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Práticas ambientais, sociais e de governança no mundo dos negócios


O ESG está morto? Ceticismo e regulamentações marcam nova fase

Novos desafios surgem à medida que crescem os protestos internacionais contra regras ambientais e aumentam as denúncias de "greenwashing" Imagem: Getty Images

Fernanda Simas

Colaboração para Ecoa

17/04/2024 04h00

Em 2020, uma das maiores gestoras de ativos do mundo colocou a sustentabilidade como um novo norte para investimentos e o termo ESG (Environmental, Social e Governance, ou Ambiental, Social e Governança, em português) passou a fazer parte da vida empresarial. Quatro anos depois, o desafio é ir além do comprometimento: as mudanças climáticas e regulamentações obrigam as empresas a implementar as práticas.

"Antes, a empresa podia escolher adotar ou não (as práticas ESG. Essa fase passou", explica a sócia da área de ESG de Brasil e América do Sul da KPMG, uma das maiores empresas de auditoria do mercado, Nelmara Arbex, que trabalha com o tema há 20 anos.

"A agenda ESG foi ganhando força, porque a sociedade começou a ter problemas sociais, ambientais e éticos muito concretos. Por trás dessa tomada de consciência está o reconhecimento de que temos questões importantes como sociedade e as empresas precisam fazer parte dessa solução", diz Arbex.

No entanto, novos desafios surgem à medida que crescem os protestos internacionais contra regras ambientais e aumentam as denúncias de "greenwashing" ("lavagem verde", em tradução literal), que vão desde a promoção de falsas ações sustentáveis até a falsificação de relatórios sobre emissões de poluentes, por exemplo.

Na Europa, as manifestações de agricultores franceses, alemães e belgas pedindo a flexibilização de normas ambientais levaram a Comissão Europeia a fazer concessões em sua agenda, como deixar de lado o plano de redução do uso de pesticidas e retirar o projeto de redução de 30% de emissões de gases-estufa em relação aos níveis de 2015 da agricultura.

Especialistas acreditam, no entanto, que essa sensação de desprestígio internacional da agenda ESG é consequência justamente da transição entre o comprometimento e a prática.

"Existe um contexto de críticas e ceticismo, mas isso não significa que a agenda ESG esteja diminuindo. Essas práticas nunca foram mais obrigatórias, do ponto de vista legal, mas também do ponto de vista de demanda", afirma a diretora para América Latina da GRI, Andrea Pradilla.

A GRI elabora metas de sustentabilidade a partir de determinadas normas que são seguidas por investidores, sociedade civil, empresas e governos. "Estamos vendo mais pressão sobre líderes empresariais para demonstrar resultados. Vemos nos EUA, por exemplo, um sentimento anti-ESG, e essas discussões chegam à América Latina, mas acho que esta é a região mais desigual do mundo, então as empresas devem e precisam dessas práticas ESG, não é moda passageira", completa Pradilla.

Na prática, alguns fatores acabam auxiliando a rápida implementação das práticas ESG. Um deles vem do risco real diante, principalmente, das mudanças climáticas. Para a sócia de ESG da KPMG, as empresas lidam com a dualidade de, por um lado, precisar continuar pensando em formas de evitar uma deterioração da questão climática e, por outro, ter de gastar tempo e dinheiro com a adaptação diante do que já vivemos dessas mudanças.

"Uma empresa de agronegócios vai enfrentar o risco real de trabalhadores não quererem morar em determinado local por medo da falta de água. A própria logística é afetada pelos danos climáticos, quando uma estrada é destruída, por exemplo, e isso acaba motivando a adoção da agenda ESG", diz Arbex.

Outros dois fatores são a competitividade, pois as empresas que adotam a agenda ESG são favorecidas na hora de buscar um financiamento, e o comportamento dos consumidores. Atualmente, 69% do público consumidor jovem opta, sempre que pode, por produtos de reconhecido compromisso social ou ambiental.

Para o presidente da KPMG do Brasil, Charles Krieck, a mudança concreta significa deixar de ser uma empresa de pensamento "carbono neutro" para uma de "carbono zero". "Deixamos de compensar as emissões para evitar as emissões."

De acordo com Krieck, a partir do momento em que as práticas ESG são incorporadas por uma empresa, outras são forçadas, mesmo que indiretamente, a seguir certos padrões. "Optamos por reduzir as viagens corporativas e, sempre que possível, usar veículos movidos a combustíveis não fósseis. Isso começa a influenciar os nossos fornecedores, porque não adianta eu fazer isso se meus fornecedores não estiverem preocupados."

Regulamentações estão surgindo

"Tradicionalmente estamos acostumados a usar os recursos até o fim, mas isso está mudando. É preciso entender as oportunidades sociais e econômicas. A sustentabilidade precisa se tornar normal. Os governos precisam avançar em criar marcos de políticas públicas", diz Pradilla. E, aqui, entra o terceiro fator que serve para impulsionar as ações ESG: as regulamentações que estão surgindo.

Países da União Europeia começaram a cobrar impostos de carbono para quem exporta a eles, ou seja, o país que exporta precisa especificar quanto há de gasto de carbono em sua cadeia de produção. As empresas listadas na bolsa de valores brasileira, por exemplo, precisam divulgar relatórios financeiros que contenham os elementos ESG.

"Vejo um pouco de apatia frente a esse tsunami regulatório, por isso empresas e profissionais precisam se adaptar rapidamente à questão legal. É preciso entender que vão existir implicações. E precisamos levantar uma discussão sobre o tema ambiental de forma mais integrada e não separada do social e da governança. A COP vai ser fundamental no ano que vem para isso, e a discussão precisa ser feita com enfoque de direitos humanos. A governança é o ponto de partida para a sustentabilidade", conclui Pradilla.

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