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Toni Edson queria ser lembrado como contador de histórias; e assim, será

Toni Edson, contador de histórias, professor e curador de Ecoa, morreu nesta quarta - Amanda Bambu/UOL
Toni Edson, contador de histórias, professor e curador de Ecoa, morreu nesta quarta Imagem: Amanda Bambu/UOL

Paula Rodrigues

De Ecoa, em São Paulo

03/12/2021 06h00

Certa vez, na Alemanha, um rapaz sergipano entrou por uma porta e se deparou com uma sala toda decorada em verde e amarelo. Brilhou os olhos ao descobrir que a anfitriã, dona da casa, era uma grande apaixonada pelo Brasil e pela cultura do país. Na curiosidade e empolgação, logo quis saber se ela conhecia Chico Buarque, de quem ele era grande fã. O choque veio ao descobrir que a alemã até o conhecia, mas como escritor de livros e não como músico.

Toni Edson dizia que foi esse o momento em que entendeu algo importante sobre sua própria vida: "Quando ela falou aquilo, eu percebi que não quero ser lembrado como escritor, mas como orador, como contador de história. Prefiro que seja essa a marca deixada pela minha passagem pela Terra: a oralidade, a oratura." Assim, será.

Na tarde de quarta-feira (1º), Toni Edson morreu em decorrência de um infarto, em Aracaju (SE). Virou ancestral, deixando dois filhos, muitas saudades, mas também inúmeros causos, contos e canções que agora serão repassados para mais pessoas por meio dos familiares, amigos e alunos que puderam compartilhar a vida e o palco com ele.

Em sua última mensagem enviada para a reportagem de Ecoa, com o mesmo bom humor e palavras bonitas de sempre, deixou mais uma boa história a ser replicada por aí:

Tristeza é assim, danada, danada... Puxa a gente pra baixo, leva pra passear no cu da cobra no fundo do poço. Mas essa cobra muitas vezes é , é Oxumarê, que pega a gente numa corrente de luz e faz a gente passear pelo arco-íris, e o que foi triste, vira sabedoria. Olho mais aberto para ver com a visão periférica que o mundo, mesmo 'ensimesmado', ensina.

Toni Edson, contador de histórias

Ator, dramaturgo, cantor, professor, contador de histórias e curador de conteúdo de Ecoa, Toni entrou no mundo da arte ainda na infância. Ouvia a mãe cantar pela casa enquanto realizava alguma atividade aqui e ali. Entre um verso e outro, ela botava novas palavras, criava outros refrões e transformava as canções em algo novo — mas fazia com tanta firmeza e beleza que o filho demorou anos para descobrir que aquelas não eram as letras originais das músicas.

Como uma herança passada de mãe para filho, o menino começou a fazer o mesmo. Quando desafiado pelo irmão mais velho, que sugeria temas e palavras diferentes, ele escrevia paródias de músicas para fazer uma graça. Aos 11 anos adaptou "Xote Ecológico", de Luiz Gonzaga, para uma peça que a turminha da escola produzia.

Foi a primeira vez que Toni subiu no palco. Interpretou um prefeito que passava por dificuldades em seu mandato. Quando entrava em cena, cantava:

"Não posso governar / desse jeito não dá / o povo está sofrendo / preciso ajudar / bota uma flor aqui / bota um peixe lá / não vamos desistir / meu negócio é plantar / e a obra do Chico Mendes vamos continuar"

Vendo as habilidades e a desenvoltura do menino, uma professora o convidou a entrar para o jornal da escola. Queria que ele, o único aluno negro naquela instituição particular, escrevesse sobre racismo. Não o fez. "Eu não queria isso, queria mesmo era falar sobre amor", contou Toni.

E, se é verdade o que diz o professor e filósofo Renato Nogueira ao falar que "amar é contar histórias", então Toni foi um homem que dedicou todos os 42 anos de sua vida ao ato de amar. E se sentiu amado por todos que dedicaram um minuto qualquer para ouvi-lo contar e cantar. "Eu não sei quanto tempo eu vou viver, mas, de qualquer jeito, as palavras que falo através dos contos ou das canções serão eternas se alguém me escutar", dizia.

Começou na contação de histórias com contos indígenas e mais tarde se especializou em histórias do continente africano, especialmente as de Burkina Faso, tendo os djeli — ou griôs, como são mais conhecidos no Brasil os contadores que transmitem histórias da África Ocidental pela oralidade — como a principal inspiração.

Seguindo uma prática que é comum a muitos deles, Toni também passou a se apresentar nas ruas, chegando a ser membro-fundador do Movimento dos Artistas de Rua (MAR) e da Trupe Popular Parrua. Dizia sonhar em ver as ruas e praças públicas sendo melhor aproveitadas, servindo de espaço para promover mais com mais comunhão entre as pessoas, a arte e a educação.