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Rodrigo Ratier

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Se Bolsonaro for vencido em 2022, será por pouco e com muito esforço

Luciano Hang, dono das lojas Havan, ganha "carona" em moto com presidente Jair Bolsonaro - Reprodução/Twitter
Luciano Hang, dono das lojas Havan, ganha "carona" em moto com presidente Jair Bolsonaro
Imagem: Reprodução/Twitter

Rodrigo Ratier

12/06/2021 11h00

O grande afluxo de devotos de Bolsonaro no cortejo da motociata "Acelera para Cristo", no sábado (12), em São Paulo, não deixa margem a dúvidas. O presidente pode não ter a maioria, mas tem muita gente a seu lado. Não vai derreter e, se for vencido em 2022, será à base de muito esforço de quem o enxerga como ele verdadeiramente é: um mitômano perigoso, uma ameaça à democracia e aos brasileiros, capaz do jogo mais sujo possível para se manter no poder.

O diagnóstico é baseado em evidências: mais de 3.100 lorotas contadas desde o início do mandato, segundo o registro da agência de checagem Aos Fatos. Não faltam exemplos de sua habilidade em mentir, embora ele pareça empenhado em se superar. Bruno Boghossian registra o que qualifica como um possível recorde: em 19 minutos de pregação num culto religioso, o presidente entornou um tonel de falsidades sobre eleições ("provas materiais" nunca apresentadas sobre uma inventada vitória no primeiro turno), mentiu sobre alegadas fraudes no número de mortes por covid (já rebatidas pelo TCU, mas ele segue espalhando a balela), questionou sem nenhuma base científica a eficácia de vacinas (são "experimentais"), chamou o curandeirismo do tratamento precoce de "milagre". Sem qualquer noção de limite para a fabulação, afirmou que o Brasil, em termos de óbitos por milhão, era o país menos atingido do mundo por coronavírus. Uma boa punição para sua desfaçatez seria repetir isso na cara dos familiares de cada um das quase 490 mil vítimas fatais da doença. Mais fácil esperar isso do que acreditar em impeachment, por mais que exista farta e cotidiana base material para abertura de processo.

Ocorre que pelo menos 1 a cada 3 brasileiros não vê Bolsonaro por esse prisma, que também poderíamos chamar de "realidade". E já passou da hora de acreditar que abrirão os olhos, ao menos no curto ou no médio prazo. Marcos Nobre estima que metade desse contingente — 15% da população — seja um espelho do ex-capitão: radicalmente truculentos e autoritários, profundamente antidemocráticos, viúvos e viúvas do caldo de cultura que ainda escorre do período ditatorial. Os outros 15% seriam sobretudo simpatizantes da onda mundial antissistema, paradoxalmente encarnada no Brasil na figura de um político tradicional e irrelevante, um deputado de baixo clero cuja principal realização em mais de três décadas de vida pública foi a construção de um condomínio de gabinetes legislativos para si, seus filhos, agregados e amigos de arma na cintura.

Se há habilidade em Bolsonaro — há —, ela consiste em uma estratégia discursiva eficaz, sobretudo em meio digital, para mobilizar um discurso vago de nacionalismo, antielitismo, religiosidade e punitivismo. A vulgaridade que lhe dá forma é lida pelos apoiadores como "autenticidade", "espontaneidade". "Foi preciso um capitão rude e tosco para expor e quebrar o sistema", como costuma-se ouvir nas comunidades bolsonaristas no WhatsApp.

Leticia Cesarino aponta semelhanças entre o capitão reformado e Narendra Modi. Assim como o brasileiro, o atual primeiro-ministro da Índia ascendeu ao poder como uma força supostamente anti-establishment, surfando em movimentos anticorrupção contra os partidos tradicionais. Ambos fazem uso da mecânica populista básica de separar o mundo em amigos e inimigos, construíram impérios em redes sociais para driblar a mídia tradicional, deslegitimam a imprensa, insultam intelectuais e artistas. Reduzem a democracia à ideia de soberania popular e de poder da maioria, atacando pilares como o equilíbrio de poderes e os direitos das minorias. O eleitorado preferencial de ambos é o "empreendedor", que despreza os pobres e inveja as elites, socialmente conservador e economicamente liberal. Muitos deles estiveram acelerando para Cristo em São Paulo.

Não custa lembrar: são 1 em cada 3 brasileiros. Marcos Nobre afirma que o presidente está hoje em seu piso e, com vacina e melhora econômica — duas coisas de que precisamos desesperadamente e para as quais Bolsonaro teve influência negativa, mas que no fim das contas podem beneficiá-lo —, sua popularidade deve subir, fazendo-o chegar a 2022 perigosíssimo. Celso Rocha de Barros acerta quando aponta como cenário "otimista", para os próximos dois anos, morrermos sem vacina no primeiro ano e "o segundo em crise institucional, tentando evitar um golpe de Estado quando Bolsonaro perder a eleição."

O "pessimista", claro, seria sua vitória.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL