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Marina Mathey

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Talvez nossos corpos se encaixem melhor: Afetos Transcentrados

Talvez nossos corpos se encaixem melhor: Afetos Transcentrados - Digg Franco/Acervo Pessoal
Talvez nossos corpos se encaixem melhor: Afetos Transcentrados Imagem: Digg Franco/Acervo Pessoal
Marina Mathey

Marina Mathey é cantora, atriz e diretora. Multiartista e militante pelos direitos de pessoas trans, apresenta uma coluna com conteúdos relacionados a arte, questões sóciopoliticas e acontecimentos gerais, propondo ensaios com provocações para transver o mundo a partir de uma perspectiva não-hegemônica e inquieta.

19/05/2021 06h00

Se no último texto era o desafeto que reinava, essa semana quero falar sobre a construção de perspectivas possíveis a partir do afeto concentrado e cultivado entre pessoas trans.

Muito temos a aprender com as pessoas pretas, seus aquilombamentos e relacionamentos afrocentrados. Dentro de uma sociedade colonizada, suas estruturas de afeto derivam em sua pseudo-natureza dessa mesma origem, ou seja, dado que a miscigenação foi - e é - uma tecnologia higienista para o embranquecimento massivo da população, o extermínio das transgeneridades nos colocou também numa posição de fácil convencimento de que tanto não somos pessoas dignas de afeto que tendemos a não colocar as pessoas semelhantes a nós como nossos focos de relação.

Não coloco aqui a responsabilidade sobre essa falta de afeto sobre as próprias pessoas trans, dado que somos vítimas desse processo colonial, mas a construção de outras perspectivas possíveis a partir de relações transcentradas é algo que nos compete e a mais ninguém. É sobre nós e por nós.

Também não vou dizer que relações entre pessoas trans e cis estão totalmente fadadas ao fracasso, existem exceções, mas por via de regra, como expus no meu último texto aqui, são muito mais raros os sucessos. Encontrar em nós mesmes, pessoas trans, a possibilidade de se relacionar afetivo-sexualmente e até mesmo a construção de espaços de segurança e convívio entre maioria trans são mecanismos de nos devolver a dignidade e reconhecer a nossa independência em relação a cisgeneridade nesse sentido.

Foi - e é - construída culturalmente uma falsa dependência desse afeto cisgênero a partir da ideia de que, por exemplo, somente sendo amadas - ou fodidas - por homens cis as travestis teriam sua mulheridade validada, e da mesma forma as mulheres cis validariam as transmasculinidades, porém essa é só mais uma artimanha colonial que nos faz crer que dependemos daqueles e daquelas que nos roubaram a humanidade para conquistá-la de volta, colocando-nos num ciclo vicioso e violento de desvalidação e suplício por piedade.

A construção da identidade trans, apesar de passar pela auto-declaração, é construída socialmente, assim como a ideia de cisgeneridade. A leitura social, a cultura, o comportamento vão construindo as identidades, que estão para além da ideia rasa e superficial de que se trata apenas da identificação ou desidentificação com o gênero imposto ao nascer. Eu, por exemplo, me percebi travesti com muito poucas referências, mas me construí mais solidamente como tal - mesmo já tendo transicionado - a partir do momento que comecei a me relacionar direta e constantemente com outras como eu, compreendendo então o funcionamento da nossa vivência na sociedade para muito além de mim.

É perigoso e violento esse processo implícito na sociabilidade de que qualquer pessoa que não seja cis e branca tem que querer sê-la, por mais que nunca a será. Sê-la em comportamento, na construção de seus valores para, no fim das contas, contribuir com a manutenção da supremacia cis-hétero-branca, indo contra si mesma sem perceber - essa é a base da ideia de inclusão que, violenta em sua essência, faz com que pensemos que devemos ser incluídas na sociedade ao invés de reconhecer que já fazemos parte dela e o que precisamos é de respeito e valorização das nossas vidas. Mas mesmo vivendo nessa ilusão sempre sentimos lá no fundo que algo não está de acordo, não está nos fazendo bem, e é nessas que o afeto transcentrado entra como tecnologia de sobrevivência também.

Se relacionar afetivo-sexualmente com outras pessoas trans está para além de uma "nova" possibilidade, de experimentar ou experienciar algo "diferente". É mecanismo de auto-afeto, de construção de perspectivas que possibilitem nossas integridades, inclusive de percebimento de nossas complexidades e vivências para além da luta contra a transfobia. É, também, um processo que demanda dedicação e muitas revisões, dado que visamos sair da perspectiva colonial, e isso não nos foi ensinado. Tudo que foge às normas impostas demanda mais trabalho, pois será na tentativa e erro, na insistência e na coragem de romper com essas estruturas que conseguiremos construir novas formas de nos relacionar. Isso não diz respeito apenas aos afetos transcentrados, mas à revisão da monogamia como regra, na construção de outros entendimentos - já existentes e pré-coloniais, diga-se de passagem - de como essas relações podem se dar. É um trabalho de resgate!

Travestis revendo suas possíveis misoginias, pessoas transmasculinas revendo suas possíveis aversões ao falo. É uma transmutação das significâncias do corpo, como disse, para além de nossas vivências individuais, a partir do encontro com o corpo de outre. É reconhecer ainda mais profundamente que a genitalização dos corpos, além de ser um mecanismo de controle da sociedade capitalista cristã, visando apenas a reprodução e a transferência de heranças, serve também como arma crucial para a aniquilação das nossas humanidades. Se re-encontrar como uma pessoa digna de afeto é reconhecer que esse processo é muito maior do que si mesma. Insistir em perspectivas transcentradas é uma arma quente para nos proteger de lógicas que nos assassinam e nos suicidam diariamente. É construção de comunidade, é des-umbigar nossos olhares sobre a sociabilidade.

Portanto, vivenciar relações transcentradas é se propor o desafio de consolidar a própria vivência a partir e com o outro/outra/outre, porque somos em relação, nunca apenas sozinhes. E exatamente por ser algo relativamente desconhecido ainda por nós que esse trabalho é árduo e demanda paciência. É uma construção, e como qualquer construção, requer revisão, cálculo, estratégia, para que se torne algo sólido. É tentativa e erro, é perdão - inclusive consigo mesme - ainda mais em se tratando de pessoas que vivenciam na sociedade experiências constantes de violência e que derivam do desafeto massivo. É realmente buscar a luz no fim do túnel, mas nesse caso para se reconhecer viva, e não para findar a trajetória terrena.

Talvez nossos corpos se encaixem melhor. Talvez, por fazerem parte do mesmo jogo, fluam com mais compatibilidade. E como uma pessoa que vem se propondo a essa experiência há um tempo e vivendo atualmente numa relação transcentrada não-monogâmica, posso dizer que tenho me potencializado em muitos aspectos.

Sobre a não-monogamia, vou deixar esse tópico para o próximo texto. Vamos aqui construindo links semana a semana para rever alguns desses pontos que nos limitam e impõem condições de subserviência. Seguimos em diálogo, pois só assim encontraremos nessa travessia formas de nos manter potentes e donas de nossos corpos e decisões.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL