotel novo dentro desse CT. Vai demorar um pouco mais de um ano para ficar pronto e vamos fazer mais um campo também. Será um CT compacto, mas com tudo que a equipe profissional precisa para se preparar. Temos uma comissão técnica excelente na parte de preparação física e fisiologia e investimos muito nisso. É o melhor caminho para os clubes pequenos ou médios.

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Clayson é um dos destaques do Cuiabá nesta Série A
Imagem: AssCom Dourado

E a demissão do Alberto Valentim? Se já havia a percepção do rendimento aquém da equipe antes de o Brasileirão começar, por qual motivo a demissão não ocorreu antes do início da competição, e sim depois da 1ª rodada?

CD: O grande erro foi a forma que aconteceu a demissão. Pegou todo mundo de surpresa ser logo após a 1ª rodada. Foi uma decisão totalmente técnica. Vimos que o time não tinha a performance esperada, que não melhoraria na mão dele. Começou o campeonato como técnico do Cuiabá porque quisemos dar uma chance pela pessoa de bom caráter que ele é. Infelizmente não ia dar certo. Ele estava invicto, mas disputava uma competição que não exigia nada do nosso time. Na realidade essa regra criada para restringir a demissão de treinadores não está servindo para nada... Vamos ser honestos... Já são 13 técnicos demitidos. É pra ''inglês ver''. E o Cuiabá não tem essa cultura. Pelo contrário. De 2009 até hoje tivemos 18 treinadores. Qual time nesse período teve esse número? Foi tudo maximizado pelas pessoas não conhecerem direito o clube. A grande mídia não cobre o Cuiabá. A forma foi abrupta e isso realmente assustou as pessoas, mas estamos trabalhando para mostrar o que realmente é o clube.

O que você aprendeu e no que melhorou como dirigente com o ''caso Luiz Gustavo''?

CD: Não sei se a questão é melhorar como dirigente. O episódio não foi legal. A gente passa do limite às vezes na vida. Não é a postura do Cuiabá. Estou há muitos anos nisso. Já demiti e contratei vários profissionais e nunca tive problemas desse tipo. Sempre tivemos muitos funcionários na nossa empresa e sabemos que tratá-los bem é primordial. Se fizermos o contrário é o fim do nosso negócio. Foi uma falha, um deslize, e que acabou se tornando pública. O jogador gravar a ligação também não foi uma atitude legal. Ninguém grava uma ligação aleatoriamente, sem ''segundas intenções''.