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Projeto ensina português de graça a imigrantes como "língua de acolhimento"

A professora Lúcia Maria da Assunção Barbosa, criadora do ProAcolher - Divulgação
A professora Lúcia Maria da Assunção Barbosa, criadora do ProAcolher Imagem: Divulgação

Ana Prado

Colaboração para Ecoa, de São Paulo

21/07/2021 06h00

Abu Tahar Hossain, de 35 anos, veio de Bangladesh para o Brasil em 2016. "Escolhi o Brasil porque é um dos lugares que respeitam os direitos humanos, tanto para os brasileiros quanto para os imigrantes", explica. Sem falar nada de português à época, veio sozinho para encontrar o irmão que já estava aqui.

Ele foi se virando aos poucos com o idioma, até que um amigo lhe falou sobre um curso gratuito de português para estrangeiros. "Comecei em dezembro de 2020 e já aprendi bastante coisa, como presente do indicativo, pretérito perfeito e imperfeito e outros tempos verbais", conta, em português, a Ecoa. Hoje, mora com a esposa brasileira em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, e trabalha como auxiliar de produção em uma grande empresa.

O curso que Abu está fazendo é oferecido gratuitamente pelo projeto ProAcolher, criado em 2013 pela professora Lúcia Maria da Assunção Barbosa e vinculado à Universidade de Brasília (UnB). Cerca de 2 mil alunos de 23 países já foram atendidos, entre refugiados, solicitantes de refúgio e imigrantes em situação de vulnerabilidade. A maioria dos alunos é africana, mas também há muitas pessoas vindas da América Latina e Caribe, especialmente da Venezuela e do Haiti.

Identificando uma necessidade urgente

A professora Lúcia vem estudando e trabalhando com a língua portuguesa para estrangeiros desde 1993. Nascida em Cuiabá (MT), ela já morou no interior de São Paulo e também na França, onde fez doutorado em linguística aplicada. "No doutorado, trabalhei com letras de canções do Chico Buarque para mostrar que a música tem um papel fundamental para a compreensão da cultura e das estruturas brasileiras", conta.

Desde 2012 é professora de Português para Estrangeiros na UnB, onde coordenou, por cinco anos, o Núcleo de Ensino e Pesquisa em Português para Estrangeiros (NEPPE). O núcleo já oferecia um curso pago de língua portuguesa e cultura brasileira para intercambistas e diplomatas de outros países. Mas Lúcia percebeu o aumento de outro tipo de demanda: a das pessoas que precisavam aprender português com urgência, mas não podiam arcar com os custos do curso.

Abu Tahar Hossain, aluno que veio de Bangladesh  - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Abu Tahar Hossain, aluno que veio de Bangladesh
Imagem: Arquivo Pessoal

"No começo, eu acabava inserindo um aqui, outro ali [no curso pago]. Até que em 2013 vi que esse número estava crescendo muito pelo aumento dos grupos de refugiados chegando a Brasília. Na época, havia muitos sírios e africanos, e depois começaram a chegar haitianos", lembra.

Ela decidiu então abrir um curso gratuito específico para esse público, com aulas noturnas (já que os alunos reservavam o dia para trabalhar ou buscar emprego) duas vezes por semana e duração de três semestres. Nascia, assim, o ProAcolher.

O grupo, que havia começado com cerca de 16 pessoas, foi crescendo rapidamente. "Comecei a me preocupar e pensar 'vamos ter que cuidar dessas pessoas'. Felizmente, muitos estudantes da universidade foram se sensibilizando e se voluntariaram para ajudar", conta.

Com esse reforço, a professora pôde abrir mais turmas. "O ProAcolher se tornou um imenso projeto de pesquisa e hoje tenho mais de 20 voluntários que trabalham comigo há muito tempo - tanto estudantes quanto ex-alunos da universidade", comemora.

Língua de acolhimento

À medida que se envolvia no trabalho com os imigrantes, Lúcia começou a pesquisar sobre como outros países lidavam com essa questão. "Eu sabia que Portugal tinha uma política arrojada de acolhimento, e comecei a olhar com mais atenção a bibliografia produzida a esse respeito", explica.

Foi então que ela se deparou com a expressão "língua de acolhimento" em um livro português. Mas, embora o país tenha sido o primeiro a tratar o idioma desta forma, parecia não haver ainda uma definição para o termo. Lúcia tomou a tarefa para si: ela foi responsável por trazer o assunto para o Brasil e orientou a primeira tese defendida aqui sobre o tema.

Segundo ela, o ensino da língua como forma de acolhimento envolve ir além da sala de aula e trabalhá-la como ferramenta para necessidades imediatas: "São pessoas em situação de necessidade, que não podem ficar um ano inteiro estudando para depois agir no mundo. Elas precisam aprender a usar o idioma imediatamente para arrumar um trabalho, encontrar um lugar para morar, executar tarefas relacionadas à sobrevivência em um novo país".

Além do português, as aulas ensinam coisas práticas, como o caminho para tirar documentos, como funcionam as leis trabalhistas brasileiras e como se sair bem em uma entrevista de emprego.

Por fim, há também um componente afetivo: "Mostramos para essas pessoas que são bem-vindas, que a casa é delas também", afirma a professora. Assim, uma consequência dessa abordagem é a maior proximidade que a turma acaba desenvolvendo.

"A própria sala de aula se torna um espaço de acolhimento. Há muita conversa, troca de experiências e também celebrações. No encerramento do curso, quando as aulas eram presenciais, os participantes levavam instrumentos musicais, dançavam e cantavam", completa.

Lúcia afirma que é inevitável para os professores não ficarem tocados pelas histórias dos alunos - e, mais do que isso, eles procuram de fato ajudá-los. Um exemplo é o de uma aluna que veio do Congo e participou da turma há alguns anos.

"Percebemos que ela era uma costureira talentosa e a levamos ao curso de design na UnB. Falei com os professores, eles ficaram sensibilizados. E a universidade tem um ingresso especial para refugiados. Então ela fez o curso e hoje tem sua própria produção de roupas", conta.

Desafios e aprendizados

Projeto ensina português de graça a imigrantes como "língua de acolhimento" - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

Com a pandemia, as aulas passaram a ser online. Tudo teve que ser repensado - inclusive o material didático, que é elaborado pelos próprios professores. Lúcia conta que a distância compromete a formação de laços mais profundos e lidar com a tecnologia muitas vezes é um desafio, já que muitas famílias contam com apenas um celular em casa para assistir às aulas.

Por outro lado, o número de inscritos cresceu exponencialmente. No ano passado, as turmas online receberam mais de 500 inscrições de pessoas de todo o país e também do exterior. Este ano, o número foi um pouco menor, mas ainda bem superior ao das salas presenciais: cerca de 200 pessoas.

Quando a pandemia passar, Lúcia cogita continuar oferecendo aulas online além das presenciais para atender pessoas de outros estados. "Vamos consultá-los. Sentimos falta de estar juntos. O presencial é um encontro de culturas impressionante", conta.

Mas há choques culturais também. "Tem alguns embates de vez em quando. As culturas são muito diferentes e nós precisamos sempre encontrar modos de promover a educação para a diversidade", afirma.

"Explicamos que ali acolhemos todos e todas e não vamos permitir absolutamente nenhum tipo de discriminação. Avisamos que se a pessoa quiser caminhar conosco ela precisa se abrir para aprender mais sobre o outro. No fim, é um grande aprendizado para todos, incluindo os professores."

"A ação mais importante da minha caminhada"

O ProAcolher já serviu de inspiração para iniciativas semelhantes em outros lugares, e Lúcia já foi convidada para falar sobre ele até na prestigiosa Universidade Sorbonne, na França.

Além disso, hoje ela coordena a Cátedra Sérgio Vieira de Mello na UnB, entidade ligada ao Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) que visa garantir que pessoas refugiadas e solicitantes de refúgio tenham acesso a direitos e serviços no Brasil.

"Começamos o curso de forma experimental e, no fim, ele virou a ação mais importante da minha caminhada", reflete. "Essa ação pequenininha lá de trás se tornou esse grande espaço de pensar em refúgio, imigraçao. Não só pensar, mas também agir. Nunca imaginei que tomaria essa proporção."