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Mara Gama

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

COP 26: metas para 2022, greenwashing e presença indígena

Samela Awiá na COP26 - Reprodução/Instagram de Samela Awiá
Samela Awiá na COP26 Imagem: Reprodução/Instagram de Samela Awiá
Mara Gama

Mara Gama é jornalista e pós-graduada em Design. Trabalhou na MTV Brasil e foi repórter, consultora de texto e colunista de meio ambiente da Folha de S. Paulo. Fez parte da equipe que iniciou o UOL, onde foi diretora de qualidade de conteúdo e ombudsman. Atualmente é consultora de texto e estuda economia circular e sustentabilidade.

Colunista do UOL

10/11/2021 12h27

O texto final das negociações da Conferência do Clima vai pedir metas mais ambiciosas e de curto prazo para cortes de emissões de gases do efeito estufa. Vai propor que os países acelerem a eliminação do carvão e subsídios para combustíveis fósseis e que os países desenvolvidos dobrem compromissos de financiamento para as regiões mais afetadas pela crise do clima.

É o que aponta o rascunho publicado na madrugada de quarta (10) e que deve ser discutido nos dias que faltam para o fim da COP26 em Glasgow. As metas de curto prazo deveriam estar nas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) e serem acompanhadas anualmente a partir de novembro de 2022 em reuniões ministeriais.

Se forem mantidos os tópicos principais, o flop já anunciado pela ativista Greta Thunberg estará bem perto de ser confirmado. A maior esperança de ambientalistas era de que fosse firmada a meta de aumento de temperatura para 2030 de 2° C para 1,5° C, principalmente após a divulgação do estudo do Climate Action Tracker, no dia 8.

Segundo o CAT, com as metas atuais para 2030, o aquecimento global deve aumentar para 2,4° C acima dos níveis pré-industriais, causando secas, enchentes, ondas de calor, tempestades e alta do nível do mar, o que abala a segurança alimentar.

Já com um aquecimento de 2°C, 1 bilhão de pessoas serão afetadas gravemente por calor extremo, segundo outro relatório divulgado na COP, que pode atingir de forma mais violenta os países tropicais. Se o aumento chegar a 4°C, metade da população mundial sofrerá os efeitos.

Ativistas jovens entraram com uma petição ao secretário-geral da ONU António Guterres pedindo que seja declarada emergência de nível 3 global pela ONU, a mais alta, a mesma decretada para o combate à pandemia de covid-19.

Com isso, haveria um grupo de gerenciamento da crise climática, dotação de recursos e seriam enviados grupos de técnicos para apoiar os países com maior risco de catástrofes.

A COP 26 é candidata a pelo menos dois apelidos. Pode ser conhecida como a COP do Greenwashing, por causa das promessas que são, na maior parte dos casos, moeda sem lastro, como denunciaram ativistas nos atos públicos dos dias 5 e 6, pedindo ações concretas e justiça climática.

De acordo com um levantamento da Global Witness, o número de lobistas ligados à defesa dos combustíveis fósseis presentes na COP 26 é maior que o de qualquer país: são 503.

"O esboço do acordo final da COP26 falhou completamente em abordar seriamente os grandes poluidores que impulsionam a crise climática, ficando espetacularmente sem combustíveis fósseis", disse o representante de Global Witness Murray Worthy. "É fácil ver o impacto das centenas de lobistas dos combustíveis fósseis na COP neste projeto de decisão. A ciência é clara - devemos eliminar gradualmente todos os combustíveis fósseis, começando agora, se quisermos limitar o aquecimento a 1,5 C".

A COP26 pode também vir a ser chamada no futuro de COP Indígena, por causa da visibilidade das populações tradicionais e de um certo consenso de que as comunidades em terras demarcadas funcionam como guardiãs da biodiversidade.

Em reportagem, a Agência Pública diz que "o protagonismo" dos indígenas foi flagrante em reuniões oficiais e nos atos públicos com líderes como Sonia Guajajara, Célia Xakriabá, Samela Awiá e Juma Xipaia.

"Relatório da ONU lançado em março, produzido a partir da revisão de mais de 300 estudos, indica que entre 2000 e 2012 as taxas de desmatamento na Amazônia do Brasil, Bolívia e Colômbia foram no mínimo duas vezes inferiores dentro de TIs [terras indígenas] demarcadas se comparadas às áreas ao redor", diz o texto da Pública.

Joenia Wapichana (Rede-RR) declarou que a presença dos povos originários está ganhando importância, mas é preciso que haja financiamento para essa proteção ambiental e o enfrentamento das mudanças climáticas.

"O amanhã da Amazônia é agora", postou a manauara Samela Awiá, da Associação de Mulheres Indígenas Sateré Mawé, que faz parte do Fridays For Future Brasil, da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil e da Fundação Amazônia Sustentável, e é uma das 40 representantes da Apib que participa da COP26.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL