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Suzana Pires: "Não dá mais para entrar num set onde só tem homem"

A atriz e roteirista Suzana Pires lança filme em março Imagem: Gustavo Nogueira

Luiza Souto

De Universa

03/02/2020 04h00

Com quase 30 anos de carreira e próximo de estrear o filme "De perto ela não é normal", em março, a atriz e roteirista Suzana Pires, 43, decreta: "Não vou entrar no set que só tenha gente branca, heterossexual, da zona sul e homem".

No lugar de reclamar da falta de políticas públicas para mulheres ou de criticar a pouca de diversidade na TV para seus mais de 375 mil seguidores no Twitter, ela, que é formada em Filosofia pela PUC-RJ, diz preferir colocar a mão na massa.

E colocou. Tanto que há dois anos criou o Instituto Dona de Si, que começou com uma coluna em revista feminina e hoje é uma aceleradora que aumenta a atuação das mulheres nos mercados de audiovisual, moda, gastronomia, literatura e design de games. Mais de mil mulheres foram atendidas, entre elas a apresentadora do canal GNT Luana Xavier, a atriz, autora e diretora Tatiana Tiburcio e a youtuber Leona Vingativa.

Num bate-papo com Universa enquanto atravessava a Linha Amarela rumo o aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, ela fala ainda de aceitação do corpo e conta dos machismos que sofreu na carreira.

Quais as maiores dificuldades você ouve das mulheres que tentam entrar e também permanecer no mercado de trabalho?
O que eu percebo é que elas ficam tentando se provar mais e mais, e esperam alguém de fora dar a chancela, enquanto os homens mesmo se chancelam. A gente começa a mexer com essa noção do valor dessa mulher. Esse é o maior problema feminino: não saber o seu valor. Por isso, escolhi usar a aceleração, e não a capacitação. Não vou ensinar ninguém a escrever, mas vou melhorar a maneira que ela tem de se valorizar.

Quando você começou a carreira, aos 15 anos, não se discutia machismos, padrões de beleza na mídia, diversidade. Você tinha essa visão clara sobre a disparidade salarial, sentiu que perdeu oportunidades por ser mulher ou por não estar dentro do dito padrão de beleza?
Sim. Desde que comecei a escrever, no fim dos anos 1990, até 2016 fui a única mulher em todas as equipes de roteiro. Numa delas, percebi que só era ouvida quando ia maquiada e toda arrumada. Numa outra, eu precisei desenvolver um humor masculino para me comunicar com meus colegas e ser escutada. Numa outra, eu precisava ter um jeito agressivo, assertivo e impor medo. Claro que em todas eu ganhava menos. Somente quando fui trabalhar na equipe do Walther Negrão, em 2010 [na novela "Sol Nascente"], não tive que fazer esforço para ser ouvida. Ele me respeitou como parceira naturalmente. E a TV Globo sempre me pagou de acordo com minhas entregas, sem fazer distinção de gênero.

Esse é o maior problema feminino: não saber o seu valor

A gente tem visto mulheres do meio artístico denunciando a falta de oportunidade, pedindo mais espaço para elas. Você vê mudanças?
De forma lenta. Eu acho que existe uma atenção a isso. E estou falando do meio criativo de uma maneira geral. Não dá mais para você entrar no set onde só tem homem como cabeça de equipe. Me desculpe. Não dá para entrar numa equipe de roteiro que só tem gente branca. Não dá mais para ter só estilista homem assinando as coleções. As empresas estão atentas. Fora toda a questão de parceria entre mulheres, que precisa ser fortificada. A gente vem de uma herança histórica de competitividade, que acabou com a gente como um time. Para mudar, precisamos ter um time feminino, entender nosso valor no mundo e o quanto nosso trabalho pode impactar. E também não esperar a chancela de fora.

Vimos algumas marcas, como a Victoria's Secret, tentando ser inclusiva e contratando sua primeira modelo plus size, por exemplo, mas que também foi criticada porque essa modelo veste tamanho 42. Como perceber se a empresa está apenas querendo surfar na onda da inclusão?
Consigo sacar no primeiro "oi", mas a maior parte das empresas que me procuram para fazer parceria está realmente querendo fazer algo. E não precisa ter todos os profissionais capacitados para essa mudança. Basta buscar ajuda de fora. O [banco de investimentos] Goldman Sachs, por exemplo, não faz mais IPO (lançamento de ações) se a empresa não tiver uma mulher no conselho. Estão mudando mesmo. Começou a mexer no bolso, aí as pessoas começam a se mexer.

Por isso você lançou, em 2019, uma coleção de bodies para mulheres de todos os corpos, com o estilista Amir Slama?
Isso foi muito sério, porque a gente realmente colocou modelo vestindo 58 na passarela no São Paulo Fashion Week. O que acontece com esse papo de diversidade é que não pode ficar no meio do caminho. Quarenta e dois não é diversidade: ela entra na loja e tem esse tamanho. Minha irmã veste 50 e sei o que ela passa. Tem que passar de 48, aí já entra na inclusão. E deu certo, porque ele [Slama] quis fazer. E a gente realmente fez um desfile com todas as mulheres, de Anna Muylaert a Jojo Todynho.

Você já se prejudicou para se manter no dito padrão de beleza?
Cara, já fiz cada dieta maluca, de desmaiar, de baixar a pressão. Mas tinha que fazer. Era bem na época que eu fazia teste, no final dos anos 1990, quando as modelos estavam entrando na televisão. E eu nunca tive esse perfil. Também não se tinha muito nutricionista, como tem hoje, e acesso à internet. Era tudo na base da dieta da Lua ou ficar sem comer. Mas isso está mudando. Vejo que as mulheres não estão muito nesse assunto da magreza. Tenho uma afilhada de 15 anos, que é imensa de alta, e na turma dela são todas diferentes. No meu grupo, na época de adolescente, era todo mundo parecido. O cabelo liso, com franja igual a das paquitas e água oxigenada.

Tamanho 42 não é diversidade. Tem que passar de 48

E como você, como artista, pode contribuir para essa quebra de padrões?
Acho muito importante que quem está na televisão fale sobre isso. Muitas vezes, encontro gente falando: "Eu queria ter seu corpo". E eu falo: "Pô, amiga, não queira não!". Mas a gente vira um desejo, uma vontade. As pessoas falam: "Ah, ela tem 43 e tem esse corpo". Ok, gente. Então é importante que eu fale, que a Cleo fale, porque quem está falando está a fim de encontrar uma verdade mais legal. Já vesti 42, 44. E quando entro em novela, emagreço, mas tudo mais natural. Hoje sei que posso tocar as mulheres com a minha voz.

Por isso você trouxe a cláusula de inclusão para o filme "De Perto Ela Não é Normal", que estipula um determinado percentual de profissionais visando a diversidade?
Sim. E mesmo assim é difícil colocar em prática, porque você realmente tem que mapear os talentos para quebrar padrões. Eu queria uma mulher negra, da quebrada, para fazer a trilha, porque queria que fosse um ouvido feminino. E pra achar? Quem me ajudou foi a [cantora] Gaby Amarantos. Porque a gente vai se fechando na nossa bolha. Além disso, inverti todos os personagens ricos. Eles são feitos por atores negros, que são o Isak Dahora e a Gaby. E coloquei uma atriz trans, que é a Maria Clara Spinelli. E falei: "Não vou entrar no set que só tenha gente branca, heterossexual, da zona sul e homem". Sempre que eu for atriz ou roteirista e produtora associada do filme, vou pedir a cláusula de inclusão.

Homens reclamam que quando a mulher resolve fazer um projeto somente para o público feminino, como o "Concurso Cultural de Cinema Feminino", ela está promovendo uma divisão de gêneros, quando deveria incluir. Qual sua avaliação sobre esse pensamento?
Os homens que falam isso precisam desenvolver vergonha na cara e consciência do machismo que impõem diariamente sem perceber. E entender que, para termos equilíbrio de gênero algum dia, é importante um certo radicalismo para o desenvolvimento feminino. Eles que lutem! [risos]

A mulher e a cultura, hoje, estão bem representadas no governo?
Acho que quando não estamos satisfeitos com alguma coisa, temos que fazer a nossa parte. Não acho que tenha uma política pública séria para a inserção das mulheres na liderança do mercado de trabalho. Isso precisa ser mais efetivo, mais sério. Não estou aqui para criticar o que cada um acredita no governo atual. Não vou entrar nesse assunto porque aí são crenças pessoais, mas não acho que o governo deva governar através de crenças pessoais. O olhar para o coletivo seria mais interessante. Se eu ficar o dia inteiro criticando na rede social porque acho ruim o que o governo está fazendo, estarei perdendo o meu tempo. Estou fazendo a minha parte. E realmente, agora, a gente tem uma possibilidade de respiro na Secretaria da Cultura. Eu não sei como é que vai ser com a [atriz] Regina Duarte, mas mais uma vez a classe artística vai mostrar que sobrevive. E com sobreviventes não se brinca

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