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Paola Machado

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Pé chato ou pé plano: o que causa? Posso correr? Causa dor? Dá para tratar?

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Imagem: Getty Images
Paola Machado

Paola Machado é formada em educação física, mestre em ciências da saúde (foco em fisiologia do exercício e imunologia) e doutora em ciências da saúde (foco em fisiopatologia da obesidade e fisiologia da nutrição) pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Atualmente, atua como pesquisadora, desenvolvendo trabalhos científicos sobre exercícios, nutrição e saúde. CREF: 080213-G | SP

Colunista do UOL

23/02/2021 04h00

Sabe-se que aproximadamente 80% da população têm alterações nos pés, sendo a que a maioria poderia ser amenizada e as dores prevenidas com orientação e exercícios específicos. No entanto, em 90% dos casos o tratamento é feito apenas quando há presença de dores crônicas ou problemas secundários relacionados aos pés, como entorses de tornozelo e dores nos joelhos.

O pé tem a função de absorver o impacto durante a caminhada ou a corrida, e é responsável pelo equilíbrio, controle da postura e pela sustentação do corpo. As curvaturas dos pés, assim como as curvaturas da coluna, são fisiológicas para absorver impacto e para a passagem de estruturas como nervos, vasos e tendões.

Os arcos do nossos pés podem sofrer alterações como:

  • Pés cavos que apresentam a curvatura acentuada.
  • Pés planos, popularmente chamados de "pés chatos", é quando há o desabamento ou a não-formação do arco plantar, relacionado à falta de suporte do arco do pé e flexibilidade insuficiente dos ligamentos e tendões.

Qualquer alteração nessas curvaturas gera uma série de compensações posturais, principalmente em membros inferiores como quadris, joelhos e tornozelos.

Como saber se tenho pé plano?

Você já reparou em um pé de bebê? Assim como a lordose da coluna se desenvolve quando ficamos em pé, a curvatura do arco do pé também se desenvolve ao longo do tempo.

Mas por fatores específicos podem não se desenvolver:

  • Genética;
  • Frouxidão ligamentar;
  • Lesões traumáticas nos pés;
  • Doenças reumáticas.

Se o seu pé toca quase por inteiro no chão e não possui um arco na parte de dentro, ele é considerado um pé plano. Há 3 graus de intensidade: leve, moderado e grave.

A forma ideal para saber qual é o seu tipo de pé é uma avaliação biomecânica.

Dica: você pode ganhar mais consciência da forma do seu pé ao observar o desgaste no solado do seu tênis.

O pé plano pode gerar dor?

Geralmente o pé plano não ocasiona dores diretamente, mas há maior predisposição a dores de quadril, joelho e entorses de repetição no tornozelo.

Pessoas com esse tipo de pé acabam tendo a pisada "para dentro" que chamamos de pisada pronada. Esse tipo de pisada pode levar a alterações posturais reajustando o eixo de equilíbrio do corpo, contribuindo para o aumento da fadiga em membros inferiores.

Além disso, a diminuição do arco plantar diminui a capacidade de absorver o impacto no pé ao caminhar ou correr e pode aumentar o risco de lesão no pé e até predispor a problemas de tendinite, fasceíte plantar, dor metatarsal, dor no joelho e dor lombar pelo aumento das forças de impacto.

Evidências científicas associam o pé plano à lombalgia e alterações posturais como hipercifose e hiperlordose da coluna quando comparados a pessoas com o alinhamento normal dos pés.

Posso correr se tenho pé plano?

Sim, mas é importante ter alguns cuidados. A corrida, por ser uma atividade de alto impacto e sem a absorção e amortecimento adequado do arco plantar, pode ocasionar desequilíbrios musculares e articulares, aumentando o risco de lesão.

Para evitar problemas futuros, vale prevenir. É importante o fortalecimento de musculaturas específicas de membros inferiores e pés, além do uso adequado de um calçado ou palmilha proprioceptiva para garantir maior estabilidade e reduzir o risco de se machucar.

Existe tratamento para pé plano?

Em casos de dor e desconforto, procure por um profissional de saúde que possa avaliá-lo e orientá-lo corretamente. O tratamento geralmente é simples e focado em prevenção de lesões.

Há alguns anos, e ainda os adultos dessa geração são os resultados clínicos dessa época, era de praxe os médicos ortopedistas e pediatras recomendarem o uso de botas ortopédicas em crianças com pé chato para um possível ajuste da curvatura, mas hoje esse tipo de conduta só é realizada em casos mais específicos.

Estudos recentes apontam para bons resultados com o uso de palmilhas ortopédicas sob medida e personalizadas para cada caso, auxiliando no tratamento de forma complementar. As palmilhas fornecem suporte ao arco longitudinal dos pés, melhoram o controle e distribuição de pressão durante a caminhada e fornecem estabilidade. A cirurgia é indicada apenas em casos graves quando há interferência no padrão de marcha.

O tratamento mais adequado para prevenir alterações posturais e lesões se dá através do fortalecimento da musculatura, exercícios de propriocepção e exercícios de alongamento muscular através da fisioterapia.

*Colaboração Renata Luri, fisioterapeuta doutora pela Unifesp e Juliana Satake, fisioterapeuta sócia da Clínica La Posture

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