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Marina Mathey

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Mulher, M'olhar, Moer

"Judith e a cabeça de Holofernes" de Gustav Klimt (1901) - Wikimedia Commons/Domínio Público
'Judith e a cabeça de Holofernes' de Gustav Klimt (1901) Imagem: Wikimedia Commons/Domínio Público
Marina Mathey

Marina Mathey é cantora, atriz e diretora. Multiartista e militante pelos direitos de pessoas trans, apresenta uma coluna com conteúdos relacionados a arte, questões sóciopoliticas e acontecimentos gerais, propondo ensaios com provocações para transver o mundo a partir de uma perspectiva não-hegemônica e inquieta.

09/03/2022 06h00

Mulher
Aquela que deriva
Não da costela
Do osso
Do barro
Mas da respiração

Por tanto tentei entender sua etimologia
Sua simbologia
E nada
Só mesmo encontrei a deriva
O caminho
A errância

Não de errar, como se fosse um equívoco
Essa deixamos aos outros
os másculos
Que mais se assemelham à máculas
- mas o pronome desta também é nosso -
Músculos
Fracos e flácidos
Referenciados em tudo na língua
portuguesa colonio-cristã

O Homem
O grande genérico
Que de tão se fazer universal perdeu sua sensatez

São tantos pré-sequenciados
Com número de lote, de fábrica
Forçaram-se à vez do mercado, mas a procura só tende a cair

Errantes, elas, moldadas
De mãos sujas de artesanato
Se criam mesmo no espanto
De precisar se saber
E não falo de falo de falha
Mas de falo também falamos
Talvez mesmo em outras palavras
Já que esse ao homem, pertence
Talvez dildo tão semelhante
Talvez algo que o fabricante
Buscando a perfeita binária
Não pôde se satisfazer
E errou de propósito a série
Ou desatentou, tão autômato
E bem no lugar do estômago
Deu chance de conceber
Que o gosto do padronizado
Do suco já pasteurizado
Receita do enlatado
Não fazia por merecer
E na desatenção do comando
Tomamos de assalto num bando
Manada de monas
E quando
Dormiram no ponto de tanto
Querer só se satisfazer
Satíricas fomos, e quanto
E rimos na cara do espanto
Fizemos nosso desencanto
E do pranto fizemos nascer
Uma legião de sereias
De canto estridente de raiva
Mas doces, azedas e amargas
Com cores de todas as falhas
Que eles puderam fazer
E assim, já tão semeadas
Plantadas em suas baladas
Cantamos a nossa batalha
De mesmo do pó, se erguer

Elas
Não apenas tão belas
quanto auspiciosas
Tornam a estrada jocosa
A regra já tão viciosa
Que tenta nos pôr gladiadas
Pseudo-auto-genocidadas
E alteram a matriz da piada
E fazem-se rir por saber
Que tudo que tão logo antes
Foi posto no másculo fronte
Tornou-se poema infante
Tão simples sua rima, sua fonte
Seu tema e seus poemantes
E riem deste delirante
Pseudo-másculo poder