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BBB 22: por que usar o pronome masculino para se referir a Linn é errado

Júlia Flores

De Universa

21/01/2022 12h51

"Não sou mulher, não sou homem, sou travesti", declarou a cantora Linn da Quebrada, participante do "Big Brother Brasil 2022", ao entrar no reality show. Em pouco mais de um dia dentro da casa mais vigiada do Brasil, no entanto, a artista já teve sua identidade de gênero violada: na tarde de quinta-feira (20), Eslovênia utilizou o pronome "ele" para referir-se à cantora. A sister foi corrigida pelos demais participantes e recebeu duras críticas do público na internet.

Horas depois outro brother, desta vez Rodrigo, também recebeu críticas ao usar a palavra "traveco" para fazer uma piada. "Atitudes como essas podem atingir negativamente uma pessoa não cisnormativa", diz a Universa a ativista travesti Rebecca Gaia.

O termo "travesti" é utilizado por pessoas trans que se identificam com a feminilidade e não estão dentro do espectro binário de gênero homem-mulher. Durante muito tempo, a palavra foi associada à marginalidade, mas, recentemente, militantes e ativistas estão ressignificando o termo.

Em entrevista a Universa, a vereadora Érika Hilton (PSOL-SP), que também se identifica com travesti, disse que "ao me apresentar como travesti, especialmente no Parlamento, quero demarcar a luta histórica que as travestis travaram durante muito tempo. A palavra traz consigo resistência, luta e ação, é um marcador social da nossa trajetória".

Por que não devemos usar o pronome 'ele' ao nos referirmos a uma travesti?

Rebecca Gaia é uma ativista travesti de 20 anos - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Rebecca Gaia é uma ativista travesti de 20 anos
Imagem: Arquivo Pessoal

A ativista Rebecca Gaia tem 20 anos e se identifica como travesti. Assim como Linn, ela também já foi chamada pelo pronome masculino: "Toda vez que saio de casa sofro um ataque desse, isso é comum —infelizmente, mais comum do que imaginam. Há pouco tempo, fui tomar a dose de reforço da vacina contra covid e fui chamada de 'O Rebecca' o tempo todo. Estão acostumados a desrepeitar nosso pronome".

É mais fácil eu dizer quando não sofri violência do que quando eu sofri.

Ela explica por que é errado chamar uma travesti pelo pronome masculino: "Quando você chama uma pessoas trans pelo pronome com o qual ela não se identifica, está invalidando a identidade do outro, uma vez que você está usando o seu próprio termômetro do que é ser ele, do que é ser ela; isso é cutucar uma grande ferida".

Segundo Rebecca, tal como fez Linn, a saída em situações como esta é corrigir quem usou o pronome errado. "Uma pessoa trans, quando é chamada pelo pronome errado, é violentada. O outro não me enxerga como eu me mostrei para ele. Eu posso me apresentar como Maria, mas ela me enxerga como João. Isso dói muito, porque ele está me desrespeitando", pontua.

Para ela, é importante que pessoas cis abracem a luta e participem dessa correção. "Se uma pessoa cis, por exemplo, vê essa violência acontecendo, ela deve corrigir. Essa situação é um constrangimento enorme para quem é trans. Então tem de constranger quem falou errado de volta. Eu garanto que a dor e a vergonha são maiores do lado de quem está sendo violentado."

'Usam o termo traveco para nos invalidar'

A ativista explica que o termo traveco é pejorativo e usado para se referir às travestis no masculino, como "uma coisa estranha". "É uma palavra usada para constranger. Tem pessoas que sentem medo de falar travesti, mas travesti é uma identificação de gênero feminina. Sei que no senso comum representa algo negativo, mas é só porque vai contra a norma cisnormativa da sociedade", diz.

"Ter uma travesti em um programa nacional é algo muito representativo", finaliza Rebecca, dizendo ainda que a presença de Linn na casa mais vigiada do Brasil não serve apenas para expor como a sociedade é transfóbica.

"Em pouco tempo no BBB ela já quebrou vários estereótipos do que as pessoas esperam de uma travesti; ela está ali para se divertir, assim como uma pessoa normal. Esperavam que ela chegasse gritando, brigando. Esquecem que travesti é um ser humano comum."

"Não sou mulher, não sou homem, sou travesti", declarou a cantora Linn da Quebrada, participante do Big Brother Brasil 2022.