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Viver é melhor que sonhar: saudade do tio fez meu filho entender Belchior

Belchior - Reprodução
Belchior Imagem: Reprodução
Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do UOL

28/09/2020 04h00

Têm sido assim as nossas manhãs: depois que meu filho acorda, deixo o que estou fazendo de lado para retomar quando a mãe volta do trabalho. Trocamos o bastão (um bastão de sete anos e todas as perguntas do mundo) e volto a escrever com o que resta de fôlego no começo da tarde. Depois, revezamos novamente.

Nos últimos dias, com a temperatura mais propícia, saímos para pedalar logo cedo, numa tentativa de queimar a energia e a ansiedade pelas ruas do quarteirão.

E vamos conversando, engatando papo como a marcha alimentada por movimento.

Na semana passada, ele quebrou quase seis meses de silêncio e disse que sentia falta do tio-avô, que morreu em março.

O que dizer nessas horas? Como ensinar alguém a minimizar a saudade de alguém por quem ainda sentimos saudade e não sabemos como lidar?

Meu tio era a alma da casa dos meus avós, localizada em uma cidadezinha perto de São José do Rio Preto onde passei boa parte da infância e para onde temos ido cada vez menos.

Não importa o quanto estivesse enroscado ou correndo, ele tinha sempre uma piada a tiracolo. Tinha no bolso também alguma história que o fazia cair da cadeira engasgado de tanto rir. E alguma iguaria de alguma chácara vizinha guardada para a visita dos sobrinhos.

Na última vez, não fez questão de evitar o rapa que meu filho promoveu em sua coleção de Budas na entrada da casa. Meu filho tem obsessão por estátuas e miniaturas de divindades. Ganhou ali um presente e um amigo para toda a vida.

Mas a vida é um recurso infinito com hora para acabar.

Naquela mesma visita, me lembro de ter levantado às pressas no MEIO do almoço porque recebera, de São Paulo, um pedido urgente para refazer algum texto. Não lembro o que escrevi. Duvido de que algum leitor ainda lembre.

Mas não me esqueço do que disse à saída, quando avisei que sabotaria os planos para a sobremesa.

Fica para a próxima, eu disse.

Abracei correndo meu tio e fui para outra casa terminar meu trabalho. De lá, voltamos para nossa cidade.

A vida podia esperar; o trabalho, não.

E foi a trabalho, correndo de um lugar a outro, angustiado para dar conta de tudo e não deixar faltar nada, almoçando mal na rua e comendo muito em casa, que meu tio passou mal ao volante numa manhã de março. O coração não aguentou e parou de bater.

Eu estava, literalmente, do outro lado do mundo. A trabalho. Quando voltei, havia uma pandemia. E não pude até hoje visitar meus primos, minha tia e meus avós, que ainda lidam com a perda. Se é que isso é possível.

Meses depois, pedalando preocupado com o tanto de coisa que tinha para terminar no trabalho, disse para meu filho que fazia sentido ele sentir saudade do tio-avô, que faria aniversário no dia seguinte. Ele era nosso familiar mais engraçado, mais para cima, mais enroscado e ao mesmo tempo mais generoso —se, em vez de Budas, meu filho ou qualquer outra pessoa quisesse levar para casa sua coleção de paletós, ele tampouco faria objeção.

Disse, então, para, quando estivesse em casa, que ele fechasse os olhos e rezasse, se quisesse rezar, para sonhar com o tio.

Eu mesmo tenho sonhado muito. Na primeira vez, ele, que era engenheiro, me contava que estava envolvido em um projeto fluvial em uma área onde os rios eram maiores do que poderia imaginar. Maiores, inclusive, que o rio Amazonas, ele frisava.

No último, eu estava perdido numa rua escura quando ele aparecia e me oferecia uma carona salvadora. Em vez de me levar para a casa atual, ele me deixava no velho apartamento da cidade onde morei até meus 18 anos. Ao dizer tchau, eu entendia o que estava acontecendo e o agarrava num abraço para não deixá-lo ir embora daquela vez.

Lembrei disso enquanto pedalava com meu filho e o ouvi dizer: "Mas pai, sonhar não é melhor que viver".

De onde estava, meu tio, que me apresentou Belchior, deve ter aberto um sorriso, satisfeito. Com algum soluço entre o riso e o choro que lhe era comum, mas com a sensação de que neste mundo somos todos continuidade.

Ele devia saber disso quando se meteu a ser escritor e fez um quadro com um poema antes de eu nascer. Nele dizia amar cada segundo e cada movimento meu tentando sair da barriga de minha mãe, sua irmã.

Como um barco que se afasta, a vida adulta nos distancia dos nossos pontos de origem. Nos distrai e forma cascas. Como todo adulto, eu me decepcionei com todas as pessoas que eram adultas quando eu era criança. Não entendia algumas escolhas, discursos, projetos e orientações, inclusive políticas.

Nada disso hoje parece fazer sentido.

Meu distanciamento era quebrado, vez ou outra, pelas mensagens que meu tio me mandava por WhatsApp nas horas mais impróprias até o fim da vida. Por WhatsApp trocávamos links das músicas que ouvíamos lembrando um do outro. Trocávamos também lamentos toda vez que um ídolo em comum morria. O último foi o Tavito, que nos ensinou a tocar o mesmo violão e nele compor sempre uma nova canção. Foi estranho lamentar sozinho pelo Aldir Blanc.

Meu tio, que a certa altura da vida decidiu morar no mato, era do tipo que construía a cozinha de casa em torno de um jequitibá para não precisar derrubar a mata nativa. Foi lá que ele construiu um bar particular com as paredes forradas de pôsteres e cartazes de seus intérpretes favoritos, de Nelson Ned a Renato Russo.

No dia do seu aniversário, minha tia manteve aquele espaço iluminado e deixou tocar a música que ele sempre botava quando chegavam as visitas. Era o "Trenzinho Caipira", que na versão cantada por Ney Matogrosso descreve um trem indo embora com um menino. Um trem sem destino pro dia novo encontrar.

Mas em casa, em sua memória, a trilha que tocou o dia todo, no dia de seu aniversário, foi composta pelo Belchior, que agora tem um fã de sete anos e tenta entender como é possível morrer em um ano e no ano seguinte, não. Belchior tinha razão. E tinha razão quando dizia que nossos ídolos ainda são os mesmos. E que, apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais. E nossos tios. E, agora, nossos filhos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL