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Jairo Bouer

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Já ouviu falar de bigorexia? É a obsessão de jovens por ganhar músculos

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Jairo Bouer

Jairo Bouer é médico psiquiatra formado pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) e pelo Instituto de Psiquiatria do HC-USP. Bacharel em biologia pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e mestre em evolução humana e comportamento pela University College London (UCL). Nos últimos 30 anos, trabalha com comunicação em saúde e sexualidade nos principais veículos de mídia do país.

Colunista do VivaBem

14/03/2022 04h00Atualizada em 15/03/2022 08h52

Cada vez mais adolescentes, principalmente garotos, têm gasto horas a fio em treinos extenuantes na academia e buscado dietas hiperproteicas. O objetivo? Ficar "grande", "monstrão". Essa onda tem crescido a tal ponto que os especialistas já cunharam um termo para se referir a ela: "bigorexia" (big em inglês significa grande, em português usa-se a palavra vigorexia).

As redes sociais ajudam os jovens a encontrarem influenciadores que investem em treinos pesados e alimentação focada no objetivo de "crescer". E essas mesmas redes se tornam o palco predileto para que os mais novos possam exibir os resultados alcançados. O TikTok, que conversa predominantemente com os adolescentes, é a plataforma predileta dessa turma.

Uma interessante discussão sobre bigorexia foi tema de uma matéria dessa semana do jornal "The New York Times". Bigorexia tem sido encarada pelos psiquiatras como uma das manifestações de uma dismorfia corporal (percepção distorcida sobre o corpo), mais comum em homens, caracterizada por excesso de musculação, preocupação constante em não parecer forte o suficiente e o foco em dietas que levam a perda de peso e aumento de massa muscular. O resultado pode ser uma obsessão com a aparência.

A busca por músculos

Buscar corpos mais fortes não é exatamente uma novidade. Homens de gerações anteriores que queriam corpos mais sarados se inspiravam em fotos e vídeos. Depois de algum tempo, a maior parte deles percebia que ficar "gigante" é um objetivo para poucos e depende de genética, dedicação, persistência, dieta e muito tempo envolvido.

Para os jovens de hoje, 100% conectados, as redes sociais funcionam como uma espécie de estimulador dessa busca. À medida que o corpo cresce, o número de seguidores também. Assim, a audiência pode ser percebida por eles como um incentivo para ficarem cada vez maiores. Essa busca incansável por reconhecimento e recompensa implica em um risco de perda de controle, com comportamentos que podem se tornar obsessivos.

Da mesma forma que a anorexia é um distúrbio de imagem corporal, em que as pessoas sentem que estão acima do peso (mesmo sem estar) e querem emagrecer cada vez mais, a bigorexia pode se tornar uma percepção distorcida sobre o tamanho do corpo e dos músculos, que cria um desejo de querer crescer cada vez mais.

No lugar de estudos, amigos e namoro, treino e alimentação, o que acaba limitando a experiência vivencial do jovem e o aprisionando em uma luta ingrata e diária para, sempre sob a pressão da busca dos "likes", seguir malhando e comendo.

Rito de passagem

As redes sociais podem estar escalando a devoção dos garotos por um corpo forte para níveis nunca vistos antes. Em uma cultura jovem que valoriza super-heróis "bombados" e jogos online de luta e poder, ficar "big" pode se tornar quase um rito de passagem para muitos deles, que têm a fantasia de estar se inscrevendo em um mundo idealizado de homens desejados e desejáveis.

É claro que essa busca desenfreada cobra seu preço. Não é incomum que a maior parte não alcance seus objetivos ou não consiga manter os resultados desejados, o que pode impactar na autoestima. Como consequência, frustração, angústia e ansiedade.

Os trabalhos que discutem o impacto das redes sociais no comportamento dos jovens, em geral, focam em como elas podem ser nocivas sobretudo para as garotas, deixando os meninos de lado. Assim, discute-se pouco esse risco.

As redes sociais impactam também a forma como a aparência é avaliada pelos outros. Quanto mais os garotos percebem seus corpos como objetos para o público, mais eles temem ser avaliados negativamente, o que pode levar a comportamentos compulsivos. Essa pressão pode comprometer a sensação de bem-estar.

Autoestima em xeque

A busca por um corpo musculoso pode mascarar, na verdade, uma baixa autoestima em relação à imagem corporal e ao receio permanente de não ser bem avaliado pelos outros. Buscar uma suposta perfeição acaba aprisionando o garoto em uma armadilha difícil de ser desarmada.

Um estudo publicado ano passado, no The Journal of Adolescent Health, avaliou quase 4.500 homens de 16 a 25 anos e constatou que 25% deles se preocupavam em não ter músculos suficientes, e que 11% deles usavam suplementos e hormônios para aumentar a musculatura.

A pandemia agravou ainda mais a situação. Isolamento social, quebra das rotinas diárias de escola, alimentação e atividade física, mais tempo na frente de telas e das redes sociais podem ter feito com que muitos jovens ficassem mais expostos a essas idealizações e com menos possibilidades de conversar a respeito disso com os outros.

O limite entre estar bem fisicamente e ficar obsessivo por ser cada vez mais forte nem sempre é claro para os garotos muitos jovens, inseridos nessa cultura ainda machista que associa músculos e força a poder e admiração.

Assim, o que começa como uma tentativa de melhorar o corpo e ser admirado pode se tornar um verdadeiro tormento. Por isso é tão importante desconstruir padrões engessados de masculinidade e beleza do corpo do homem e estar atento para comportamentos prejudiciais e nocivos para a saúde física e mental dos mais novos.