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Maria Carolina Trevisan

Vacina: disputa política entre Bolsonaro e Doria atrasa fim da pandemia

Jair Bolsonaro e João Doria - Marcos Correa/PR; Roberto Casimiro/Agência O Globo
Jair Bolsonaro e João Doria Imagem: Marcos Correa/PR; Roberto Casimiro/Agência O Globo
Maria Carolina Trevisan

Maria Carolina Trevisan é jornalista especializada na cobertura de direitos humanos, políticas públicas sociais e democracia. Foi repórter especial da Revista Brasileiros, colaborou para IstoÉ, Época, Folha de S. Paulo, Estadão, Trip e Marie Claire. Trabalhou em regiões de extrema pobreza por quase 10 anos e estuda desigualdades raciais há oito anos. Coordena a área de comunicação do projeto Memória Massacre Carandiru e é pesquisadora da Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós Graduação. É coordenadora de projetos da Andi - Comunicação e Direitos. Em 2015, recebeu o diploma de Jornalista Amiga da Criança por sua trajetória com os direitos da infância.

Colunista do UOL

14/01/2021 04h00

Nossa população está sensível. Estamos exaustos, com medo e tristes. Mergulhados em um país que disputa o monopólio da "verdade" quando os fatos apontam para o colapso. Temos na nossa conta quase 205 mil vidas perdidas para a pandemia em um contexto perigosíssimo: o governo de Bolsonaro armou civis como nunca, estimulou policiais a descumprirem as ordens dos governos estaduais em um tipo de comando miliciano da segurança pública, retrocedeu em direitos conquistados e faz questão de se colar ao ainda presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, cuja transição, se houver, pode ser sangrenta. À imagem e semelhança de Trump, Jair Bolsonaro (sem partido) se antecipou também sobre fraudes nas eleições com urna eletrônica.

Nos últimos dois anos, a violência aumentou, especialmente os feminicídios, e as políticas públicas não deram conta de contê-la. Tampouco foram capazes de proteger crianças negras e pobres das balas perdidas em tiroteios e operações policiais, ou de evitar o desaparecimento de meninos negros moradores de favelas. Jovens não têm perspectivas, não têm escola ou preparação para o mercado de trabalho. Não há plano.

O auxílio emergencial terminou bem antes da pandemia e o ministro da Economia, Paulo Guedes, não propôs nada. Tampouco o da Cidadania, Onyx Lorenzoni, que aparece para compor a competição ideológica sem sentindo em um país afundado em pobreza e desemprego.

"Talvez nem vermes esquerdistas com Goebbels, Hitler, Mao ou Stálin imaginariam ser possível um ato gravíssimo como esse", foi um dos posts de Onyx mais recentes no Twitter, ao criticar o banimento de Trump das redes sociais, por incitação ao ódio. Tenta esconder a incompetência nessa interminável disseminação de desinformação.

O Congresso, neste momento, está ocupado com a corrida pelas presidências da Câmara e do Senado. Será a maior troca de cargos e favores que já vimos no país, com alianças incompreensíveis em que o centrão sempre tem vantagem.

Enquanto isso, e o Brasil? O Brasil figura internacionalmente como país negligente para lidar com as crises sanitária e econômica, que devasta a Amazônia a cada dia mais. Nesse contexto todo, estamos dizimando também nossos povos indígenas, grupo populacional com mais mortes por coronavírus proporcionalmente.

É urgente começar a vacinação

Diante disso tudo só há uma saída: precisamos começar urgentemente a vacinação em massa. A CoronaVac é a melhor - porque é a única - opção que temos neste momento. É eficaz (diminui os riscos de morte, tem taxa de eficácia global de 50,4%), temos condições de produzir aqui e é a mais adequada para a distribuição na rede de vacinação já existente.

O que atrapalhou foi mais uma vez a arrogância do governador de São Paulo, João Doria (PSDB), que insiste em competir com Bolsonaro sobre quem é mais esperto, quem ganha. Seu governo fez um anúncio impreciso, que levou à desconfiança.

Nessas, todos perdemos. A comunicação equivocada do governo paulista fragilizou a credibilidade das informações. Será necessário multiplicar as campanhas de vacinação para que se desfaça o problema criado. Aliás, por que ainda não temos uma campanha de conscientização para a vacinação?

Perdemos tempo e recursos. E vamos perdendo vidas. O Brasil é o único país do mundo em que a vacina figura como elemento de uma campanha eleitoral (e nem estamos em período eleitoral, estamos em período emergencial).

Doria tem nas mãos a nossa única saída. Não precisa entrar em guerra com Bolsonaro. Enquanto não botarmos em prática a vacinação, seguiremos nesse limbo, nesse purgatório, nessa angústia infinita em que se sente e a presença constante da morte, com medo de quando ela pode se materializar em alguém próximo, ou em você mesmo.

Não há outro caminho: a prioridade agora tem que ser salvar vidas, o que só é possível com a vacina. No momento, a vacina é a CoronaVac. Espera-se que outras possam entrar no país o quanto antes. Precisamos de uma saída da pandemia.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL