PUBLICIDADE

Topo

Matheus Pichonelli

O que dizer do papel(ão) da TV Globo na condução do caso Marcius Melhem

Marcius Melhem no Conversa com Bial - Reprodução
Marcius Melhem no Conversa com Bial Imagem: Reprodução
Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do UOL

27/10/2020 04h00

No dia 14 de agosto, a TV Globo comunicou a demissão de Marcius Melhem de seu quadro de funcionários. Quem lesse a notícia pelos canais da emissora poderia imaginar que se tratava de uma composição de litígio amigável após 17 anos de "sucessos" — conforme a nota divulgada à imprensa. Melhem estava licenciado do cargo de coordenador do departamento de humor da emissora havia quatro meses.

Tudo, segundo a versão oficial, ocorreu em comum acordo. Ele deixava a emissora sob loas por sua "importante contribuição para a renovação do humor nas diversas plataformas da empresa".

Na nota, a Globo dizia também estar tomando "uma série de iniciativas para se preparar para os desafios do futuro e, com isso, adotado novas dinâmicas de parceria com atores e criadores em suas múltiplas plataformas".

"Agora tenho mais tempo para minha vida pessoal. E para desenvolver ideias com calma e livremente. Quando chegar a hora de elas acontecerem eu venho aqui contar", escreveu o humorista em suas redes.

Em pleno 2020, tanto a Globo quanto o ator pareciam acreditar que se ninguém falasse nada sobre um dinossauro sentado à mesa da sala de jantar, o dinossauro naturalmente deixaria de existir. O dinossauro, no caso, era uma denúncia de assédios sexual e moral contra o então todo-poderoso chefe do núcleo humorístico global.

Quase nove meses haviam se passado entre o anúncio da saída "em comum acordo" e a primeira notícia sobre a acusação, feita pela atriz Dani Calabresa, e publicada no UOL.

Foi só no último fim de semana, porém, que detalhes do caso vieram à tona, graças à corajosa entrevista da advogada criminalista Mayra Cotta concedida à colunista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo.

A defensora, que fala em nome de seis vítimas de assédio sexual, foi categórica em dizer que o chefe delas "atuou de forma muito violenta com várias atrizes" e também assediou moralmente outros funcionários.

Um comportamento recorrente, segundo ela, era trancar mulheres em espaços e tentar agarrá-las. Ele é acusado ainda de enviar de forma insistente mensagens de teor sexual para atrizes que ele decidia se iam ser escaladas ou não para trabalhar. E de prejudicar a carreira de quem o rejeitasse.

Enquanto a emissora ganhava tempo, quantas dessas vítimas ficaram vulneráveis a possíveis represálias desde que a primeira notícia circulou? Quantas outras mulheres estiveram sob o risco de serem assediadas?

Mayra Cotta foi a público após o encerramento do processo dentro da emissora. O processo não garantiu às vítimas, que têm o apoio de cerca de 30 funcionários da emissora, o reconhecimento nem a gravidade do que passaram.

A ideia, segundo Cotta, é impedir que o fato fosse "simplesmente varrido para debaixo do tapete".

Dito e feito: com a entrevista, o tapete foi chacoalhado e toda sujeita voou pelo ventilador, ganhando todos os predicados que formam um grande escândalo. Este escândalo não diz agora só respeito às vítimas e o acusado, mas também à forma como a emissora cozinhou o caso em banho-maria e tentou encerrar o assunto com um tapete de panos quentes.

O que dizer do papel(ão) da Globo na condução do episódio?

Fiz esta pergunta a Joanna Burigo, especialista em mídia, gênero e cultura pela London School of Economics. Para ela, o caso mostra a urgência de as empresas investirem em treinamentos sobre o que significa realmente as lutas feministas e também antirracistas.

Capacidade para isso não faltam a empresas como a TV Globo, que ela classifica como "bastante competente em ter mão firme no pulso dos discursos sociais" e na produção de conteúdo que abrace esses discursos sociais. Isso não significa, porém, que essa produção de conteúdo, instituída no campo retórico, esteja efetivamente reverberando estruturalmente dentro da empresa.

O paralelo com o movimento #MeToo, criado pela ativista negra norte-americana Tarana Burke e que abriu precedentes para essa luta pública, é inevitável. "No "Me Too" tivemos artistas, profissionais de mídia, atrizes, produtoras, roteiristas, que se juntaram com advogadas para criar um caso grande, partindo de uma denuncia da Alyssa Milano, que se utilizou de uma hashtag antiga para congregar relatos de assédio sexual no ambiente corporativo. Essa organização acarretou numa mudança cultural muito grande na produção de outros conteúdos. Mas não temos como saber como isso reverberou para dentro das organizações", diz Burigo.

Para a especialista, há avanços na articulação coletiva para que casos de assédio sejam não apenas levados a público, "mas tratados com a diligência devida, dentro do Estado democrático de Direito e utilizando os aparatos legais que estão à nossa disposição".

"A Dani Calabresa, num ato de coragem, denunciou um figurão, um homem muito poderoso de uma empresa muito poderosa dentro de uma indústria muito poderosa. Só que ela é a Dani Calabresa. Não sabemos como a menina do almoxarifado lidaria com isso."

Burigo afirma que cabe ao departamento de recursos humanos e aos altos escalões das empresas, sobretudo de comunicação, reconhecer que "uma coisa é tratar discursivamente de uma questão, inclusive de forma humorística, que é o contexto em que essa história se desdobra". "Outra, bem diferente, é a cultura dentro das empresas, e como seus funcionários, e as relações de poder entre eles, estão ou não sendo manchadas por abusos machistas e racistas. Sempre temos que pensar nessas duas frentes, pelo menos, num país como o Brasil."

Para ela, é papel da Globo, como empresa, "garantir que existam recursos destinados a treinamentos, sessões dinâmicas e conversas com profissionais para se certificar de que haja uma integração do pensamento das lógicas feministas do processo corporativo e não apenas o uso retórico desses discursos em sua programação".

Em um caso como este, não é (ou não deveria ser) necessário aguardar as cenas dos próximos capítulos para saber se ficou a lição.

Era inevitável que o público uma hora percebesse que a novela estava sendo encerrada de forma abrupta com uma nota insossa. Vai que cola, não é? Pois não colou.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL