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Marina Mathey

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Faço poesia pois o silêncio é impossível

Dorothy Norman (1930) por Alfred Stieglitz - rawpixel.com / The Art Institute of Chicago
Dorothy Norman (1930) por Alfred Stieglitz Imagem: rawpixel.com / The Art Institute of Chicago
Marina Mathey

Marina Mathey é cantora, atriz e diretora. Multiartista e militante pelos direitos de pessoas trans, apresenta uma coluna com conteúdos relacionados a arte, questões sóciopoliticas e acontecimentos gerais, propondo ensaios com provocações para transver o mundo a partir de uma perspectiva não-hegemônica e inquieta.

08/12/2021 06h00

A solidão me alivia

Não a mudez
O interrompimento
Mas o descanso da relação e da resposta

Talvez por isso as madrugadas
Por mais que cansadas
Tendem a acolchoar meus pensamentos

É nelas que
Sentindo a agilidade da minha pele vibrar a euforia social
encosto meus ouvidos no silêncio e consigo
Fielmente
conversar com eles

É uma sensação tão estranha
De perceber que desde tantas horas da manhã e tantas
Além
De tanto palavrar na labuta
Socializar
Na conduta do honorário
Do salário
Do habitual
Foram tantas em minhas orelhas que
Mesmo minha boca sendo a mais próxima
Pouco
Ou ao menos
Menos
São dela as vozes que ecoam por aqui

Não digo isso como se não me escutasse ou
Se talvez
No corre do dia a dia
Seguisse no impulso e não tivesse meu dedo metido ali em mim
É só mesmo uma bagunça
Como quando a gente sai de uma festa
E o zumbido se demora a esvair

Não há mais som ali
Ao menos não mais da caixa
Da festa
Mas demora ir embora o registro

É isso
É sobre isso que escrevo
Agora
Em silêncio
- apesar de ouvir o som da minha voz dizendo cada palavra que digito -
É sobre essa poli(sim)fonia
De aceites automáticos captados por meus ouvidos que eu mesma
Dona do corpo
Não consigo mutar

Entende?

É por isso que na solidão da madrugada
Quando o meu redor silencia
Muta-se por conta própria
Que eu
Ainda falando em voz alta aqui dentro
de lábios cerrados
consigo decantar

Demora
Às vezes nem mesmo cessa
Vira sonho
Vira conversa
Que insiste em continuar

Às vezes uma buzina invade a frase lá de longe
Um cachorro que late em cima da vírgula
A pausa que abre espaço
E outra palavra
Talvez outro assunto
Lembrança
Pra dali continuar

As madrugadas me aliviam

Elas me reorganizam
Me preparam pro arranjamento de mil vozes de amanhã

As madrugadas
Essas sim me conhecem profundamente
Elas que escutaram meus poeminhas mais singelos e profundos
Molharam meu choro de tanta palavra entupida
Alinhavaram meu couro rasgado pelos gritos
Olhares violentos
Sorrisos duvidosos

Elas
As madrugadas
Com certeza me conhecem muito melhor que meus amigos
Não que eu minta para eles
Mas sinto que minhas palavras são sempre um pouco deles
E só elas
Vazias
Ou repletas de atenção
Que conseguem esperar minha calma e
Somente depois
Me ouvir não falar

Viver os dias
Estressa
Os sentidos

Viver na cidade
Cansa
Os ouvidos

Só a madrugada
Mesmo
Que sabe me escutar

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL