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ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Falta de diálogo na Europa pode atrasar investimentos em eletrificação

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Imagem: Reprodução
Leandro Alves

Neste espaço a equipe de AutoData, sob a coordenação do diretor de redação Leandro Alves, trará os bastidores da indústria automotiva, que são de extrema importância para os negócios e o futuro do setor no Brasil e no mundo. Seu próximo carro pode passar primeiro por aqui. Antes mesmo dele existir! Conheça nosso trabalho em www.autodata.com.br

Colunista do UOL

12/03/2021 04h00

Durante sua rápida passagem pelo Brasil, o CEO da Stellantis, Carlos Tavares, fez duras críticas às discussões no âmbito da União Europeia para criar legislações que promovam a mobilidade zero carbono no continente.

Disse ele que "foi uma decisão [iniciar os trabalhos este ano para elaborar os termos desse protocolo de ações] sem qualquer discussão com a indústria automotiva. É uma brutalidade imensa porque pode ter consequências para 14 milhões de empregados na Europa".

Está em curso a revisão das diretivas da Comissão Europeia para o novo objetivo de 2030 e as atualizações dos entendimentos no bloco para a neutralização das emissões em 2050. E as emissões do transporte são um dos destaques pois representam um quarto de todo gás de efeito estufa liberado na Europa.

Chamada de Fit for 55 Package essas novas diretivas pretendem direcionar a elaboração de leis para que até 2030 haja uma redução de 55% das emissões no continente em comparação com os níveis de 1990.

E alcançar a neutralidade das emissões em 2050, cumprindo as metas do Acordo de Paris. Isso significa, para a Comissão Europeia, que delibera o assunto, que seriam necessários 30 milhões de veículos elétricos rodando no continente a partir de 2030.

Além de a indústria automotiva não ter sido envolvida na elaboração dessas diretivas, Carlos Tavares está preocupado com o possível banimento dos veículos movidos a combustíveis fósseis de grandes cidades europeias, algo bastante factível de ocorrer: "Não haverá tempo suficiente para preparar essa transição. Se barrarem os outros modelos deixaremos parte dos consumidores fora do mercado".

Tavares propõe que a mobilidade no futuro seja segura, limpa e, sobretudo, acessível para os consumidores: "Não há discussão, aqui, de que a mobilidade não tem que ser zero emissões. Estamos de acordo. Mas dar acesso apenas aos ricos não é suficiente para atingir os objetivos".

Um dos prejuízos da falta de diálogo e entendimento com a indústria automotiva é que não há tempo para que sejam criadas unidades produtivas na Europa para os itens necessários na arquitetura de um veículo elétrico, sobretudo a produção de baterias.

Assim os custos devem subir ameaçando tornar inviável a equação de preços: "Teremos que comprar baterias na Ásia com 40% de custos adicionais. Isso terá consequências nos países que poderiam investir nesses produtos, o que deverá ser cobrado pelos eleitores".

"Temos que constatar que o diálogo não existiu na Europa com as montadoras" continuou Tavares, que foi presidente da associação dos fabricantes europeus, ACEA, por dois anos. Principalmente em 2019, o último ano do seu mandato, ele tentou construir um entendimento sobre as metas de emissões para 2030.

Mas ao longo desse período criticou a falta de diálogo com as autoridades e legisladores, o que adiou possíveis investimentos e colocou sob suspeita a continuidade de muitos postos de trabalho não só na cadeia automotiva europeia.

O chamado European Green Deal vai servir de exemplo para os que estão do outro lado do Atlântico, observou Tavares: "O que está acontecendo na Europa pode mostrar para o mundo que é preciso discutir antes de tomar decisões brutais.

Esperamos que a América Latina possa observar e criar a sua própria legislação. Precisamos que as organizações nos deem tempo de nos adequarmos".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL