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Projeto reúne voluntários para custear educação de crianças de Paraisópolis

Super Padrinho/Divulgação
Imagem: Super Padrinho/Divulgação

Ana Prado

Colaboração para Ecoa, de São Paulo

21/04/2021 06h00

A estudante Danielly Pereira Silva, de 18 anos, está se preparando para prestar a Fuvest, o vestibular que seleciona alunos para a USP. Ela pretende cursar Arquitetura e se sente confiante. Desde os 6 anos, estuda em um dos colégios mais tradicionais de São Paulo. A realidade que vive na sala de aula, no entanto, é bem diferente daquela experimentada pelos jovens que moram em seu bairro: Danielly vive na comunidade de Paraisópolis, zona sul de São Paulo.

Seus estudos foram custeados pelo advogado Renato Rodrigues Tucunduva Júnior por meio do programa Super Padrinho, que ele próprio fundou há pouco mais de uma década. A iniciativa reúne voluntários - boa parte empresários - que pagam as mensalidades de colégios de elite para crianças de Paraisópolis. Atualmente, 41 são apadrinhadas por 36 pessoas.

"Posso dizer que foi a maior bênção da minha vida. Eu não teria como pagar uma escola particular, e tive uma oportunidade que muitas pessoas não têm. Agora tenho uma boa base para o vestibular", conta Danielly, que participou do primeiro processo seletivo do programa.

As crianças são selecionadas anualmente entre aquelas que cursam a pré-escola da Associação Crescer Sempre, no Morumbi. Elas fazem um teste de aptidão e as que se saem melhor têm seus estudos custeados do primeiro ao nono ano do ensino fundamental. O número de beneficiados varia de acordo com a quantidade de padrinhos disponíveis.

"Nós sempre começamos com crianças menores, com cinco ou seis anos. Além de favorecer a adaptação quanto ao conteúdo, isso ajuda na integração social entre elas, o que poderá ser determinante para o seu desenvolvimento profissional no futuro", explica Renato. A integração é, por isso, um ponto-chave no projeto. "Há outras escolas que abrem turmas exclusivas para pessoas de classes sociais menos favorecidas, e elas sequer ficam no mesmo prédio. Isso só promove mais exclusão".

Os padrinhos acompanham de perto o desempenho do aluno e mantêm contato com seus familiares. "Isso é importante para entender se ele está conseguindo acompanhar o conteúdo ou se é preciso contratar um professor particular, por exemplo", afirma. Mas as crianças geralmente se saem muito bem. Segundo ele, os apadrinhados costumam ter notas entre as 10% maiores da sua classe.

O nascimento do projeto

Aos 65 anos, Renato sempre se interessou por causas sociais. Prestes a se aposentar, ele conta que o Super Padrinho tem sido sua principal atividade no momento. A ideia surgiu quando ele e sua mulher viram uma propaganda de um projeto que financiava os estudos de crianças no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. Ajudaram por um tempo, mas começaram a se perguntar por que não focar nas crianças que moravam perto do seu próprio bairro, o Morumbi.

Ele então negociou com as escolas - que passaram a oferecer um desconto de 20% na mensalidade para o programa - e entrou em contato com o Conselho de Segurança da região, que permitiu a divulgação. Foi assim que os primeiros padrinhos apareceram.

As mensalidades são pagas por cada um diretamente às escolas. O programa não recebe nada - é tudo voluntário.

O valor mensal, que inclui uniforme e material didático, varia entre 700 e 2.500 reais. "Nós trabalhamos com três escolas, cada uma com uma faixa de preço, para oferecer mais possibilidades", explica. Quem não puder arcar com a mensalidade por completo pode pagar uma parte. No apadrinhamento compartilhado, é possível contribuir com valores a partir de 100 reais por mês.

Além disso, os padrinhos costumam bancar passeios didáticos e, às vezes, até cursos extras, como de idiomas. Com o início da pandemia, alguns providenciaram computador e internet para que os alunos pudessem acompanhar as aulas de forma remota.

Apoio contínuo

Para garantir que a criança terá apoio durante todo o ensino fundamental, o programa sempre busca substituir o padrinho caso aconteça algo que o impeça de continuar. Mas muitas permanecem na escola também durante o ensino médio, seja porque a pessoa decidiu estender o benefício, seja porque conseguiram uma bolsa de estudos, como Danielly.

"Além disso, há casos em que os próprios colegas se mobilizam. A turma de um aluno que estava terminando o nono ano fez um abaixo-assinado pedindo para que o colégio lhe concedesse uma bolsa. Deu certo e ele pôde continuar os estudos ali até se formar", lembra o advogado.

Alguns padrinhos pagam os estudos de mais de uma pessoa, e esse é o caso do próprio Renato. Ele e sua esposa passaram a apadrinhar outras duas crianças depois de Danielly. Ambas estão, agora, no segundo ano do fundamental. "Ao investir em educação, você empodera as pessoas, dá autoestima e independência", conclui.