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Nossa negritude de pele clara não será negociada

Projeto Humanae, de Angélica Dass, fotografou 2.500 pessoas para mostrar a pluralidade de tons de pele - Reprodução
Projeto Humanae, de Angélica Dass, fotografou 2.500 pessoas para mostrar a pluralidade de tons de pele Imagem: Reprodução
Bianca Santana

Bianca Santana é jornalista. Autora de "Quando me descobri negra" e organizadora de coletâneas sobre gênero e raça, foi convidada da Feira do Livro de Frankfurt em 2018 e da Feira do Livro de Buenos Aires em 2019, quando também foi curadora do Festival Literário de Iguape. Pela UNEafro Brasil, tem contribuído com a articulação da Coalizão Negra por Direitos. No doutorado em ciência da informação, na Universidade de São Paulo, pesquisou a escrita e a memória de mulheres negras. Foi professora da Faculdade Cásper Líbero e da pós-graduação em jornalismo multimídia na Faap. Atualmente, está escrevendo uma biografia sobre Sueli Carneiro.

28/07/2020 04h00

Não ser branco nem preto, em uma sociedade racializada como a brasileira, permite a pessoas negras de pele clara negociarem benefícios o tempo todo. Para se aproveitarem das cotas raciais, soltam o black power; para conseguirem emprego, alisam o cabelo. A passabilidade — serem mais aceitas pelos brancos, quem realmente têm poder — oferece mais posições subalternas a essas pessoas. Privilégio que se pode constatar nas estatísticas.

Segundo dados divulgados pelo IBGE em 2017, enquanto o rendimento médio real de um trabalhador branco era de R$ 2.660 e dos pretos era R$ 1.461, o do pardo era R$ 1.480. Percebem a vantagem social? Do mesmo modo, enquanto o desemprego entre brancos era de 9,5%, dentre os pretos era de 14,4%, dentre os pardos era 14,1%. Sei que os dados cansam. Apresento só mais alguns. Dentre as empregadas domésticas, 50% são pardas (as quais somam 40% do total de mulheres), 13% pretas (quando são 8% do total de mulheres), 35% brancas (47% das mulheres). Mas nem tudo são números.

Peguemos o exemplo de uma mulher negra de pele clara — com traços finos, segundo alguns, cabelo pouco crespo, segundo outros — que publicou um livro chamado "Quando me descobri negra". Apesar de ter sido vítima de violações de direitos comuns a crianças negras pobres, teve a oportunidade de passar 20 anos da vida no não lugar, no conforto de ser constantemente informada de que não era branca, sem ter qualquer outra identidade racial, usufruindo da sensação plena de inadequação. Privilégio pardo.

Sempre bom lembrar que raça não é uma divisão das ciências biológicas, mas uma categoria social e política. Se pelo DNA todas e todos temos características comuns à humanidade, a desigualdade racial do Brasil, amplamente registrada e denunciada, mostra que raça é uma categoria analítica e política importantíssima para que possamos acabar com o racismo. Mas, nessa conversa séria e importante, o pardo atrapalha. Porque a cor de pele clara permite negociações, o que se pode observar nos indicadores de violência. Dentre os jovens assassinados, entre 15 e 29 anos, um a cada 23 minutos, a maior parte é de pardos. A polícia tem, como se pode perceber, dificuldade em identificar os pardos como negros. O mesmo acontece no sistema carcerário. Nas prisões femininas, em 2017, pardas eram 48,04%, pretas 15,51% e brancas 35,59%.

Durante a pandemia, o número de mortes por doenças respiratórias, mesmo sem o diagnóstico de Covid-19, cresceu entre 16 de março e 30 de junho, em relação ao mesmo período de 2019: 24,5% mais entre brancos; 70,2% mais entre pretos e 72,8% mais entre pardos. A falta de acesso à saúde ao longo da vida, a ausência de testagens, as discriminações nos postos de saúde e hospitais, a exposição à contaminação: tudo isso confunde pardos com brancos, não dá para perceber?

Chega. Para. Muda o tom. Abandono aqui a ironia do início do texto — e os pedidos de desculpas ao falar sobre o tema em oportunidades anteriores — e comunico, no papo reto: nossa negritude de pele clara não será negociada.

Mesmo porque uma das especificidades do racismo vivenciado por quem se autodeclara pardo tem a ver exatamente com nos acusarem de ambivalência. Verônica Toste Daflon, professora do Departamento de Sociologia da Universidade Federal Fluminense, trata deste fenômeno no livro "Tão longe, tão perto: identidades, discriminação e estereótipos de pretos e pardos no Brasil", publicado em 2017 pela Mauad X.

Verônica constata que pretos mobilizam mais os estereótipos do indivíduo sem oportunidades, enquanto pardos são percebidos como marginais e imorais. Há um componente de classe a considerar. Sempre há. "Criminalidade, malandragem, preguiça, fuga ao trabalho e licenciosidade sexual são estereótipos, vinculados aos pardos, mais passíveis de ser rechaçados por aqueles que rompem a barreira social para ingressar nas classes médias e nas elites", escreveu Veronica. "Se ficar estabelecido que os pardos de classes mais baixas sentem a discriminação mais intensamente do que aqueles que adentram as classes médias e elites, isso pode colaborar com a hipótese de que os estereótipos que recaem sobre eles são mais manipuláveis com a ascensão social do que aqueles associados aos pretos." Mas a que serve essa manipulação da nossa identidade negra?

Independentemente das percepções de discriminação, o abismo que separa pretos e pardos dos brancos foi mostrado em estudos clássicos produzidos por Carlos Hasenbalg, Nelson Valle Silva e Lélia Gonzalez ainda na década de 1970; por Sueli Carneiro e Thereza Santos ao se debruçarem sobre as desigualdades entre mulheres na metade da década de 1980. E por inúmeros outros pesquisadores e pesquisadoras. Kabengele Munanga, atualmente professor visitante sênior da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, defende que pretos e pardos sejam agrupados como negros tanto pelas semelhanças socioeconômicas, quanto por uma necessidade política.

"(...)Valle e Silva demonstrou que ser preto ou pardo, no Brasil, dá no mesmo, ou seja, demonstrou a tese do movimento negro, quando chamamos pretos, pardos e mulatos, todos, de negros. E podemos ver nos trabalhos desses poucos cientistas sociais brasileiros, que escolheram o seu lado, ou seja, o nosso lado, a nossa luta, que eles procuram, efetivamente, acabar com esse 'papo' de divisão do Brasil em quatro cores: os brancos, os pardos, os pretos e os amarelos. Nos seus trabalhos o que vemos é a junção do preto e do pardo como negro", escreveu Lélia Gonzalez em 1984, em um discurso em homenagem a Luis Gama e Abdias do Nascimento, publicado na coletânea "Primavera para as rosas negras", editada pela União dos Coletivos Panafricanistas em 2018.

O movimento negro, que tem sido vitorioso em tantas agendas, cravou a definição de negros no Estatuto da Igualdade Racial Brasileiro, de 2010, como a soma de quem se autodeclara preto ou pardo, conforme o quesito cor ou raça do IBGE. Qualquer tentativa de embaralhar a noção de negros como a soma pretos e pardos — reconhecendo a negritude dos variados tons de pele — presta um desserviço à formulação de políticas públicas que beneficiam toda a população, na busca pela igualdade definida em nossa Constituição. Além de ser um estrondoso equívoco analítico.

As conquistas do movimento negro serão defendidas por negras e negros — dos mais variados tons de pele — organizados coletiva e politicamente. Não há espaço para aventuras individuais de qualquer ordem, nem para a política deliberada de negar o racismo para aprofundar o genocídio negro. Os poucos direitos conquistados, assim como nossa negritude de pele clara, não serão negociados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.