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Se quisermos voltar à normalidade, não teremos um futuro possível

Mariana Belmont

Nascida em Colônia, extremo sul da cidade de São Paulo, Mariana Belmont se define como uma esticadora de pontes. Atuando com mobilização e comunicação para políticas públicas, faz parte da Rede Jornalistas das Periferias, constrói o Ocupa Política e colabora com a Uneafro Brasil.

18/06/2020 04h00

Já são 96 dias em casa. Não sei bem se tenho sonhos, planos ou novas ilusões. Nem amor platônico consigo desenvolver. Nada. Os dias me parecem todos iguais, e ainda se apresentam recheados de informações externas que fazem movimentar uma revolta ou outra. Falta perspectiva. O futuro está em suspensão. Mas será que não cabe nenhum plano aqui?

A cada dia que passa, a cidade se movimenta mais. De dentro dos metros quadrados que me cabem, escuto a circulação de pessoas nas ruas e, pasmem, nos bares. Parece que o novo normal é desafiar o futuro, a morte e a ciência. E claro, não estou falando da grande parcela da população que precisa pegar ônibus lotado para bater ponto e trabalhar horas por dia.

Será que dá pra pensar em futuro, em construir novas formas possíveis de vida, quando nada do presente parece afetar ou assustar o movimento das pessoas?

Três meses de milhares de mortes e centenas de casos. De Covid-19, mas não só. Jovens negros seguem morrendo a cada 23 minutos, pelas mãos de uma polícia que mata por ódio. O genocídio segue sua marcha a passos largos e rápidos. Famílias e mais famílias despedaçadas e abandonadas pelo Estado, que deveria proteger e sustentar vidas. O futuro, para alguns, já não existe.

Como a gente pode sonhar um futuro, mesmo que próximo, quando temos um Estado que pauta suas ações na necropolítica, utilizando-se de tiros e até mesmo da pandemia como meios de extermínio de pobres e negros? Como podemos esperançar, para citar Paulo Freire, quando temos um Estado que escolhe, seleciona e aponta quem deve viver e quem deve morrer?

Olha, eu não sei responder. Realmente não tenho conseguido imaginar o futuro agora, mas tenho pensando em algumas coisas e gostaria de dividir com vocês, na tentativa de provocar possíveis construções, sejam elas feitas por nós ou pelas pessoas do futuro.

Primeiro de tudo, algumas lições aprendidas. Não dá pra gente voltar a um normal que nunca existiu, um normal que vivia com as desigualdades do mundo como se elas fossem naturais. Assim como não dá mais para mantermos ou fazermos articulações de frentes democráticas que sejam puxadas majoritariamente por homens brancos. Essa disputa de protagonismo faliu. Antes de me questionar, pare, olha para trás. Deu certo? Não, meus caros, não deu. Chega de passar vergonha, por favor.

Aprendemos? Beleza, então o que podemos fazer? Mais do que "o que", tenho me perguntado "como" faremos para reconstruir. Voltei a ler Krenak. Um dia desses mexi na estante e achei um pequeno livro que devorei em uma viagem de ida para o Rio, em 2019. Lembro de ter descido do avião chorando e achando tudo muito confuso. O fato é que continuo chorando e achando tudo ainda mais confuso.

Tenho acolhido minha fragilidade e cancelando compromissos, negado conversas nessas lives que viraram febres, não sei. Acho que não tenho muito o que dizer, além do óbvio: parem!

Bem, no livro "Ideias para adiar o fim do mundo", do Ailton Krenak, ele diz que "o que está na base da história do nosso país, que continua a ser incapaz de acolher os seus habitantes originais - sempre recorrendo a práticas desumanas para promover mudanças em formas de vida que essas populações conseguiram manter por muito tempo, mesmo sob o ataque feroz das forças coloniais, que até hoje sobrevivem na mentalidade cotidiana de muitos brasileiros -, é a ideia de que os índios deveriam estar contribuindo para o sucesso de um projeto de exaustão da natureza".

Eu li alguns trechos mal rabiscados de lápis, por causa da turbulência, e fiquei alguns minutos em pé diante da estante. Com a mão no queixo. O livro ficou às voltas no meu inconsciente - de novo.

Dias depois, mais uma vez, me peguei pensando sobre que tipo de futuro queremos construir, ou desejamos que o futuro construa. Afinal, não tenho ideia quanto tempo vai durar para a humanidade entender, ou pelo menos começar a repensar, o mal que o homem branco colonizador fez para o planeta.

Não sei qual será esse horizonte, o que eu tenho certeza absoluta é que não vamos acabar com a desigualdade social, aquecimento global, racismo, machismo e com todas as formas de opressões e desgraças se a gente não olhar para quem está com as mãos no poder. E se esse poder é realmente o que queremos.

Não dá mais! Não quero mais construir futuros sem ouvir e estar próxima de povos e comunidades tradicionais, dos sujeitos periféricos, dos territórios esquecidos ou explorados pelo Estado.

É difícil ser acusado de racista, privilegiado, branco sem noção? Só digo uma coisa, é impossível fugir de quem somos. É difícil abrir mão dos privilégios de ganhar exponencialmente mais do que alguém que trabalha muito mais e é mais competente que você, e que só ganha menos por ser negro? Por favor, sem síndrome de princesa Isabel. Não estamos aqui para assistir mais um (outra vez, de novo, mesmo? jura?) um espetáculo de salvadores, benfeitores e filantropos meritocráticos. Estamos aqui para reivindicar que olhemos para as profundezas da história do Brasil, atuemos pela retratação das injustiças e busquemos realmente a equidade entre os povos. Antes que você me conteste (de novo), repito: pare e olhe pra trás, há 500 anos, deu certo? Não, não deu, meus caros, e é por isso que estamos aqui.

No mundo do poder, tudo é seletivo, já percebeu? As comoções são seletivas, a democracia é seletiva. E quando falo da democracia, me refiro àquela construída por homens brancos da elite brasileira, que se "esquece" de incluir pobres, negros, índios, quilombolas, ribeirinhas, agricultores e a população de rua. Esquece do meu padrinho, dos pais dos meus amigos. Na verdade essa democracia não sabe nem que eles existem.

Eu olho pra tudo isso e sinto meu corpo inteiro ser inundado por uma revolta, que ao mesmo tempo me entristece e me reafirma a importância das construções da margem para o centro, da terra para o asfalto, da floresta para os grandes prédios.

Estamos todos no momento da urgência. Agora, é tudo no curto prazo.

Ainda não consigo visualizar um mundo novo possível. Mas estou me esforçando para ver.

Não sei como, quando e onde vai ser possível, mas tenho a esperança e o profundo desejo que ele possibilite que sejamos livres e nos sintamos inteiras, nem que seja para nos dar tempo de juntar nossos cacos e reconstruir, porque uma hora vamos reconstruir.

E aí volto ao Krenak, que me inspira a pensar sobre horizontes. Não consigo fazer planos, não sei se alguém consegue. Por hora, penso nos horizontes com quem eu quero reconstruir e a partir de onde eu quero reconstruir. No que eu acho que vou precisar fazer, para onde e como vou me movimentar.

O horizonte parece distante, né? Olhe pra frente. Tá vendo ele? Parece longe mesmo. Então dê tempo e coloque a mão na massa para construí-lo. Se o fizermos, vamos chegar inteiras lá.

Sonho em não precisar repetir tantas coisas. Sonho em não precisar perder amigos pelo caminho, porque os egos e as prioridades são os outros, e passam pelo poder do protagonismo e do valor financeiro. É doloroso perder quem faz a gente sorrir, mas é um alívio perder quem não contribui de forma genuína.

"Tomara que não voltemos à normalidade, pois, se voltarmos, é porque não valeu nada a morte de milhares de pessoas no mundo inteiro.", disse o Krenak, de novo, e de novo. Eu espero muito que um dia a gente ouça os que vieram antes de nós.

Mariana Belmont