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Café com Dona Jacira

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O chamado

Victor Balde
Imagem: Victor Balde
Dona Jacira

Jacira Roque de Oliveira, 52 anos, moradora do Jardim Cachoeira (Jardim Brasil Novo), periferia da Zona Norte, contadora das suas próprias memórias. Trabalha com a criação artística se utilizando de bordados, que contam sobre as diásporas africanas e as musicais, o patrimônio imaterial da humanidade, as histórias da cozinha de sua mãe e também do Jardim Tremembé. Atualmente, Dona Jacira também pinta, faz cerâmica, desenvolve o ofício de marcenaria, jardinagem com agricultura orgânica e a criação de bonecas; uma verdadeira detentora de tecnologias ancestrais.

29/08/2021 06h00

Alguém me chamou, acho que devo, se devo preciso pagar. Estou livre, posso fazer o que bem quiser. Livre de amores, valores e fatores necessários para suprir minhas carências, que daqui pra trás me perseguiram. Curou-me o tempo de algumas delas, mas a esta hora eu gostaria de dormir. Lembro logo da fala de mãe quando acordo assim no meio da madrugada do nada: "Dorme agora enquanto és jovem". E tinha outra: "Por isso que nunca vais enriquecer, dormes demais".

No meu sonho dormia minha riqueza, eu rica já era, agora tenho uma insônia patológica, durmo dez minutos e desperto bestamente, e nem sei se encontrarei cura razoável para dormir em paz, agora que tenho travesseiro leve, justo agora. Já que conquistei minha liberdade, posso me entregar a servidão voluntária, vou entrar na internet e ver o que acham de mim hoje, a rede flutua mais que a bolsa de valores ou paralelamente a ela? A polarização é um ataque ao racismo? Os sírios se jogaram no mar para fugir da polaridade da própria Síria então?

Tem gente que não curte o cinza, só preto ou branco, passei metade da minha vida sendo exército de reserva, a outra metade fazendo análise com terapeutas brancos. Como vou entender a mim mesma sendo analisada por quem também não me conhece, nem pretende. Tem dias que a alegria me falta eu quero gritar e não consigo, e a única fagulha que Exú guarda em meu ib, é pra que eu seja feliz e continue de onde minha mãe parou, mas minha mãe não para, parece aranha, está sempre à espreita tecendo. Meu pai descansou, teve que morrer um pouco, pobre homem de carne preta que ousou acreditar em promessa de homem branco.

- Deus está contigo?

Não estava, nunca esteve, o guarda civil estava, os filhos é que pagam. Meu pai Oxalá, eu preciso esquecer este assunto e pregar os olhos, me permita esquecer esta triste trajetória de minha gente. Quando tudo isso passar, vou entrar numa academia para fazer pilates, caso a alcatra fique mais acessível. Dizem que é o melhor a se fazer neste momento, preciso terminar de ler o manual de bicho que dá em gente, ainda nesta vida, entender-me com fungos e cogumelos.

Hoje é sexta-feira, dia de Oxalá Epa Babá, porque será que este assunto me acordou agora, bem no meio da noite, outra vez? O que é do meu sono? Tem sonho que lembra açoite. Para onde vai meu sono quando acordo? Será que vai pra trás da porta, debaixo da cama?

Debaixo da cama se perdera entre a poeira do tempo, poderia eu bem estar na esbórnia agora, numa mesa cheia de gente fuleira feito eu, feliz da vida. Só por estar viva, eu deveria estar feliz por ter estudado por minha conta e ter conseguido realizar meus sonhos, pelo senhor ter me permitido criar meus filhos, pelos meus netos, mas o que fazer com tudo o que aprendi e com as tristezas que me causou. Agora me parece que eu era muito mais feliz quando sabia quase nada, a ignorância me favorecia. Eu era bem mais forte, hoje a certeza da derrota me enfraquece muitas vezes. Porque a tristeza corrói meu coração feito ferrugem no meio da noite? Meu fígado desmancha em agonia em plena madrugada, lembra Prometeu. Tenho a impressão que não sou só eu, será que se eu alisar o cabelo agora fico bonita? Toda vez que eu durmo um pouco o meu mundo sai do lugar, eu sonho com prejuízo deste deslocamento e acordo, durmo, ele torna voltar. Minha orelha dobrou, tá doendo. Será que a primeira visita que sentou na cadeira de um ancestral meu, já tinha intenção de roubá-lo? Desde a revolução da cruz e da espada? Herdei essa maldita mania de receber algozes em minha sala, como se visita fosse.

Jogo sal grosso pelas costas como mãe ensinou. Aquele moço? Será que era mesmo mau caráter, ou mesquinho? E o afeto dele agora é desafeto meu? Às vezes é só pobreza mesmo. Veja lá se eu posso com tanta mágoa?

O corpo cansado e o sono perdido noutras passadas águas, ás vezes penso que o mofo da parede fala comigo e ele cresce a olhos vistos mais rápido que as teias de aranha, será solidão? São fungos, até na Netflix estão, porque não estariam aqui comigo, a gente só sabe criar coisas boas, entregar pra esta gente que não nos respeita, eles tomam posse e cuidam para que a patente seja deles, sabia que agora as caçambas tem tampa e tem cadeado vê se pode. É para o pessoal das cooperativas não pegar? Será?

É muito doido isso, é o lixo dando lucro, sabia que ia dar nisso. Quando tudo isso acabar quero fazer uma festa só com gente bacana, vou colher DNA antes, se for bacana fica de um lado, senão, fica do outro, sabe como é, né? Precaução. Vou usar o exemplo da vaca profana de Gal "Leite pra todos e faro fino para os mofinos". É de gente cheio de boa intenção que eu tenho medo, tô enchendo a bacia de água, açúcar e sabão, vai ter bolinhas ao ar. Queria tanto encontrar olho de nora pra brincar, não faz mais, só fazia quando era olho de sogra, agora acabou, estou sempre na contramão, agora que sou sogra preciso preservar a defesa de meu sindicato. Ah! Se eu pudesse viajar numa bolinha de sabão bem colorida, eu sou tão frágil, tão sentimental, por isso que perco o sono, tenho raiva, depois que passa, depois que a vaca foi para o brejo, depois que pisou a roupa no quarador, a dor da gente é dor de menino acanhado no curral da vida, o poeta me contou.

Tem um hematoma enorme no meu braço, foi da punção de ontem, o tempo ou a vida me levou a sensibilidade, foi assim que a pressão arterial me subiu, Yansã me disse para que eu bordasse pra me entender com as falas de dentro, é bom pra espalavrear, ta dando certo, ver a vida em linhas. Eu escrevo como cozinho, meus armários são meus altares…

Seu Antônio chega às 11h, vai almoçar às 12h30, e retorna às 15h, mas trabalha é o tempo dele, será se em Portugal tá quente?
Hoje almoçamos sorvete, eu, Juju e Biel. Tresontonte sonhei que estava num campo de concentração, acho que é por causa desta política horrível, meu sono foi embora, eu passava fome, suava frio e chorava, é o que nos resta, não sei fazer mal, Exú nem me permite, acordei com medo de ser verdade de tão real que parecia. Eu nunca vou poder pisar a terra de onde vieram meus ancestrais?

Mas seguirei contando minhas verdades, é o que me faz forte. Ah! se eu pudesse, se o medo deixasse, eu dormiria mais, amanhã vou ver nos classificados se tem um lugar onde eu possa viver em paz, destarrachar as mágoas, deixa lá pra trás, desde que cresci nunca que vivi mais, ela me levou o dinheiro da burra duas ou três vezes, o dinheiro de ter tido minha casinha, tudo o que eu tinha, agora me pede socorro, nunca me pediu sequer desculpas. Por várias vezes me deixou morando em cima dos sapatos com os meus, nunca se comoveu, muito embora seja cristã. Vai se desculpar amanhã?

Tem muitos ditados iorubá com pano que diz: "Panos de história, pano esticado, pano dobrado, pano". Cada pano tem uma história pra contar, a chita conta história que fica impresso no papel da memória, se alguém faz uma bondade ou maldade fica, o pano conta e reconta.

Médicos de cabeça, eu acho, deveriam ir às casas e abrir do paciente os armários, soltar os bichos. As mágoas ficam aprisionadas no escuro das gavetas e quando acham uma luz se aboleta nos escuros da gente.

A gente a toda hora perde o sono, dentro do meu mesmo tem dois maridos, um monte de filho, cachorro, gato, parente e gente de todo tipo, panelas, travessas, bacias, penicos e incompletudes, às vezes eles saltam e pulam pra dentro de mim sem eu ver e roubam meu sono. As barrigudas do caminho ali na ponte da Casa Verde estão carregadas de paina verde, parece abacate, mas paina são. Painas, se trabalhadas, dão pra roupa, pergunte a Dona Aranha, ficam na memória do armário, é bem mais fácil capturá-la fresquinha ali entre roupas que se preparam pra dormir, ir à missa ou a passeio. Prendi uma num saco plástico certa vez e ela explodiu, foi um saco cheio de alegria ensacada.

Das roupas de afeto, as de verão por exemplo, diáfanas em tons e semitons de clareza, já uma japona encourada, só ela pra mim, já é demasiado triste, aperta, pinica.

Voltemos a chita, a chita passeia, vai na mesa, na janela, ao corpo de baile, depois vira saia de pia, almofada, toalha de penteadeira. Vai da ciranda ao mercado, enfeita e peita, e muito embora gente emproada faça bico e careta pra ela. Ela nunca some, mãe mesmo tem história que dá pano pra manga. Vivia sentada na máquina de costura o dia inteirinho que Deus dava, quando ele dava, só parava pra bater roupa, fazer visitas e bater mato de fato. Lavar um defunto ou matar uma galinha, saberes seus que ninguém tira, qualquer coisa de seu saber que a vida mandava. A vida de uma mulher negra não é fácil, nunca foi, ganhar esta vida então é história que dá metros e metros de egrégora magoada de correr do comando na feira ou voltar para o cabo da enxada,
e chegou inteirinha aos oitenta e dois, menos o ib.

Nem sei dizer se sente saudade e se tem motivos pra cantar, não é sorte é Exu, na frente Oxalá, na guia de sol a sol todo dia, uma fatia de abacaxi uma berinjela cozida só pra escorrer a gordura mesmo. Assim o ib fica livre só pra alegrias e mágoas mesmo, na máquina dela nunca toquei só usava mesmo como esconderijo, sou dos mandados, encomendados e cobranças, no passado rezadeira de terço, fiz carreira nesta profissão já rezei pra cada santo. Resumindo, moleque de recado, mandou levar, levei, ta levado.

Quando mãe fazia vestido, sempre tinha botão para encapar, encapar botão é poesia ou deveria ser. Era eu que levava.

- Vá num pé volta noutro! Veja se não empaca

E diga ao moço que não faça besteira, não encape a roseira, a rosa tem que ficar no miolinho, dito assim, tim tim por tim tim, era fácil. Queria ver ela explicar pra ele o homem impaciente que recebia os botões de cara feia e cheio de preguiça, e pensar que encapar botões era profissão que eu gostaria de ter, melhor do que serviço de reza.

Serviço mau feito era um cocorote e o serviço de volta pra refazer. Ela me dizia, eu dizia a ele que não ouvia, era uma romaria, por esta razão eu rodava o mundo enquanto ele enrolava no serviço, ia até o Joamar e voltava no bazar do tio Chico, olhar a vitrine de coisas que me serviam.

Pra ficar zen canetinha Neo Pen, eu sonhava no dia em que eu teria uma canetinha de desenhar, acho que foi ali o meu primeiro amor. Cada moedinha que me caia nas mãos ia para o sonho de um dia juntar os réis que Seu Chico pedia, mas a cada ano quando eu alcançava o montante ele subia o restante, cheguei pensar que Seu Chico fazia de propósito ou não gostasse de mim. Eu não conhecia o sistema por trás das pessoas, as vezes ele me deixava segurar a embalagem com doze cores na mão.

- Só não pode abrir nem escrever.

- Pede pra sua mãe comprar uma pra você.

Deus me livre, mãe virava onça quando assunto era dinheiro, uma vez o padrinho Farias perguntou a mim se tinha alguma coisa que me deixava feliz que ele compraria, me deixou feliz só saber que ele se importava com a minha felicidade. Mas mãe interveio:

- Comida cumpadi comida! Gritou ela se intrometendo em meus negócios.

Se envolvendo nos meus ócios.

- O senhor me dê este dinheiro, está sujeita aí se junta com umas professoras e só me trás dívida.

Ele ficou sem palavras, deu o dinheiro na mão dela e ela gastou com comida.

- Se sobrar algum dinheiro eu trago um lápis baratinho se ela merecer.

Não mereci, mas no dia que Elvis Presley morreu, ela, esta mesma senhora, me deu de presente um Kichute de nove travas. Deveria bem ter percebido que uma menina que adora um Kichute era um bucado de coisa, menos só uma menina.
Metade ali era verdade, eu com comida me dava bem, mas e a outra metade que pleiteava outros bens. Fato é que se eu quisesse pintar, tinha que pintar com barro que nisto a ancestralidade dava uma força, mas queria as canetinhas pra usar na escola e em casa.

Sempre gostei de arte e odiei lavar louça, porém se era por uns trocados, tava arranjado, e tome desconto em pratos trincados e copos despedaçados, são estes bichos que vai e vem, me rouba o sono, até aquela família horrível do quase primeiro emprego já veio me visitar. Que absurdo tinha que mostrar o corpo pra trabalhar ali na entrada e na saída, isto nem era vida.

Estas pessoas bem poderiam ter ficado lá na rua Silva Teles, poderiam bem ter se enfiado num buraco qualquer e sair do meu sonho.

E se eu dormisse de novo e se eu sonhasse e se eu fosse num lugar estranho e visse lá uma flor estranha, e se quando eu acordasse eu tivesse esta flor nas mãos. Ah! E então?

Tem nome que quando me vem no pensamento meu corpo treme, não gosto nem da lembrança. Vou fazer um curso de biologia, fazer amizade com cogumelos. Será que consigo aprender a dançar rock?

Quando tudo isso acabar vou me acabar numa ciranda, saudade do Aparelha Luzia, Roxa, e voz de Duda, o Tata que é tempo me dá uma bandeira! Lemba é Nkisi, é tempo. Vou parar de falar com vocês e prestar atenção na estrada, guiar-me pra dormir, o encapador de botão sempre demorava e nunca colocava as rosinhas de mãe no lugar onde ela queria. A moça do Sesc me chamou pra enfeitar uma barraca, que coisa mais linda que ficou, quase não dormi pensando, que bom seria, e foi bom e mesmo assim perdi o sono.

Ela me salvou de mim mesma, amanhã vou escrever, vá que a Ecoa goste e me chame.

Esquece tudo o que eu disse daí pra cima.

Boa noite, bom sono.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL