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Milo Araújo

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Nós temos o dever de apoiar a CPI

Jefferson Rudy / Agência Senado
Imagem: Jefferson Rudy / Agência Senado

Milo Araújo

25/06/2021 15h47

Desde os tempos do PC Farias, qualquer comissão parlamentar de inquérito precisa lidar com pelo menos duas críticas: a primeira é de que CPI é mero espetáculo, e a segunda crítica é de que elas tendem a acabar em pizza. Uma pesquisa recente mostrou que embora a maior parte dos brasileiros apoiem as investigações, mais da metade, 57%, acredita que a CPI não vai dar em nada.

Como o Brasil tem um certo histórico de impunidade, o ceticismo se justifica. Mas não dá para negar que a CPI já teve consequências muito práticas. Desde que os trabalhos começaram, o Brasil descobriu muita coisa. Aos poucos surge a percepção de que o governo foi desastrado, foi incompetente, foi omisso diante da pandemia. Também aos poucos vamos descobrindo que o governo agiu deliberadamente para nos contaminar, tentando gerar a tal da imunidade de rebanho.

Também estamos descobrindo na CPI que a pandemia gerou um belo negócio, com muita corrupção pra variar. Como o próprio Senador Randolfe disse numa entrevista que ele deu:

"Se não tivesse CPI nós não saberíamos que a Pfizer mandou 53 emails sem resposta. Só temos essa informação porque tem CPI. Se não tivesse aí nós não saberíamos que o Presidente da República ao invés de ligar para o CEO da Pfizer, em março do ano passado falando sobre vacinas, ligou para o primeiro-ministro da Índia pedindo cargas de hidroxicloroquina. Se não tivesse CPI nós não saberíamos que o ministério das relações exteriores atuou em favor de uma empresa para liberação de carga de hidroxicloroquina, de portos e aeroportos indianos. E outras coisas mais nós vamos descobrindo. Se não tivesse não tivesse CPI, iria passar em brancas nuvens a demissão da Dra. Luana Araújo. Se não tivesse comissão parlamentar de inquérito nós não saberíamos que o Ministro das relações exteriores, o Seu Ernesto Araújo quando as pessoas estavam morrendo sufocadas sem ar, asfixiadas em Manaus a Venezuela tava oferecendo apoio e ele sequer se dispôs a receber apoio venezuelano. Se não tivesse CPI nós não saberíamos que houve uma reunião no gabinete do presidente da república para alterar a bula da hidroxicloroquina. A CPI traz a luz a esses fatos todos e vai trazer muito mais."

Todas essas descobertas acabam desgastando o governo e fazendo o Planalto gastar energia e capital político para se proteger. Esse esforço vem sendo feito porque o governo está bem preocupado.

Por enquanto o que precisa ficar claro aqui é que o governo federal está lidando com essa CPI de um jeito diferente no público e no privado. Em público, o que se faz é minimizar o impacto dos trabalhos da comissão, é sustentar que nem existe nada para ser investigado. Em uma de suas lives ele diz: "Frase não mata ninguém".

O que vem se descobrindo é que, sim, as frases do Presidente mataram muita gente. Um discurso baseado em negacionismo, de desvalorização da ciência. A responsabilidade do Presidente da República nesse genocídio está aparecendo junto das evidência. O andamento da comissão parlamentar de inquérito está fraturando algumas relações dentro do Palácio do Planalto. Só o fato do governo federal estar se mobilizando para conter o desgaste, já dá para dizer que o desgaste já está dado. Dado isso, se vê a importância de acompanhar a CPI. Se não tiver apoio para que a comissão avance nas investigações, aí sim a CPI dará em pizza.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL