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Jairo Bouer

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Leva o celular para a cama? Isso pode piorar seu sono e afetar sua saúde

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Jairo Bouer

Jairo Bouer é médico psiquiatra formado pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) e pelo Instituto de Psiquiatria do HC-USP. Bacharel em biologia pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e mestre em evolução humana e comportamento pela University College London (UCL). Nos últimos 30 anos, trabalha com comunicação em saúde e sexualidade nos principais veículos de mídia do país.

Colunista de VivaBem

05/03/2022 04h00

Você costuma levar o celular para a cama à noite e dar aquela checada básica em mensagens, redes sociais e últimas notícias antes de pegar no sono? Saiba que você não está sozinho! Só que esse comportamento, que se tornou quase um hábito para milhões de brasileiros, não faz nada bem para seu sono.

Uma nova pesquisa realizada pelo Sesi (Serviço Nacional da Indústria) em parceria com o Projeto Persono, com mais de 4 mil trabalhadores, revelou que quase 80% deles costumam dormir ao lado do celular, o que pode afetar diretamente o repouso noturno.

O celular, junto à TV, ao tablet e ao notebook, invadiu o quarto do ser humano contemporâneo e introduziu questões que merecem algumas reflexões. Em primeiro lugar, a radiação emitida por essas telas interfere na liberação da melatonina, uma substância produzida pelo nosso corpo que serve como uma espécie de sinalizador do sono.

Você fica mais "ligado"

A melatonina "avisa" que está chegando a hora de dormir e, assim, manda mensagens para que o nosso corpo faça os ajustes necessários para essa fase do dia. Com telas ligadas, essa sinalização pode ficar prejudicada.

Além disso, as novidades trazidas pelas mensagens de última hora, como compromissos de trabalho, tarefas que ainda precisam ser feitas, metas que não foram cumpridas, entre outros conteúdos que chegam pelo celular, podem provocar uma "excitação" adicional no nosso cérebro, que acabam dificultando o relaxamento necessário antes de dormir. Para os entrevistados da pesquisa, o que mais "tira o sono" são estresse e questões financeiras e profissionais.

Bom lembrar que a pandemia também teve um peso importante na questão do sono. Além de trazer preocupações com saúde e finanças, o trabalho em casa confundiu horários, atrapalhou rotinas e tornou a jornada ainda mais longa. Em parte, graças ao celular, não é incomum que as pessoas comecem a trabalhar antes mesmo de sair da cama e irem dormir ainda trocando mensagens com colegas e líderes.

Poucas horas de sono

A pesquisa revelou ainda que quase 40% dos entrevistados dormem apenas de quatro a seis horas por dia, lembrando que a recomendação é que os adultos durmam cerca de oito horas diárias.

Menos tempo e pior qualidade de sono refletem diretamente no dia seguinte. Quem dorme pouco ou mal acaba ficando mais sonolento e irritado, pode apresentar dificuldade de atenção, concentração e memória. Isso tudo impacta a eficiência e a produtividade nos estudos e trabalho.

Mas não é o pior! Uma noite mal dormida acaba interferindo também na liberação de uma série de hormônios em nosso corpo, o que pode refletir em uma pior qualidade de alimentação e uma menor motivação para a prática de atividades físicas, além de alterações emocionais que impactam o humor e a qualidade da nossa saúde mental.

Riscos para a saúde

Um episódio eventual de insônia tem um impacto menor. Mas, se dormir mal ou pouco se tornar um padrão, a qualidade de vida e a saúde da pessoa são diretamente afetadas. Questões como sobrepeso, obesidade, hipertensão, infarto, AVC, transtornos alimentares, diabetes, estresse crônico, ansiedade, depressão e Alzheimer, entre outros, têm relação com um sono de baixa qualidade.

Quase a metade dos entrevistados pela pesquisa revelou que anda dormindo mais tempo nos finais de semana, talvez para compensar o cansaço do dia a dia, quando o ideal seria manter a mesma rotina de horários. E, também, quase a metade dos trabalhadores revelou que se sente cansado na primeira meia hora depois de acordar, o que pode sinalizar um sono insuficiente ou não reparador.

Moral da história: é importante repensar as relações do seu sono e do uso do celular e, talvez, considerar uma redução importante na tentação de dar aquela espiadinha nas mensagens antes de dormir. Se isso for impossível para você, que tal deixar o aparelho do lado de fora do quarto?