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Jairo Bouer

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Como cuidar do seu tempo depois da pandemia

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Jairo Bouer

Jairo Bouer é médico psiquiatra formado pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) e pelo Instituto de Psiquiatria do HC-USP. Bacharel em biologia pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e mestre em evolução humana e comportamento pela University College London (UCL). Nos últimos 30 anos, trabalha com comunicação em saúde e sexualidade nos principais veículos de mídia do país.

Colunista do VivaBem

13/10/2021 13h11

Se antes da covid-19 você já desconfiava que seu tempo andava escasso, que mal conseguia cumprir suas tarefas diárias, e que seu celular dominava cada vez mais sua existência, a vida 100% dentro de casa deve ter potencializado ainda mais essas sensações. Será que conseguiremos administrar melhor esse tempo na retomada?

Essa percepção de "não dar conta do recado" não é, de fato, uma novidade pandêmica. Talvez ela seja mais um dos sintomas do nosso modo de produzir e de pensar no século 21, algo que alguns pensadores chamam de vida da performance e do desempenho, pautada pela exigência da pessoa estar sempre hiperconectada, ser multitarefa e viver em um estado permanente de euforia e felicidade.

Só que tudo isso cansa, desgasta, estressa e pode nos deprimir. Essa pressão que vem de nós mesmos para produzir o tempo todo (até nas horas de lazer) pode desaguar no que o filósofo sul-coreano Byung Chul Han, que vive e trabalha em Berlim, caracteriza como "sociedade do cansaço", título do seu livro mais conhecido. Aliás, Han acaba de lançar um novo volume disponível apenas em alemão Undinge: Umbrüche der Lebenswelt, em livre tradução "Não Coisas: Quebras no mundo de hoje" ()

Prisão digital

Em uma entrevista publicada na última semana no El País, Han explica que o celular, criado para dar maior liberdade para as pessoas, se tornou um objeto de aprisionamento digital. Para ele, o mundo das coisas que se pode tocar (objetos) estaria se dissolvendo no mundo das informações (não coisas), que passam a ditar nossos desejos de consumo. Dados e informações se tornaram obsessões em nossas vidas, tendo mais importância que objetos tradicionais.

Curioso pensar que se perguntarmos hoje a qualquer jovem o que ele mais deseja como presente, a resposta vai ser o celular, o objeto cuja função básica é acessar dados, informações e contatos. Para eles, quase que inexiste uma diferença entre "mundo digital" e "mundo real". E é o celular que faz essa fusão o tempo todo.

O celular é o ponto de trabalho e de lazer. Ele é o artigo que consolida essa dominação. Para Han, O "like" virou uma espécie de "amém digital", só que ao invés de pedir perdão, pedimos mais e mais atenção! Para o autor, as redes sociais criam um culto da obsessão por si mesmo, um movimento de narcisismo e exibicionismo que pode soterrar relações humanas.

Han dá algumas pistas do que podemos pensar para essa retomada pós pandemia. Para ele, seria importante cultivar um contato mais íntimo com a vida cotidiana e valorizar rituais que reforcem a vivência em comunidade, em oposição ao individualismo crescente. Resgatar hábitos como ir para a escola ou para trabalho, almoçar com os amigos, jogar conversa fora, entre outros, poderia ser uma saída.

Gestão caótica na pandemia

Em outro artigo recente do El País, o colunista Sergio Fanjul (o mesmo que entrevistou Chul Han) analisa a gestão caótica que fazemos do nosso tempo, que só piorou com a pandemia.

No tempo livre, não descansamos e, sim, buscamos produzir ainda mais. É trabalhar mais, consumir mais, estudar mais e viver mais experiências (para postar mais nas redes). O paradoxo da tecnologia seria que, se de um lado, ela permite fazer mais coisas em menos tempo, de outro, ela pode nos intoxicar com excesso de atividades e informação, atrapalhando nosso foco e concentração. Cada vez fica mais difícil separar o que é trabalho do que é lazer. A miragem da produtividade perfeita fica mais distante quando percebemos que ela não é, de fato, alcançável, e resta a sensação que estamos sempre devendo a nós mesmos.

Produzir mais não significa viver melhor e no sentirmos bem. Temos limites e precisamos de descanso do corpo e da mente. Viver aflito porque falta tempo para tudo não é libertador, é angustiante, e pode atrapalhar nossas tomadas de decisão

Na volta: direito ao tempo

O século 21, em oposição ao século 20, que foi o século do direito ao trabalho, pode se tornar o século do direito ao tempo. Pensando nisso, como voltar ao trabalho e às nossas rotinas, depois da pandemia?

Talvez reservar mais tempo para a vida fora das redes e guardar uma distância maior dos celulares seja um dos caminhos. Olhar para os lados e para cada dia pode ser melhor do que olhar apenas para a frente, sempre em busca da prometida luz no final do túnel. Reservar um tempo para si mesmo e pensar no lazer como lazer (não como acúmulo de habilidades adicionais) é outro pilar interessante. E, por que não, ter o direito a não fazer nada em alguns momentos, guardando seu tempo para você, sem tanta pressa e urgência.

Quem sabe, pós pandemia, a gente possa aprender a fazer uma gestão mais suave do tempo e da vida? Nesse sentido, voltar com calma, retornar aos poucos, reservar-se ao direito de, de vez em quando, não fazer nada e se lembrar que, citando o escritor e poeta espanhol Caballero Bonald, morto nesse ano (e mencionado por Fanjul), somos o tempo que nos resta pela frente. E o que você quer daqui pra frente?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL