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Mara Gama

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

"O Novo Evangelho", de Milo Rau, abre Mostra Ecofalante

Yvan Sagnet, ativista camaronês que é Jesus no filme de Milu Rao - Divulgação
Yvan Sagnet, ativista camaronês que é Jesus no filme de Milu Rao Imagem: Divulgação
Mara Gama

Mara Gama é jornalista e pós-graduada em Design. Trabalhou na MTV Brasil e foi repórter, consultora de texto e colunista de meio ambiente da Folha de S. Paulo. Fez parte da equipe que iniciou o UOL, onde foi diretora de qualidade de conteúdo e ombudsman. Atualmente é consultora de texto e estuda economia circular e sustentabilidade.

Colunista do UOL

11/08/2021 10h41

Sudaneses, ganeses, nigerianos e senegaleses e outros refugiados africanos que atravessaram o mar deixando tudo para trás e vivem marginalizados nas proximidades da solar Matera, na Itália, são a alma e a matéria de "O Novo Evangelho", que abre a Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental nesta quarta (11). Até 14 de setembro, a 10ª edição da mostra traz 101 filmes de 40 países, 30 deles inéditos no Brasil, para ver online e de graça.

Numa das primeiras cenas do filme, o premiado diretor Milo Rau conta ao ativista camaronês Yvan Sagnet, que viverá Jesus, por que filmar em Matera. Foi ali que Pier Paolo Pasolini rodou o "O Evangelho segundo São Mateus", em 1964, (e Mel Gibson sua "Paixão de Cristo", 40 anos depois). O Jesus de Pasolini, Enrique Irazoqui, e a Maria de Gibson, Maia Morgenstern, fazem parte da reencenação de Rau.

É o diretor que argumenta, em entrevista incorporada ao filme, que não poderia fazer um filme sobre o Evangelho sem falar dos dramas sociais contemporâneos. E Matera, famosa pelas casas pré-históricas esculpidas na pedra, abriga sem abrigar imigrantes que trabalham nas plantações e vivem em extrema vulnerabilidade, sem documentos e sem contrato, em acampamentos sem água e sem luz.

Sagnet, que trabalhou como colhedor de tomates, promoveu a primeira greve de trabalhadores imigrantes na Itália em 2011. O ativista começou um movimento chamado de "Revolta da Dignidade", que ganhou maior repercussão depois do filme de Rau. O "Novo Evangelho" foi eleito o melhor documentário no Swiss Film Awards 2021.

Também como destaque da programação da Mostra Ecofalante está "Jogo do Poder", de Costa-Gavras. O filme começa com a eleição do Syriza, coligação da esquerda que chegou ao poder na Grécia em janeiro de 2015, tendo como Primeiro Ministro Aléxis Tsípras, e se desenvolve nos meses seguintes em que o país tentava sair da política de austeridade imposta pela troika europeia, formada então pela Comissão Europeia, pelo Banco Central Europeu e pelo Fundo Monetário Internacional.

O roteiro é inspirado no livro do ministro das finanças Yanis Varoufakis, "Adultos na Sala: Minha Batalha Contra o Establishment", e mostra as tentativas de Varoufakis de reestruturar a dívida da Grécia em negociações com os representantes da Europa.

Dos filmes que já assisti na programação, recomendo também o educativo "A História do Plástico'', de Deia Schlosberg, e "Solo Fértil".
"Solo Fértil" é particularmente importante nesse momento, em que o IPCC da ONU acaba de lançar seu último e alarmante relatório. O filme mostra como o uso de pesticidas e fertilizantes e a agricultura extensiva vêm, desde a Segunda Guerra, degradando os solos e aumentando as emissões de gases de efeito estufa (GEE) e o aquecimento global.

Como alternativa, apresenta a agricultura regenerativa, mostrando seu desenvolvimento nos Estados Unidos. O modelo é capaz de produzir alimentos, conservar água e com isso manter o regime de chuvas, e ao mesmo tempo sequestrar e armazenar CO2 da atmosfera, contribuindo para combater a crise do clima.

Algumas das práticas regenerativas são derivadas da agricultura orgânica, como uso reduzido de pesticidas, herbicidas e fertilizantes. Mas o conceito se firmou nos anos 1980 com experiências em propriedades maiores de cultivo de milho e soja nos Estados Unidos, com plantio cruzado e sequencial para evitar a erosão do solo, pouco uso do arado, o não uso de transgênicos e utilização de compostos orgânicos, para aumentar a variedade de micro-organismos presentes na terra.

Ainda na programação, "O Capital do Século XXI", codirigido pelo economista Thomas Piketty, "Res Creata", sobre as relações entre humanos e animais, e "A Campanha Contra o Clima", de Mads Ellesøe. A mostra também traz o Concurso Curta Ecofalante, com dez produções que abordam os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da ONU.

A programação que pode ser consultada no site.