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Termo "racismo antibranco" reacende polêmica na França

Cientista político e economista explica por que ele rejeita o termo embora reconheça que há casos de racismo contra pessoas brancas - Django/iStock
Cientista político e economista explica por que ele rejeita o termo embora reconheça que há casos de racismo contra pessoas brancas Imagem: Django/iStock

Da RFI

09/08/2019 13h09

No momento em que o racismo está no centro do debate político mundial, o tema é retomado na França, por meio do termo "racismo antibranco", que divide os ativistas. De um lado, a ONG SOS Racismo, criada em 1984, que se descreve como "comprometida com a luta contra o racismo, o antissemitismo e a discriminação", que não reconhece o termo. Do outro lado, a associação Organização de Luta contra o Racismo Antibranco (OLRA), fundada há dois anos, que defende o termo "por uma melhor luta contra o racismo como um todo".

Vivemos em um mundo cada vez mais globalizado, mas o fenômeno massivo das migrações - por razões econômicas, políticas e ambientais - remonta a alguns séculos. Ele se tornou mais forte na época das grandes navegações, no século XVI, com europeus explorando riquezas e colonizando países de todos os outros continentes. Com a descolonização, o fenômeno se inverteu. Massas de ex-colonizados foram viver nas metrópoles.

A França experimentou o fenômeno com todas as suas ex-colônias, mas as guerras de descolonização, principalmente a Guerra da Argélia (1954-1962), ainda deixa marcas na sociedade francesa atual. A tendência de taxar como inimigo o "imigrante", tem origem na extrema direita, que, nos anos 1980, começou a utilizar o termo "racismo antibranco", para explicar que eles, os "verdadeiros franceses", não se sentiam mais em casa no próprio país ("chez nous", ou "na nossa casa", é um slogan da extrema direita francesa).

"Tática grosseira"

O cientista político e economista Dominique Sopo, presidente da associação SOS Racismo na França, explica por que ele rejeita o termo, embora reconheça que há, no país, casos de racismo contra pessoas brancas.

"A expressão 'racismo antibranco', nos remete às velhas expressões como 'racismo antifrancês' ou 'racismo anticristão', que são expressões que foram colocadas no debate público no final dos anos 1980 pela extrema direita francesa, quando havia muitos casos de racismo contra árabes, para inverter a realidade e dizer que o verdadeiro racismo neste país seria aquele a que os brancos seriam submetidos pelos árabes que viriam agredi-los", analisa Sopo.

"É preciso ver que este tema remete a teorias como a da 'Grande Substituição' e outras que dizem que 'agora a gente não está mais em casa no nosso próprio país porque, na verdade, tem uma horda de bárbaros, uma horda de selvagens, que vieram de fora e nos impuseram a sua lei'. É uma tática grosseira da extrema direita", continua.

"O fato de haver negros e árabes que possam ser racistas em relação aos brancos, é evidente que isso existe, mas é preciso ver que há uma manipulação conceitual da parte da extrema direita e que a SOS Racismo, que luta contra o racismo neste país há décadas e milita para vivermos juntos, será um obstáculo a estas tentativas, que são marcadas por bastante perversidade", completa.

Confrontação

Sopo foi acusado por Laurent de Béchade, empresário e presidente da OLRA, de serem ele e a SOS Racismo os causadores da ascensão da extrema direita na França, ao "negarem o 'racismo antibranco'".

"A SOS Racismo resume [o "racismo antibranco"] a um problema de extrema direita. Este discurso é grave, porque existem vítimas brancas que não são necessariamente pessoas da extrema direita. O discurso da SOS Racismo deve ser atualizado", diz Béchade à RFI.

O presidente da OLRA, associação que se apresenta como universalista, laica e apolítica, continua: "Eu acho que Dominique Sopo e a SOS Racismo contribuem fortemente para o aumento da extrema direita na França, porque esse discurso que eles sustentam divide as pessoas. Seu discurso é muito condenável. Ele é culpado não apenas do desenvolvimento do racismo antibranco como tal, mas também da ascensão da extrema direita. São fenômenos correlatos", acusa Béchade.

Sopo, entrevistado em seguida pela RFI, responde à crítica: "Pra começar, o presidente desta associação que pretende lutar contra o 'racismo antibranco' é uma pessoa que ela mesma é adulada por pessoas da extrema direita. A gente está diante de um discurso clássico, de extrema direita, aliás, que consiste em dizer que são as pessoas que lutam contra o racismo que produzem o racismo".

Béchade continua: "Há 30 anos, eu entendo que a SOS Racismo poderia manter esse tipo de discurso. Hoje em dia, achamos muito criminoso ouvir líderes de uma associação tão grande e histórica na França, que continuam a negar uma realidade e desculpar esse fenômeno. O racismo anti-branco não é menos grave nem menos sentido", defende.

O presidente da OLRA, no entanto, admite que o termo "racismo reverso" é aproveitado pela extrema direita: "Há muitas pessoas falando globalmente sobre isso no prisma político, da direita à esquerda, mas em geral, é explorado pela extrema direita e também pela extrema esquerda, que, pelo contrário, explicará que não existe", diz.

"Partidos de extrema direita e extrema esquerda exploram o tema racismo. A nossa associação foi criada para lidar com o problema sem apropriação partidária", conclui Béchade.

Como tratar casos de racismo contra brancos?

Para Sopo, há que se fazer a distinção entre fenômenos majoritários e minoritários.

"O fato de ser agredido quando se é branco não quer dizer necessariamente que é um caso de racismo contra brancos. Tem negros e árabes que são agredidos por outras questões que nada têm a ver com a sua origem. O que determina o racismo contra uma pessoa não é a sua cor de pele, mas a motivação da agressão. Até a prova contrária, eu gostaria de ver casos numerosos concretos que me mostrem que existe, na França, um fenômeno majoritário de agressividade contra brancos", explica.

"A realidade é que, a partir do momento em que se é negro ou árabe na França, é que se sofre de casos de discriminação racial, a situações verbais em lugares públicos ou na mídia, que se é mais suscetível de controle e violência por parte das autoridades. Esta é a realidade da França", salienta.

Paralelo com o feminismo

Cansado de ter que explicar por que a SOS Racismo não se dedica à luta contra os casos de racismo contra pessoas brancas, Sopo traça um paralelo com o feminismo.

"Será que passa pela cabeça das pessoas criticar associações feministas porque elas não cuidam de casos de violências de mulheres contra homens? Existe também a violência de mulheres contra homens, mas, é sabido que são preferencialmente as mulheres que são vítimas de violência por parte dos homens. E é normal de concentrar na situação que é majoritária, massiva e advinda do patriarcado. É a mesma coisa com o racismo", conclui.

"Evidentemente que se pode ser vítima de racismo quando se é branco, em países de maioria branca, sem dúvida, mas o fato racista majoritário, o fato de inferiorização majoritário e massivo e aquele que atinge as pessoas que têm origem principalmente nas antigas colônias francesas", explica.

"Eu não reconheço este termo 'racismo antibranco' porque é uma arma ideológica que está nas mãos da extrema direita e eu reforço que o fato social massivo não é a agressão de brancos por negros ou árabes na França, mas o fato de que negros e árabes são agredidos são discriminados e inferiorizados, são massivamente vítimas de preconceitos e de estereótipos. Estas são as razões pelas quais a temática do 'racismo antibranco' é completamente torta", finaliza.

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