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O que pode ser?

A partir do sintoma, as possíveis doenças


Fimose é normal e protetiva em bebês, mas quando persiste deve ser avaliada

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Imagem: iStock

Cristina Almeida

Colaboração para VivaBem

22/02/2022 04h00

Ninguém conhece quem usou pela primeira vez a palavra fimose, mas sabe-se que ela é derivada do grego e sua tradução literal é focinheira. Hoje, o termo é usado pelos médicos para descrever a dificuldade parcial ou total de retração do prepúcio, a pele que recobre a extremidade do pênis.

Após o nascimento, ela é considerada uma proteção natural contra a urina e as fezes, mas após os 3 anos de idade, tal cobertura deve ser retrátil. Quando isso não acontece, é possível que a fimose seja patológica.

Estudos científicos mostram que essa condição acomete 8% dos meninos aos 6-7 anos de idade e 1% dos jovens de 16-17 anos. Apesar disso, essas aderências são mais comuns na infância e na adolescência e, aos 18 anos, somente 3% dos rapazes ainda apresentarão o problema.

Embora na tenra idade a fimose possa preocupar pais e cuidadores, os médicos garantem que o melhor a fazer é esperar o desenvolvimento da criança, sem jamais forçar a exposição da glande.

Após os 3 anos, caso o prepúcio siga com algum tipo de aderência ou já esteja causando problemas como inflamações e infecções, o pequeno deverá ser avaliado para que se possa ponderar sobre a melhor opção de tratamento.

A preferência é que se faça uma intervenção cirúrgica conhecida como circuncisão, uma das práticas mais antigas do mundo e que, em vários países, como os Estados Unidos e o Canadá e comunidades judaicas, árabes e africanas, é realizada por questões culturais, preventivas ou religiosas.

O que é fimose?

Trata-se de um termo utilizado para descrever uma condição caracterizada pela dificuldade ou impossibilidade de retrair a pele (prepúcio) que cobre a "cabeça" do pênis (glande). Essa pele pode ter aderência ou não, e também poderá se apresentar na forma de um anel fibroso —um estreitamento que restringe a ponta do pênis.

Conheça os tipos de fimose

O prepúcio é uma cobertura natural da extremidade do pênis. Os cientistas acreditam que ela tem um efeito protetor contra os efeitos irritantes da urina e das fezes. Assim, ao nascer, 96% dos meninos terão o prepúcio total ou parcialmente não retrátil, o que é chamado de fimose fisiológica.

Conforme o bebê vai se desenvolvendo, as possíveis aderências vão sendo rompidas naturalmente, o que também é facilitado pelas ereções intermitentes. Estima-se que, aos 3 anos de idade, crianças predispostas permanecerão com a fimose, o que representa 10%.

Nesses casos, a condição já não será considerada fisiológica, e passará a ser definida como fimose patológica congênita.

Entenda os "graus" da fimose

Conforme o formato e o grau de retratibilidade do prepúcio, as apresentações da fimose são classificadas nas formas a seguir descritas:

  • Tipo I - nenhuma retração;
  • Tipo II - exposição apenas da entrada da uretra (meato uretral);
  • Tipo III - exposição de metade da glande;
  • Tipo IV - exposição quase completa da glande, mas com alguma aderência da pele;
  • Tipo V - exposição da glande por completo.

Quais são as possíveis complicações da fimose?

Como a pele não permite que a glande seja exposta, a higiene local fica prejudicada, pode haver colonização bacteriana ou fúngica, o que facilitaria o aparecimento das seguintes condições:

  • Inflamações e infecções do prepúcio (balanopostite)
  • Infecções urinárias, retenção urinária, dificuldade ou dor ao urinar (especialmente em crianças)
  • Maior suscetibilidade a ISTs (Infecções Sexualmente Transmissíveis) na idade adulta
  • Desconforto peniano durante as relações sexuais
  • Câncer de pênis (em adultos)

A fimose atrapalha o desenvolvimento do pênis?

De acordo com os especialistas consultados, ela não atrapalha o desenvolvimento normal do órgão, mas pode levar às complicações acima descritas.

Quando preciso procurar o médico?

O médico de família Pedro Cavalcante, também especializado em pediatria, diz que todas as crianças devem ser acompanhadas por um pediatra nos primeiros anos de vida, na infância e puberdade —o que facilita a identificação dessa condição e a prevenção das complicações que poderiam atrapalhar a vida sexual plena e satisfatória na idade adulta.

Quando esse acompanhamento médico regular não é possível, "o sinal de alerta para pais e cuidadores são inflamações ou infecções recorrentes do prepúcio e das vias urinárias. Diante desses quadros, pais ou cuidadores devem buscar ajuda médica para avaliação da criança, diagnóstico e tratamento da fimose".

Os especialistas indicados para essa consulta são o pediatra ou o cirurgião pediátrico, mas a depender da idade do paciente, um urologista também poderá ser procurado.

Como é feito o diagnóstico?

Na hora da consulta, o médico ouvirá a sua queixa, fará o levantamento do seu histórico de saúde ou da criança, e realizará o exame físico genital. O diagnóstico é feito com base nessas informações, o que os especialistas chamam de diagnóstico clínico.

Como é feito o tratamento?

O cirurgião pediátrico Fabio Antonio Perecim Volpe, professor da divisão de cirurgia pediátrica do Departamento de Cirurgia e Anatomia da FMRP-USP, explica que o tratamento da fimose fisiológica é desnecessário.

Ele acrescenta que as opções terapêuticas para tratar a fimose só cabem no quadro patológico, e elas incluem o uso de medicamentos (corticoides tópicos) e cirurgia, cujo nome médico é postectomia —também conhecida como circuncisão.

"O plano de tratamento nos estágios iniciais da fimose patológica pode incluir o uso de corticoides —isolados ou em combinação com hialuronidase— que têm ação anti-inflamatória e ainda ajudam a amolecer a pele ao redor do pênis, facilitando a retração", completa o médico.

A indicação é que o medicamento seja aplicada pelo período de 4 a 8 semanas e, após esse tempo, a retração manual durante o banho deve prosseguir.

Quando a cirurgia é indicada?

A cirurgia está indicada no insucesso do tratamento clínico (tópico) que, de maneira geral, deve ser considerado como a primeira proposta. Sobre a circuncisão, a literatura médica esclarece que os seus benefícios superam seus mínimos riscos.

O benefício para o paciente seria a proteção contra infecções do trato urinário, dor durante as ereções, inflamações dermatológicas, dificuldades ao urinar, higiene local, candidíase, além de várias ISTs em ambos os gêneros, úlceras genitais, bem como cânceres de pênis e próstata.

Cirurgiões pediátricos e urologistas entendem que a intervenção cirúrgica como primeiro tratamento seria a melhor opção em condições específicas, como as abaixo descritas. Confira:

  • Fimose patológica congênita
  • Balanopostites de repetição
  • Obstrução do fluxo urinário
  • Malformação do trato urinário que predisponha a infecções urinárias de repetição
  • Parafimose (prepúcio retraído com um anel constritivo que reduz o retorno venoso e linfático e é uma emergência médica)
  • Fimose adquirida (decorrentes de traumas no prepúcio ou inflamações)

Como é a cirurgia?

A postectomia é considerada uma intervenção de pequeno porte, deve ser realizada em ambiente hospitalar, mas a saída do hospital se dá no mesmo dia. Veja como é, em geral, o passo a passo desse procedimento:

  1. O paciente é sedado, geralmente com anestesia combinada (sedação associada a anestesia loco regional).
  2. Efetua-se a remoção total do prepúcio e também da membrana que fica próxima à uretra, conhecida como freio balanoprepucial.
  3. Para fechar o corte é utilizado um fio especial que não requer retirada posterior.

As taxas de complicações pós-operatórias são baixas quando a cirurgia é realizada por médicos treinados, e elas se resumem em hematomas, abertura de pontos ou infecções locais, quadros facilmente solucionados. Estima-se que haja completa cicatrização em cerca de 3 semanas.

A fimose pode aparecer depois de adulto?

Sim. De acordo com Jose Hipólito Dantas Júnior, professor da disciplina sistema genitourinário da UFRN, algumas condições médicas podem levar a alterações locais que promovem a hipertrofia (crescimento) ou o estreitamento da pele, dificultando a exposição da glande, bem como a sua higienização.

São exemplos enfermidades como o diabetes, a obesidade e o líquen escleroso (doença dermatológica progressiva). "Em todos esses casos, a cirurgia é a solução mais indicada", esclarece o especialista.

A fimose pode atrapalhar a fertilidade?

Casos extremos de fimose podem dificultar a ejaculação, o que, potencialmente, poderia reduzir as chances de fertilização. No entanto, esta é uma situação rara.

Mulheres podem ter fimose?

Não, mas há casos nos quais se verifica a aderência dos pequenos lábios (sinéquia), quadro que deve ser avaliado pelo pediatra e, posteriormente, pelo ginecologista.

Saiba como higienizar corretamente o pênis

Os especialistas reforçam que deve ser evitado forçar a exposição da glande de crianças pequenas menores de 3 anos de idade, o que poderia levar a traumas locais, desenvolvimento de fibroses e da fimose patológica.

Para garantir a boa higiene local, coloque em prática as seguintes medidas:

  • Lave o pênis com água morna todos os dias durante o banho;
  • Afaste o prepúcio gentilmente e lave a região;
  • Prefira sabonetes suaves ou sem perfume para reduzir o risco de irritações;
  • Evite o uso de talcos e desodorantes no pênis para evitar alergias.

Fontes: Fabio Antonio Perecim Volpe, professor da divisão de cirurgia pediátrica do Departamento de Cirurgia e Anatomia da FMRP-USP (Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo); Jose Hipólito Dantas Júnior, professor da disciplina sistema genitourinário da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte) e coordenador do Serviço de Urologia do Huol (Hospital Universitário Onofre Lopes), que integra a rede Ebserh (Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares); Pedro Cavalcante, médico de família e especialista em pediatria pelo Instituto do Criança do HC-FMUSP (Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo), membro da SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria) e da SBMFC (Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade). Revisão médica: Fabio Antonio Perecim Volpe.

Referências: Uropediatria Guia para pediatras. 2018. SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria); SBU (Sociedade Brasileira de Urologia); McPhee AS, Stormont G, McKay AC. Phimosis. [Atualizado em 2021 Ag 13]. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2022 Jan-. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK525972/; Morris BJ, Kennedy SE, Wodak AD, et al. Early infant male circumcision: Systematic review, risk-benefit analysis, and progress in policy. World J Clin Pediatr. 2017;6(1):89-102. Published 2017 Feb 8. doi:10.5409/wjcp.v6.i1.89.

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