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Estes países prometem viagens cheias de perrengues, mas merecem uma visita

Marcel Vincenti

Colaboração para o UOL

16/09/2019 04h00

Ao redor do mundo, existem países que, junto com lindas paisagens, proporcionam muitos perrengues para os turistas. São lugares com problemas como cidades superpopulosas, estradas mal conservadas, meios de transportes precários e excesso de sujeira em vias públicas e restaurantes.

Entretanto, pela aura de aventura que tais locais emanam, eu sempre me senti atraído por eles. Fiz minha primeira grande viagem internacional para a Índia. Morei durante um ano na Bolívia. Realizei caminhadas árduas em lugares remotos do Nepal e do Laos. E muito mais.

Posso, portanto, dizer uma coisa: países problemáticos podem, sim, ser palco para viagens fantásticas, mesmo que, no caminho, você passe por poucas e boas.

A seguir, veja algumas das viagens de perrengue mais recompensadoras que já realizei.

Índia

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Com mais de 1,3 bilhão de habitantes, a Índia é um caos.

Viajar pelo país asiático é ter que lidar constantemente com cidades poluídas, barulhentas e absurdamente superpovoadas, onde vacas circulam livremente comendo lixo nas ruas e nas quais uma boa parte dos turistas acaba, uma hora ou outra, sofrendo com intoxicações alimentares.

Isso aconteceu comigo: fiquei de cama por quase uma semana depois de ingerir alguma comida insalubre por lá. Ao me recuperar, eu estava mais magro do que o Gandhi.

Mas a Índia, principalmente por causa de seus intensos aspectos religiosos, proporciona experiências que fazem valer todos estes infortúnios: lembro-me de, na cidade de Varanasi, ir até a margem do Ganges antes do amanhecer e me emocionar com milhares de hindus realizando seus banhos ritualísticos no rio sagrado durante o nascer do sol.

No dia seguinte, em Sarnath, me reuni com dezenas de monges no mesmo local onde o Buda teria realizado seu primeiro sermão: foi uma imagem marcante ver todos aqueles homens juntos, realçados pelos seus mantos avermelhados, em um local de tanta importância histórica.

E o que dizer da cidade de Pushkar, onde fiéis hindus costumam tocar instrumentos musicais ao lado de um lago no pôr do sol, com a água refletindo a luz intensa do astro-rei? E sobre o Taj Mahal (na foto), uma das edificações mais lindas do mundo?

Não sou religioso, mas voltei da Índia me sentindo iluminado.

Nepal

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto

O Nepal abriga boa parte da cordilheira do Himalaia e, para ver este cenário majestoso de um ângulo privilegiado, é preciso caminhar muito.

Certa vez, resolvi fazer uma trilha pelo território nepalês para cruzar alguns dos cenários montanhosos fantásticos que existem lá.

Mas a jornada começou como sofrimento: saí do vilarejo de Naya Pul e tive que caminhar por pelo menos três dias morro acima para começar a enxergar as primeiras montanhas nevadas da área.

Diariamente, eu tinha que subir, com uma pesada mochila nas costas, centenas de degraus incrustados nas encostas que pareciam não acabar nunca.

Ao final da tarde, quando chegava a vilarejos no meio caminho em busca de uma cama para dormir, não havia água quente nos chuveiros (o que me deixou sem tomar banho por um bom tempo, visto que o clima estava muito frio). E as refeições disponíveis nos restaurantes eram sempre as mesmas: uma mistura de arroz, sopa de lentilhas e legumes refogados chamada daal bhaat.

Fiquei exausto, mas tudo valeu a pena quando me deparei com o primeiro trecho nevado da cordilheira. Qualquer um se sente pequeno na frente destes monumentos rochosos brancos com mais de 6.000 metros de altura e, de repente, parecia que eu estava no céu, diante de uma das paisagens naturais mais lindas da minha vida.

Valeu cada gota de suor e cada calo no pé.

Laos

pressdigital/Getty Images/iStockphoto
Imagem: pressdigital/Getty Images/iStockphoto

No Laos, no Sudeste Asiático, realizei uma caminhada quase tão difícil e recompensadora como a do Nepal.

Foi uma trilha de aproximadamente uma semana feita na Área de Proteção Nacional Nam Ha, uma região de florestas onde existem comunidades tribais de diferentes etnias, que recebem os turistas em suas rústicas casas.

Nestas hospedagens, os viajantes aprendem sobra a cultura, as vestimentas e a língua peculiar de cada uma destas comunidades, algo fascinante.

Mas, para chegar até eles, tive que cruzar a selva, por trilhas cheias de lama, rios caudalosos que batiam na minha barriga (e que quase me levavam com a correnteza) e, o pior, nojentas sanguessugas que grudavam nas minhas pernas a toda hora.

Com o corpo constantemente sujo e exausto, cogitei pedir arrego algumas vezes. Mas, ao chegar às vilas, o contato com povos da floresta do Laos (como os akha, na foto, com suas incríveis vestimentas típicas) fez com que eu me sentisse um descobridor de um novo mundo (tudo o que um turista quer ser, certo?).

Bolívia

RicksonLiebano/Getty Images/iStockphoto
Imagem: RicksonLiebano/Getty Images/iStockphoto

A Bolívia é famosa por suas paisagens localizadas em grande altitude. E, lá em cima, existem cenários montanhosos incríveis, além de lugares surreais como o Salar do Uyuni, o maior deserto de sal do planeta (na foto).

Para chegar até estes locais na altura, turistas sem muito dinheiro têm que pegar ônibus, o que significa enfrentar as estradas sinuosas e os meios de transporte precários do território boliviano.

Isso aconteceu muito comigo, quando quis ir de Sucre (cidade onde morei e que está a cerca de 2.800 metros acima do nível do mar) até La Paz (que chega a estar a 3.800 metros de altitude) ou o Salar do Uyuni (a cerca de 3.600 metros acima do nível do mar).

Por inúmeras vezes me vi dentro de ônibus velhos, fedidos e superlotados, cruzando rodovias que serpenteavam montanha acima e não acabavam nunca.

Ao chegar ao Salar ou às paisagens andinas que cercam La Paz, porém, eu sempre consegui me recuperar rapidamente do cansaço (e do mal-estar causado pelo ar rarefeito) para curtir algumas das visões mais lindas da América do Sul.

Etiópia

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto

A Etiópia é um dos países mais originais da África, onde existe um cristianismo ortodoxo de características únicas.

Viajar por terra pela Etiópia, entretanto, é um grande perrengue. Muitas das estradas no país são ruins e os ônibus, geralmente, são velhos e apertados.

E, pelo excesso de curvas das rodovias (por causa do montanhoso território etíope), alguns passageiros invariavelmente terminam vomitando dentro do ônibus.

Enfrentei uma das viagens mais árduas da minha vida quando decidi ir da capital, Addis Abeba, até a cidade de Lalibela (na foto), famosa por suas magníficas igrejas talhadas a partir das montanhas locais.

O trajeto é de cerca de 800 km, mas a jornada durou dois dias. Lembro de passar mal com outros passageiros dentro do veículo e simplesmente querer voltar para minha casa no meio do caminho.

Hoje, porém, me lembro que foi uma das experiências mais impressionantes chegar a Lalibela e ver suas igrejas de pedra, lotadas de fiéis etíopes vestidos de branco.

Passei três dias no meio deste ambiente religioso, em um dos lugares mais únicos do globo.

Egito

Marcel Vincenti/UOL
Imagem: Marcel Vincenti/UOL

Pense no Egito e, certamente, logo virá à sua cabeça a imagem épica das pirâmides de Gizé.

Trata-se de um lugar fascinante, mas, antes de admirar as obras faraônicas, você provavelmente terá que lidar com a cidade do Cairo, uma das metrópoles mais caóticas do mundo.

Não me entenda mal: eu amo a capital egípcia e morei por nove meses lá. É uma urbe com atrativos fascinantes, como o rio Nilo (na foto), a cosmopolita região de Zamalek e um povo extremamente cativante.

Mas é preciso se acostumar à energia um tanto intensa da cidade: o Cairo é dominado por um trânsito infernal, por uma poluição às vezes sufocante e uma cacofonia de carros e pessoas que podem desgastar os turistas mais sensíveis.

Conheço muita gente que, após se assustar com a bagunça cairota, começou a se divertir com ela e acabou ficando por lá mais do que o previsto (e, logicamente, visitando as pirâmides mais de uma vez, situadas a menos de 40 km de distância).

Vietnã

Juan Carlos Hernandez Hernandez/Getty Images/iStockphoto
Imagem: Juan Carlos Hernandez Hernandez/Getty Images/iStockphoto

O Vietnã é conhecido por ter sido palco de uma longa guerra contra dos Estados Unidos, um dos mais célebres conflitos armados do século 20.

Porém, além deste aspecto histórico, o país asiático abriga lindos destinos litorâneos (como a baía de Ha Long, na foto, onde o mar é pontuado por enormes e verdejantes formações rochosas) e cidades históricas incríveis como Hoi An.

Para chegar até estes recantos turísticos, entretanto, os viajantes devem passar, quase sempre, por uma das duas principais portas de entrada do território vietnamita: as cidades de Hanói e Ho Chi Minh.

E isso nem sempre é tarefa fácil: trata-se de dois centros urbanos extremamente caóticos, com ruas dominadas por barulhentas motocicletas e poucas paisagens bonitas à vista.

Tive uma leve claustrofobia nos dois locais e quis ir embora o mais rápido possível. Toda esta angústia, entretanto, acaba quando você chega ao litoral do país.

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