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#DaQuebradaProMundo

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Auxílio emergencial é motivo de piada

Reprodução/YouTube
Imagem: Reprodução/YouTube
Alexandre Ribeiro

Alexandre Ribeiro, escritor, colorido, 22 anos. Autor do livro de poesia "Inflorescência" e do romance vencedor do prêmio ProAC Prosa "Reservado". Alexandre é morador da Favela da Torre em Diadema e por conta de uma bolsa de estudos está vivendo na Alemanha. A Coluna #DaQuebradaProMundo é um espaço de partilha, onde um favelado fala sobre o caminho das pedras sem trazer fórmulas secretas. Um espaço onde a realidade dura e o sonho esperançoso coexistem na busca do impulsionar.

02/04/2021 06h00

Bolsa família, auxílio emergencial, é sustento de vagabundo? Por que políticas públicas de transferência de renda no Brasil são criticadas, enquanto do outro lado do planeta são aplaudidas até virarem um meme de orgulho nacional?

Políticas públicas de transferência de renda não são novidade. Martin Luther King foi um defensor da ideia. E no Brasil, desde a década de noventa, Eduardo Suplicy também luta por uma renda básica de cidadania. Do outro lado do planeta, no dia 7 de julho de 2019, o comediante e ator alemão Tedros "Teddy" Teclebrhan publicou o som "Lohn Isch Da", que obteve 12 milhões de visualizações por meio de muito humor e o refrão:

"Arbeitsamt hat Geld auf Konto gewiesen (Agência do trabalho mandou o dinheiro pra conta) / Lohn isch da (O salário caiu)"

O governo federal anunciou na quarta-feira (31) o calendário oficial de pagamento do auxílio emergencial de 2021. Entretanto, o novo auxílio emergencial não é suficiente para cobrir a linha de pobreza em nenhum estado do país, segundo estudo. O próprio presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), admitiu que o valor da segunda rodada de auxílio emergencial é pouco.

Respondendo à pergunta inicial do texto: não. É praticamente consenso entre analistas que a experiência do auxílio emergencial foi um sucesso. Amenizou as consequências da pandemia para 67,9 milhões de brasileiros e diminuiu o impacto econômico das medidas de isolamento social.

E por isso trago aqui a visão positiva e o humor de Tedros - um cidadão alemão refugiado da Eritrea - celebrando políticas públicas contra a desigualdade e a miséria. Me sinto inspirado e acredito que devemos lutar para modificar não somente a narrativa de que os beneficiários são "vagabundos", mas também para que os valores dessas políticas sejam maiores.

Nos dados mais recentes da pesquisa EXAME/IDEIA, em um levantamento, pesquisadores ouviram 1.200 pessoas entre os dias 22 e 24 de fevereiro. 53% das pessoas entrevistadas disseram que o valor razoável do auxílio emergencial seria de seiscentos reais. Aqui você pode ler o relatório completo.

O poema de Solano Trindade já avisou: se tem gente com fome, dá de comer. Com o gás de cozinha beirando R$ 100 e a cesta básica beirando os R$ 600 a impressão que temos é de que, assim como a música de Tedros, o novo auxílio emergencial de R$ 250 é uma piada. E que piada de mau gosto.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL