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Marina Mathey

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Política: por que a evitamos se ela nos compõe completamente?

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Marina Mathey

Marina Mathey é cantora, atriz e diretora. Multiartista e militante pelos direitos de pessoas trans, apresenta uma coluna com conteúdos relacionados a arte, questões sóciopoliticas e acontecimentos gerais, propondo ensaios com provocações para transver o mundo a partir de uma perspectiva não-hegemônica e inquieta.

01/09/2021 06h00

Meu caminhar é político. Minhas curvas, meu olhar, meus pensamentos transformados em ação. Cada brinco, um sorriso, um par de sapatos. Toda e qualquer respiração nesse mundo é política e tem intenção de refletir uma história. Não tem como sermos ingênuas e pensarmos que estamos apenas vivendo e fazendo o que precisamos para sobreviver sem compreender que mesmo na nossa impossibilidade de ver, a política está operando nas nossas ações mais cotidianas, inclusive de forma a nos alienar dessa percepção.

Me lembro de uma cena do filme "O Diabo Veste Prada" em que a personagem da atriz Meryl Streep mostra para a da Anne Hathaway que, por mais que ela ache o mundo da moda fútil e superficial, ela está totalmente embebida de referências. O suéter que ela usa sem pensar quem fez, a saia que não combina, cada acessório que ela veste tem história, época e denota um pensamento estético — portanto, político.

Mesmo que queiramos nos alienar dos detalhes, é impossível agir sem que nossa atitude esteja carregada de história. No mundo em que vivemos — onde a alienação é a chave mestra para manipular a população, e fazê-la reproduzir conceitos que desconhece por interesses dos mais poderosos no sentido financeiro e estrutural — é muito comum ouvir frases como "eu não gosto de política", "política não se discute", ou até mesmo a máxima que tem sido bastante utilizada recentemente por políticos institucionais para tentarem se aliviar dessa aversão ao tema dizendo "sou apolítico" ou "apartidário".

Não existem seres apolíticos. Fazer política é basicamente viver em sociedade, então antes mesmo de nascermos já somos seres políticos, já estamos nos relacionando com o mundo, e, não à toa, no mundo capitalista, até mesmo um feto é foco de interesses financeiros e de poder.

Nesse sentido, faço um convite a vocês para refletirem sobre seus atos e falas. Tentem se lembrar de toda vez que falarem sobre um assunto, derem uma opinião ou forem até mesmo se vestir, de onde nasceu essa sua posição. Quando eu aprendi e decidi tomar para mim esse argumento como verdade? Quando, por alguma experiência, eu cheguei a essa opinião? E por quê? Por que eu penso dessa forma e não daquela outra? Por que eu me sinto mais à vontade nessa roupa do que naquela? Por que é mais fechada, mais decotada, mais escura, por que gosto da marca? O que me leva a ser quem eu sou hoje?

Estamos a todo momento dando pistas sobre quem somos. Nossa postura física e nossas vestimentas são maneiras de nos comunicarmos com o mundo antes mesmo de abrirmos a boca. Maneira de dizermos quem somos ou pelo menos apresentar como estamos naquele dia sem precisar falar. Se questionar é uma forma de se conhecer, de não tomar atitudes de maneira alienada e poder escolher, tomar mais partido sobre a forma que você se coloca no mundo. E sem julgamento, sem querer chegar a algum consenso de certo ou errado, mas no intuito genuíno de se conhecer, pura e simplesmente.

Eu posso garantir que levando essa proposta a sério — caso já não faça isso — você conseguirá, inclusive, se despir de várias reproduções automáticas que nem se dá conta. Opiniões que emite, e que nunca parou para refletir sobre o que o faz acreditar nelas, e que no fundo elas não possuem fundamento algum. Talvez você não consiga encontrar a raiz de tudo, talvez não se lembre de quando escolheu um caminho ou outro — e está tudo bem, dado que é esse o intuito da máquina social alienadora —, mas ao menos poderá se ver livre de algo que nem mesmo você acreditava de fato.

Autenticidade não é sobre se esforçar em ser diferente de tudo e de todos, mas sobre ter propriedade sobre si, suas escolhas, suas opiniões. Não é um exercício fácil, pois conforme tomamos as rédeas das nossas ações e pensamentos o mundo tenta nos derrubar de diversas formas, insistindo em não nos deixar pensar, em controlar nossos desejos. Porém, nada compra o prazer e a satisfação de saber-se!

Outro ponto importante é que, ao tomarmos as rédeas da nossa vida, também precisamos ao mesmo tempo nos responsabilizar pelas nossas atitudes, e aí está o grande medo da maioria das pessoas. É muito fácil permanecermos no rebanho, sem pensar, porque assim posso culpabilizar as outras pessoas por tudo de ruim que me acomete. Não que não tenham coisas que são de fato da responsabilidade de outrem, porém dar vida às nossas singularidades é também construir nossa integridade e reconhecer as consequências de nossos próprios atos e escolhas.

É mais difícil? Talvez. Mais prazeroso? Definitivamente! Chorar seus próprios choros e gozar de prazeres reais é fruto desse processo de autoconhecimento. Entender e assumir nossas escolhas é, portanto, nos responsabilizarmos sobre o que proporcionamos ao mundo, mas também lutar por o que queremos dele e, assim, não mais sermos todos iguais como tentam dizer a todo momento, mas reconhecermos em nossa multiplicidade o real valor.

Política, no fim das contas, também é isso. Você está fazendo política desde antes de se reconhecer como gente, e negou isso por muito tempo, mas espero que esse texto te encontre de forma a mudar este preconceito. A palavra está carregada para nós brasileiros de um estigma muito relacionado a homens corruptos que são eleitos, e não se importam com as nossas vidas, porém isso não é política, isso é crime. Que possamos ressignificar essa palavra, retomar seu real sentido, e, assim, nos vestir daquilo que realmente acreditamos ser melhor para nós e para aqueles que nos cercam.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL