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Empresas que mudam

CEO da Natura: Remuneração de líderes precisa de elo com sustentabilidade

Linha de produção em fábrica da Natura em Cajamar (SP) - Paulo Whitaker
Linha de produção em fábrica da Natura em Cajamar (SP) Imagem: Paulo Whitaker

Carlos Minuano

Colaboração para Ecoa, de São Paulo

30/09/2020 04h00

"É um compromisso nosso parar o desmatamento na Amazônia até 2025", afirmou o CEO do grupo Natura &Co, Roberto Marques, em entrevista a Ecoa. O problema, de fato, demanda ações rápidas. O Brasil lidera a lista dos 10 principais países tropicais que perderam mais floresta primária em 2019. Um terço das perdas globais foi registrado aqui, segundo dados de junho de 2020 da Global Forest Watch, ONG que monitora florestas em todo o mundo.

E o Natura &Co, do qual fazem parte também Avon, Body Shop e Aesop, também acaba de assumir outros dois desafios. Mas, neste caso, propostos pela ONU: liderar as iniciativas "Ambition to 1.5C" de enfrentamento da crise climática e a "Target Gender Equality" para promoção da igualdade de gênero. O convite foi feito na Semana do Clima, realizada em Nova York dentro da programação da 75ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), que se encerra hoje (30).

No mesmo evento, o presidente da quarta maior empresa do setor de cosméticos do mundo também assumiu um lugar importante no Conselho do Pacto Global da ONU: será o único representante da América Latina no grupo de trabalho que tem a missão de unir lideranças corporativas de todos os setores do mundo corporativo em torno de questões como a sustentabilidade. Marques vai suceder o fundador da Natura, Guilherme Leal, que ocupou a mesma função por dois anos.

Semana do clima

Segundo Marques, durante a Semana do Clima, que aconteceu entre os últimos dias 21 a 27, falou-se bastante sobre a importância de uma abordagem mais multilateral nas soluções dos problemas. "É necessário trazer mais empresas, governo, sociedade civil, ciência para realmente trabalharem conjuntamente na busca de soluções, que não são simples, dos obstáculos centrais que o mundo está atravessando, tanto do ponto de vista climático, como do ponto de vista da desigualdade."

A ideia é trabalhar por um mundo mais sustentável e menos desigual após a pandemia, e a proposta, defendida por Marques, é de uma coalizão da qual, segundo ele, o governo terá que fazer parte. "Ele terá que ocupar o lugar de protagonista nesse processo". A questão é que desde a sua campanha eleitoral, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) acena para outra direção, bem diferente da que busca o CEO da Natura. A promessa, que ele está cumprindo, foi de abrir a região amazônica para a mineração e a agricultura em larga escala.

E na última terça-feira, 22, na sessão de abertura da assembleia geral da ONU, realizada virtualmente (como a maior parte de sua programação), por causa da pandemia da Covid-19, Bolsonaro negou em seu discurso a gravidade das queimadas na Amazônia e no Pantanal, que atingiram índices recorde no mês de setembro, segundo dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). E ainda culpou pelo fogo na floresta, indígenas e caboclos, conhecidos parceiros da Natura.

Questionado sobre ações do governo na mão contrária à preservação, Marques respondeu que nas questões ambientais não há plano B. "Não existe desenvolvimento econômico com o planeta destruído, os dados são claros, o aquecimento global é um fato. Se não fizermos nada a temperatura vai aquecer 3.9ºC, nossa meta é baixar para 1.5ºC". O CEO da Natura lembra que para atingir o objetivo não há outro caminho. "Temos que reduzir emissões de carbono e preservar florestas."

Para Marques, é um caminho que demanda conscientização. "Precisamos de mais fatos, dados, e menos achismo, isso é importante para a opinião pública entender o problema e ajudar na discussão". Ele faz um paralelo com o enfrentamento da pandemia no mundo. "Vários países optaram por um caminho político no combate à Covid-19, mas os melhores resultados foram alcançados por aqueles que optaram por um caminho científico."

Pacto Global

Do ponto de vista da sociedade civil, prossegue o executivo, cabe às empresas trazerem mais conhecimento sobre o problema. E essa deve ser a principal colaboração de sua participação no Conselho do Pacto Global da ONU. Ele prevê trocas de aprendizados.
"Temos um histórico que inclui 20 anos de experiência na Amazônia, de trabalho com mais de 30 comunidades, com uma política de geração de renda para essas populações, acredito que poderemos ajudar a trazer para outras empresas o entendimento de que é possível conciliar desenvolvimento econômico sustentável e preservação ambiental", afirma o CEO da Natura.

A pandemia, na avaliação de Marques, está colaborando para uma mudança na percepção não apenas de empresas, mas também do mercado financeiro. "Para gestoras como a BlackRock [líder em fundos de investimentos global], programas de ESG [sigla em inglês para o tripé: meio ambiente, social e governança] já não são mais apenas um teste, mas um imperativo para operar no futuro."

Mudar práticas mais conservadoras enraizadas na cultura corporativa é parte da solução. Para quem pretende experimentar mudanças, Marques dá uma dica. "Sustentabilidade não pode ser uma área isolada dentro da empresa, ela tem que ser central na estratégia dos negócios, não pode ser uma área isolada, para fazer algumas doações durante o ano e achar que resolveu o problema. Tem que estar presente em discussões com conselhos, com time de liderança, tem que fazer parte até do ponto de vista de como remunerar seus executivos". Segundo ele, há anos a remuneração dos executivos da Natura está atrelada aos objetivos de sustentabilidade. "Metas agressivas e ambiciosas são necessárias."

Roberto Marques, CEO da Natura &Co, grupo bilionário do ramo de cosméticos - Divulgação - Divulgação
Roberto Marques, CEO da Natura &Co, grupo bilionário do ramo de cosméticos
Imagem: Divulgação

Outra sugestão do presidente da Natura é pensar de maneira holística. "É uma forma de buscar inovação e encontrar soluções que não sejam óbvias". O executivo argumenta que além de não custar caro, se traduz em ganhos. "Há uma relação direta com valor agregado". Ou seja, pode melhorar a imagem da marca e o relacionamento com consumidor, tornando empresas mais relevantes e atuais.

"Principalmente as gerações mais novas têm muito mais consciência disso, e suas escolhas hoje são por empresas que se preocupam com embalagem, ingredientes, trabalho com comunidades". Para Marques, há um movimento dos consumidores buscando e demandando sustentabilidade.

Dedo no pulso

O empresário cita exemplos do Natura &Co de inovações que buscam a sustentabilidade, como garantir a circularidade de embalagens até 2030 e que 100% de seus materiais sejam reutilizáveis, recicláveis ou compostáveis, aumentar o uso de plástico reciclado para 50% e compensar a quantidade equivalente de embalagem onde a infraestrutura de reciclagem não existe para atingir 100% do descarte responsável de plásticos. O grupo também se comprometeu com a garantia com o uso de 95% de ingredientes renováveis e 95% de fórmulas biodegradáveis até 2030 em todas as suas quatro marcas.

Ele reconhece que o modelo de negócios do grupo, de relacionamento direto com o consumidor, oferece vantagens na busca por soluções e inovação. "São seis milhões de consultoras e revendedoras e três mil lojas em todo o planeta, temos o dedo no pulso do que está acontecendo no mundo". Problemas e oportunidades são identificados de forma muito rápida, explica Marques.

Essa conexão com o planeta pode ter relação com os objetivos agressivos com os quais o grupo se comprometeu para 2030. Entretanto, o executivo admite que ainda não sabe quais serão os caminhos para atingir muitas das metas. Porém acredita que são tangíveis. "Isso cria uma mentalidade na empresa de 'buscar as soluções', dentro e fora, criando parcerias". Mas, apesar de esbanjar otimismo, Marques reconhece que as mudanças para salvar o planeta e as pessoas precisam ser contundentes e rápidas. "Não dá mais para esperar muito tempo."

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