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Jairo Bouer

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Vida online pode gerar pânico de exposição

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Imagem: iStock
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Jairo Bouer

Jairo Bouer é médico psiquiatra formado pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) e pelo Instituto de Psiquiatria do HC-USP. Bacharel em biologia pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e mestre em evolução humana e comportamento pela University College London (UCL). Nos últimos 30 anos, trabalha com comunicação em saúde e sexualidade nos principais veículos de mídia do país.

Colunista do VivaBem

11/08/2021 04h00

Algumas pessoas estão quase um ano e meio vivendo dentro de casa. Nesse período, quem é que nunca enfrentou uma fase de absoluto horror às câmeras? Sempre há os dias em que você não quer se arrumar e, portanto, não quer se expor, e também aqueles em que, mesmo com a aparência em ordem, você não se sente tranquilo e confortável para se exibir.

No meio de intermináveis reuniões de trabalho e aulas online, especialistas até identificaram uma espécie de esgotamento de muitos em relação aos encontros virtuais, que chamaram de "fadiga de zoom".

As câmeras potencializam alguns mecanismos poderosos. Em primeiro lugar, você se enxerga o tempo todo e presta mais atenção em sua imagem. Em uma reunião presencial, sua visão tende a ficar focada nos seus interlocutores, já na vida digital, além deles, você está de olho em você mesmo o tempo todo. E isso cansa!

Câmera desligada

Algumas empresas, sentindo esse desgaste, dispensam as câmeras ligadas nas reuniões, mas pelo menos no momento do "oi" e do "tchau" e nos encontros mais sensíveis não é incomum que sua imagem pisque alguns instantes nas telas.

Em um momento em que boa parte das pessoas experimenta sintomas de ansiedade, depressão e solidão em função do isolamento social e dos impactos da pandemia, essas emoções negativas podem tornar a exposição ainda mais dolorosa. Afinal de contas, quando é mais fácil você se enxergar: quando você se sente bem ou quando não está muito legal?

Essa visão detalhada e espelhada de nós mesmos também amplia o risco de muita gente mergulhar no universo das imperfeições que julga ter. Assim, um nariz, uma orelha, uma espinha ou uma ruga, por exemplo, pode se tornar um martírio diário. Quem tem questões de autoimagem ou de insatisfação com a aparência, como nos quadros de dismorfia corporal, pode ter uma dificuldade ainda maior em ligar as câmeras.

Outro grupo de pessoas que ficou mais exposto foi o dos mais tímidos e daqueles que têm algum grau de fobia social. Para eles, que se diluíam nas reuniões presenciais, os encontros virtuais com câmera podem ser também muito complicados.

Jovens expostos

Se para nós, adultos, a fadiga da exposição já é uma realidade complexa, o que pensar dos mais jovens que têm que passar boa parte do seu dia em incontáveis aulas online? Para os adolescentes, em fase de rápida transformação corporal e emocional, o risco de insatisfação com o corpo é ainda maior do que para nós.

Em um momento de maior restrição social, com menos atividades físicas e alimentação menos saudável, muitos deles estão acima do peso, o que amplia os riscos de não estarem felizes com sua aparência.

Uma matéria do Universa dessa semana, além de mostrar que os jovens enfrentam angústias semelhantes às dos adultos em relação às câmeras, traz outro ponto interessante: muitos temem ser "trolados" pelos colegas que podem fazer um print da sua imagem e postarem nos grupos com textos ou mensagens que criticam e depreciam sua aparência. Essa forma de bullying virtual coloca uma pressão extra sobre os mais novos e faz com que eles, muitas vezes, não queiram abrir as câmeras de jeito nenhum.

O problema é que para os professores tentarem garantir que os alunos estão seguindo as aulas —e não dispersos em outras formas de interações nas redes sociais— pedem ou até exigem que as câmeras fiquem ligadas, e aí a situação pode complicar.

Como possivelmente, mesmo com o retorno gradual ao trabalho e às aulas presenciais nos próximos meses, é bem possível que modelos híbridos ainda persistam por um período considerável, seria importante que escolas e empresas discutam com alunos e colaboradores formas de aula e de reuniões em que todos se sintam mais confortáveis, e que a saúde mental seja sempre considerada uma prioridade na vida de todos nós.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL