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Eliana Alves Cruz

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Muito além do ouro: a luta por respeito

Thiago Paulino protesta durante premiação do arremesso de peso -  Matsui Mikihito/CPB
Thiago Paulino protesta durante premiação do arremesso de peso Imagem: Matsui Mikihito/CPB
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Eliana Alves Cruz

Eliana Alves Cruz é escritora e jornalista há 25 anos. Foi chefe de imprensa dos esportes aquáticos do Brasil e é membro da comissão de mídia da Federação Internacional de Natação. Tem dois romances premiados: Água de barrela e O crime do cais do Valongo.

09/09/2021 04h00

Nas últimas Paralimpíadas de Tóquio, o atleta Thiago Paulino dormiu com o ouro e acordou com o bronze...sem direito a contestação e nem ao menos saber o motivo da punição na prova de arremesso de peso, da classe F57. O ouro ficou com o chinês Guoshan Wu, atleta do país que protestou junto à organização. O Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) recorreu, mas o pedido da contestação foi negado. A entidade anunciou nesta quarta-feira (8), que vai acionar o Comitê Olímpico Internacional --COI. Mais que o ouro perdido, o que se busca é um bem precioso chamado respeito.

Revendo a prova por muitas vezes e ângulos, Thiago e a comissão técnica brasileiro tentaram buscar onde estaria o erro. Logo após a punição, o atleta desabafou em suas redes.

"Como nada em minha vida nunca foi fácil, mais uma vez levei um golpe e muito forte!! Não encontramos irregularidades em meus arremessos, mas de alguma forma a organização encontrou."

O momento do pódio olímpico e paralímpico é quase sagrado. É um lugar tão cobiçado, difícil e alcançado por tão poucos atletas no mundo, que a retirada de uma medalha ganha contornos dramáticos, pois nela estão impressos anos de treino, investimentos, expectativas e, sim, também esforço de superação.

Desta forma, o valor da medalha que pende no peito dos ganhadores vai muito além dela mesma. A premiação é simbólica demais para ser desprezada, mas uma coisa já está perdida para Thiago: o momento do pódio máximo. Caso os apelos surtam efeito --e esta é uma longa batalha--, ele receberá uma medalha pelo Correio.

"Não é sobre o quanto você bate, mas o quanto aguenta apanhar", disse Thiago no mesmo desabafo inicial em suas redes sociais. A frustração não teve tamanho e ele expressou este descontentamento no pódio, em diversos gestos.

Depois se soube que a acusação teria sido a de que Thiago teria erguido o corpo da cadeira quando arremessou. Muitos são os questionamentos que este episódio traz. Um gesto destes não estaria muito visível para as câmeras do mundo inteiro? Quais os limites de poder dos organismos internacionais? Exige-se dos atletas "fairplay", ou seja, jogo justo, mas estas regras não valem para os organismos internacionais que regem as competições para estes mesmos atletas? Comunicar os motivos e mostrar as provas de infração tão grave a ponto de tirar o ouro de um atleta paralímpico, e dar-lhe a chance de defesa não seria o "jogo justo"?

O Brasil terminou os Jogos Paralímpicos de Tóquio com 72 medalhas, sendo 22 de ouro, 20 de prata e 30 de bronze. Foi o recorde de pódios dourados para o país. A China, potência olímpica e paralímpica, foi a campeã da competição, com 207 medalhas no total (96, 60 e 51). Atrás de cada número desses existe uma vida e uma história. Ninguém aceita deixá-las para trás. Nenhum ouro e nenhuma história a menos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL