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Jairo Bouer

Caso Mariana Ferrer: por que devemos reagir?

Reprodução/Instagram
Imagem: Reprodução/Instagram
Jairo Bouer

Jairo Bouer é médico formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e bacharel em biologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Fez residência em psiquiatria no Instituto de Psiquiatria da USP. Nos últimos 25 anos tem trabalhado com divulgação científica e comunicação em saúde, sexualidade e comportamento nos principais veículos de mídia impressa, digital, rádios e TVs de todo o país.

Colunista do VivaBem

04/11/2020 15h19

Você pode achar que o caso Mariana Ferrer é mais uma dessas histórias que mobiliza feministas, e essa definitivamente não é sua bandeira. Pode até concordar que é um contrassenso alguém falar em "estupro culposo", mas prefere deixar essa discussão para juristas e advogados. Mas a verdade é que as imagens da audiência divulgadas nesta terça-feira (3) pelo The Intercept Brasil expõem um problema muito maior: o fato de que estamos todas e todos vulneráveis ao linchamento moral a que a promoter foi submetida.

O advogado Cláudio Gastão da Rosa Filho, que defende o empresário André de Camargo Aranha, apresenta várias imagens publicadas por Mariana nas redes sociais em uma tentativa de desqualificá-la. Numa delas, ela aparece sentada, vestida, com as pernas abertas, o que o advogado classifica como "posição ginecológica". Ele diz que não queria ter uma filha assim, nem queria que o filho dele conhecesse uma mulher assim.

Parece que fotos e vídeos nas redes sociais agora são o "novo" decote, o batom vermelho ou qualquer outro adereço já usado pelos detratores das vítimas de violência sexual para justificar a abominável e medonha frase "ela pediu pra ser estuprada". A fundamentação do advogado não só é uma clara demonstração de sexismo e misoginia, como demonstra um total descompasso com a realidade.

Qual a garota (e garoto) que não brinca com a própria imagem nas redes sociais? Que não explora seus melhores ângulos e valoriza o que tem de melhor nas fotos; experimenta filtros, poses e recursos para alimentar sua autoestima ou simplesmente se divertir com as amigas? Como ignorar que os smartphones e as telas são a extensão do corpo das novas gerações, e as plataformas digitais, uma expansão das suas ideias?

A sensualidade está no imaginário das pessoas, para não falar dos brasileiros, que têm essa característica tão colada à sua identidade visual. Como esperar que esse não seja o ideal de beleza da maioria dos garotos e garotas que se expressam na internet? Ainda que as fotos de Mariana contribuíssem para sua popularidade no Instagram (e sim, popularidade nas redes pode significar "ganhar dinheiro" para os influenciadores digitais), o que isso tem a ver com o consentimento para o sexo?

Quantas mulheres —sejam elas suas filhas, sejam suas irmãs, sejam suas amigas, sejam namoradas, sejam esposas —poderiam ter seu perfil e suas postagens nas redes sociais usadas como justificativa para um estupro, num eventual julgamento como o que assistimos? E o risco não é só delas! Garotos também se expõem todos os dias e de diferentes formas. Curtidas, comentários, cyberbullying, compartilhamento de vídeos eróticos ou piadas sexistas —quantos homens, na sua rede, poderiam ter um eventual "deslize" desses levado aos tribunais? Será que alguém está imune ao linchamento moral?

Para terminar, volto a repetir, como já fiz muitas vezes neste espaço, que há uma lacuna muito importante a ser preenchida na educação. Não é possível que certos homens tenham uma dificuldade tão grande, quase uma cegueira cognitiva, para entender que passaram do ponto, quando a realidade é tão clara e cristalina para as mulheres, para quem tem um mínimo de bom senso e para a opinião pública em geral.