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Pedalando contra a Covid

Milo Araújo

Milo Araújo é designer e diretora de arte, pedaleira, caminhadeira e agora escrevedeira. Aprendeu a andar de bike sem as mãos recentemente.

07/09/2020 04h00

Aconteceram muitos anos dentro do ano 2020. Foram tantas informações amontoadas durante as longas semanas deste ano que ainda nem acabou que acabamos por ter essa sensação distorcida do tempo. Com tantas instabilidades e incertezas, muitos ciclos se fecharam. Contudo, é interessante olhar o copo e perceber que ele pode estar meio cheio. Ciclos que terminarem abrem margem para abertura de novos ciclos. É como se 2020 também tivesse muitos "anos novos". Que tal aproveitar o balanço do ano e repensar sua postura e as formas que você se relaciona com o mundo? Afinal de contas, muita coisa mudou e exige de nós novos comportamentos, e não tem porque insistir em velhas fórmulas esperando os mesmos resultados, não é mesmo?!

A covid-19 é uma doença que exigiu reformulação da nossa forma de circular, impactando profundamente a dinâmica das cidades. Escancarando privilégios e a crueldade das relações urbanas em São Paulo, temos hoje a oportunidade de analisar de forma ainda mais explícita o que desejamos para a gente no quesito mobilidade urbana e acesso à cidade.

A ideia que andar de bicicleta é coisa de rico precisa cair urgentemente. Essa é uma das mentiras mais bem implantadas e precisamos questionar: a quem interessa que pensemos assim? Dominar a arte da pedalada urbana recentemente me salvou em vários momentos da necessidade de pegar ônibus e metrôs lotados. Em tempos pandêmicos, andar de bicicleta pode significar a diferença entre se infectar ou não. E para aqueles que se mantêm céticos, não estou falando de trajetos curtos, dentro de bairros pacatos indo buscar o pãozinho do café da manhã. Quando apareceu a necessidade de resolver questões com distâncias de 20, 30 km de distância, não hesitei em subir na minha magrela e fazer o que tinha que fazer. Além de ser um forma mais segura de se transportar atualmente, são inúmeros os benefícios de incorporar a bicicleta como um de seus veículos oficiais, como o incentivo à um veiculo movido com fonte de energia limpa, economia financeira com transporte, fomento a formatos mais democráticos de mobilidade urbana e melhora do condicionamento físico, isso citando apenas os mais óbvios.

Agora imagina o que aconteceria se os paulistanos se apossassem do conceito da bicicleta com paixão e pressionassem o poder público para facilitar o uso da bicicleta, não apenas nas áreas nobres da cidade, mas em todos os seus territórios, de Parelheiros à Cidades Tiradentes? Não podemos ter pensamentos fatalistas como "As coisas são assim e pronto. Quem tem um carro consegue ir e vir e quem não tem, que batalhe para ter um". Não podemos endossar essas narrativas que nos mostram apenas um caminho possível. Precisamos de bicicletários públicos 24h no máximo de estações de metrô, aumento da malha cicloviária, uma educação no trânsito que seja mais empática, e quantas ideias mais que possam surgir e que nos ajude a desatar o nó de desesperança que é a mobilidade urbana paulistana.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.